quarta-feira, 23 de setembro de 2026

[#1821][Out/2002] THE LORD OF THE RINGS: The Two Towers


Não é incomum o segundo filme de uma série ser o melhor, e os motivos são bem fáceis de entender: os realizadores já têm uma ideia mais firme do que estão fazendo, mas ainda não esgotaram tudo que aquela premissa tem a oferecer. É assim que surgem filmes como A Família Addams 2, O Exterminador do Futuro 2, Homem-Aranha 2, O Cavaleiro das Trevas e O Soldado Invernal, naquele ponto ideal em que o conceito amadureceu, mas ninguém precisou ainda pular o tubarão para manter a coisa andando.

E esse poderia muito bem ter sido o caso de As Duas Torres... se ele não estivesse espremido entre uma adaptação espantosamente bem-sucedida do estilo de escrita bastante... peculiar, vamos colocar assim... do Tolkien, apresentada a um mundo inteiramente despreparado para aquilo, e um encerramento que divide o recorde de mais Oscars conquistados por um único filme com onze carequinhas dourados (empatado com Ben-Hur e Titanic, saiba você).

Família mais difícil de nascer no meio que ser primo da Rayssa Leal, hein?

Também não ajuda muito que boa parte da jornada de Frodo e Sam depois de deixarem a Sociedade funcione melhor (literalmente) no papel do que na tela. É uma caminhada miserável, exaustiva e cada vez mais desesperançosa, o que rende uma leitura excelente quando você está dentro da cabeça dos personagens, mas bem menos interessante de assistir quando divide tempo de filme com três filhos da puta bonitões abrindo caminho na porrada por uma capa de álbum de heavy metal. 

A parte deles no livro acaba entregando um encontro particularmente memorável com Laracna, mas Pedro Filho do Zé transferiu isso para O Retorno do Rei, o que faz sentido pq dá à jornada dos dois um grande confronto no último filme. Yay! Mais emoção para Frodo e Sam no encerramento!

... só que isso cria outro problema: o que você faz com eles em As Duas Torres, então? Assim, o Faramir do filme é recrutado para o negócio da família de tomar decisões questionáveis perto de joalheria, e nasce o Desvio por Osgiliath. A tentação dele dá aos hobbits um obstáculo e um clímax, mas eu sempre achei que essa sequência inteira tem cara de algo que você encontraria nas cenas deletadas e imediatamente entenderia por que foi deletado. Só que essa ESTÁ na versão final! Eles são capturados, levados a um lugar para onde não querem ir e eventualmente liberados para continuar o que já estavam fazendo. Existe uma progressão emocional, eu acho... mas, no projeto de levar a porra do Anel até a porcaria da montanha, gastamos um tempo considerável de tela resolvendo um contratempo de viagem que não dá em muita coisa.


E meio que o mesmo se aplica ao resto da turma. Sim, a operação militar de Saruman é desmantelada, mas, se você fosse reduzir a trilogia à essencia da coisa, toda a guerra dele seria um dos maiores galhos para poda. Verdade, é uma sidequest com com um ator tão digno que conseguiu sair de Ataque dos Clones com sua reputação imaculada, mas não deixa de ser menos uma sidequest por conta disso. O mesmo se aplica a toda aquela coisa de Rohan que ocupa um tempo absurdamente desproporcional a importancia que isso tem no grande esquema das coisas. Tá que é parte da jornada de Aragorn ir de mendigo bonitão ao rei dos reis, mas a coisa dura mais do que tecnicamente precisaria.

Sabe, originalmente Peter Jackson sabia que nem fodendo ia conseguir arrancar três filmes da Miramax, então estava lutando pra ser pelo menos dois. Isso só mudou quando ele levou o projeto à New Line, onde Bob Shaye basicamente disse: “Seu bobinho, são três livros. Por que não estamos fazendo três filmes?” E, assistindo a esse capítulo intermediário, eu totalmente consigo ver onde ele podia ter cortado gordura pra fazer Senhor dos Anéis em dois filmes. Tem muita coisa em As Duas Torres que poderia ser comprimida ou eliminada, e embora eu preferia que não o fosse (como felizmente não o foi), certamente a adaptação funcionaria sem muito do conteúdo desse filme. 

Então... é isso? Esse filme é essencialmente desenvolvimento de personagens e encheção de linguiça?
Tecnicamente sim, mas não realmente. 


Porque, mesmo quando o filme resolve dar uma volta pelo caminho mais longo, puta merda se essa não é uma das melhores voltinhas que Hollywood já deu! Lembra do que eu falei sobre a parte do Frodo? Espero que sim, foi há poucos parágrafos e se você já esqueceu, procure um médico. Seja como for, o que importa é que essa parte vem com um personagem de bônus, e Andy Serkis absolutamente esmirilha com a criatura miserável e digna de pena que é o Gollum.

Ele carrega toda essa parte do filme porque oferece a Frodo algo mais interessante do que outro obstáculo: um futuro possível. Frodo precisa acreditar que ainda existe alguma coisa naquela criatura que pode ser salva, enquanto Sam prefere, com toda a razão, não dormir ao lado de alguém que fica discutindo consigo mesmo em voz alta se deveria assassiná-los. De repente, toda aquela caminhada tem uma relação que vale a pena acompanhar, e Gollum discutindo consigo mesmo consegue prender sua atenção tanto quanto um exército se preparando para a batalha. Andy Serkis e a Weta transformaram um desgraçadinho esfomeado de tanga num marco do cinema, e o mais impressionante nem é simplesmente ele parecer convincente. Lembre-se que até então as pessoas associavam personagems digitalizados com o Jar Jar Binks, e de repente Andrezão da Massa mostra pra todo mundo que mocap podia sim ser absolute cinema com um aatuação que faz sentir pena dele enquanto ao mesmo tempo entende perfeitamente por que Sam quer mantê-lo bem longe dos talheres.

O mesmo vale para a participação de Merry e Pippin na queda de Saruman. Chame de conteúdo opcional se quiser, mas eu serei um cadáver frio e gelado antes de deixar de achar foda pra caralho um exército de árvores descendo no soco uma operação militar enquanto Christopher Lee faz sua melhor cara de “MAS QUE PORRA DO CARALHO DA PUTA QUE PARIU É ESSA MERDA?!”. Sei lá, talvez Curumo devesse ter prestado mais atenção nas aulas da Yavanna no cursinho preparatório dos Istari, mas o que eu sei realmente?


Gandalf, enquanto isso, recebe o melhor premio de funcionário do mês da história do cinema: ele desce na porrada com um Balrog até as profundezas da terra, persegue o desgraçado até o alto de uma montanha porque “ah, não, você NÃO vai se livrar dessa tão fácil”, morre e faz o próprio Deus passar por cima de todo o processo legal de classes de Arda porque “o outro cara de branco virou um cuzão, agora você é o cara de branco”. Então realiza um exorcismo com bordoadas extras e deixa todos os nerds da plateia de pau duro por um cavalo ao mostrar como Scadufax é um garanhão do caralho.

Essa última frase não saiu como eu tinha planejado.

E tudo isso antes mesmo de chegarmos à coisa óbvia que você já sabe: o Abismo de Helm é a melhor sequência de batalha já filmada. Ponto. Ela é todo um pequeno filme dentro do filme, desde a espera angustiante pelo primeiro ataque até as defesas caindo uma depois da outra, quando os sobreviventes precisam decidir como querem morrer. Você entende o que está sendo defendido, de onde vem o perigo e por que cada nova brecha piora a situação. Não é tão dificil botar dez mil bonecos numa cena de filme, fazer você se importar se uma porra de uma escada vai alcançar a muralha é que é a coisa aqui.


A produção investiu uma quantidade inumana de trabalho para tornar aquilo possível: meses de filmagens a noite, chuva, armaduras, lama, cenários físicos e miniaturas, com o software da Weta ajudando a povoar o campo de batalha com exércitos digitais. E todo esse esforço dá ao cerco uma presença física que impede o espetáculo de parecer algo que saiu do PS2. Aquelas pessoas parecem estar com frio, exaustas e completamente desesperançadas de estar ali porque elas ESTÃO com frio, exaustas e desesperançadas de estar ali depois de meses de noite e chuva cenográfica no lombo.

Mas não vou me alongar muito mais nessa parte, por um motivo bastante simples: não tenho nenhuma opinião particularmente única sobre ela. Tudo que eu poderia dizer sobre o Abismo de Helm vc meio que já sabe e já foi dito, algumas vezes melhor, milhares de vezes ao longo das últimas duas décadas. É uma das sequências mais icônicas do cinema, e tudo que eu posso acrescentar é um aceno de cabeça e um “sim, é tudo isso mesmo”.

Porque é tudo isso mesmo.

Então sim, eu ainda acho As Duas Torres o mais fraco da trilogia e, se nós formos totalmente cínicos a respeito de estrutura narrativa, partes grandes deles meio que são “essa reunião poderia ter sido um e-mail”. Mas então, eu vou dizer a mesma coisa que disse sobre Super Mario Sunshine: ser o “pior jogo do Mario” parece terrível até você perceber quantos outros jogos matariam para alcançar esse padrão supostamente decepcionante. Do mesmo modo, ser o filme mais fraco dessa trilogia ainda deixa você olhando para a concorrência de tão longe que eles precisam de um interurbano pra falar com vc.

E, dito isso, sou contratualmente obrigado pelas regras que inventei na minha cabeça a falar do jogo licenciado... que certamente é um dos jogos já feitos.


A Electronic Arts e a Stormfront Studios apostaram numa proposta bastante segura: pegue personagens reconhecíveis dos filmes, coloque-os num beat ’em up, acrescente elementos de combate hack and slash, deixe o jogador comprar melhorias com experiência e continue mandando orcs. Você passa a maior parte do jogo como Aragorn, Legolas ou Gimli, todos usando o mesmo repertório básico de ataques rápidos, golpes mais lentos para quebrar escudos, ataques à distância, aparadas e combinações disso tudo. Existem diferenças nas armas e na eficiência de cada um, mas nada que os beat'm up já não fizessem desde 1989 com Legolas sendo rápido e bom de arco, Gimli troncudo oferecendo atendimento ao consumidor à base de machadadas e Aragorn ficando entre os dois.

Do lado hack'n slash da família, vem algumas mecanicas como quebrar um escudo, derrubar um inimigo e acabar com ele antes que os coleguinhas dele interrompam exige alguma atenção, e o jogo avalia a eficiência da sua matança para determinar quanta experiência você recebe. Mantenha os ataques fluindo e você pode entrar num modo Perfect temporário que o deixa mais perigoso. Meio hack'n slash básico, sim, mas para ser justo, é um básico que funciona. A hit detection é convincente, o jogo tem um feedback de violencia satisfatório e até consegue colocar uma multidão respeitável na tela sem virar uma apresentação de powerpoint, com os cenários familiares fazendo boa parte do trabalho pesado. 

Como a EA não tinha lançado sua própria adaptação da Sociedade do Anel (já que o jogo que existe foi feito pela Vivendi e baseado no livro, não no filme), As Duas Torres inclui ação dos dois filmes e assim esse aqui pode pegar emprestados o Amon Sul, Moria e Amon Hen no caminho até Rohan, o que é uma coleção bastante útil de batalhas para ter à disposição quando você está fazendo um jogo sobre bater nas coisas. Até porque a outra opção seria um minigame sobre o Faramir fazendo cara de bunda mas não tão bunda quanto o seu irmão mais legal, então é bom a gente ficar com o pessoal que saiu no soco mesmo.


Graficamente, o jogo faz algum esforço para os personagens se parecerem com os atores...  com variados graus de sucesso, vamos colcoar assim, mas é verdade que as transições das cenas dos filmes para os gráficos do jogo são um efeito maneirinho e música dos filmes ajudam enormemente. Existe um prazer muito específico em ouvir toda aquela grandiosidade orquestral crescer enquanto você realiza uma atividade que, mecanicamente, se resume a bater num homem feio até ele deixar de ocupar memória ram do videogame.

As limitações são igualmente diretas e gritam tie-in: a campanha é curta, e inexplicavelmente, esse beat ’em up de console sobre um grupo de companheiros é para um jogador só. Você tem Aragorn, Legolas e Gimli bem ali, e seu amigo ainda precisa ficar sentado ao seu lado prestando consultoria tática mesmo que existam sessões no jogo onde o computador controle coleguinhas de time pra vc. O quão dificil teria sido tornar isso em um coop jogavel eu não sei, mas a EA certamente decidiu que era mais do que eles estavam dispostos a pagar por isso. 


Aqui e acola o jogo faz uma graçola para evitar que as coisas fiquem repetitivas como em Amon Hen vc precisa abater dado numero de orcs antes que a vida dos seus coleguinhas vá de Vasco, ou no Abismo de Helm que mantem você ocupado correndo pelas defesas, derrubando escadas e lidando com o desgraçado que escolheu uma péssima noite para um genocídio. Então volta e meia o jogo exige que você se preocupe com alguma coisa além do próximo crânio, mesmo que as ambições dele não avancem muito além disso.

Enfim, meu ponto é que As Duas Torres cumpre seu trabalho com competência, sem reinventar a roda para um público que, sejamos honestos, não estava procurando uma roda reinventada. Eles queriam chutar escadas das muralhas do Abismo de Helm, e o jogo entrega exatamente isso. Não muito mais que isso, mas o suficiente disso.

MATÉRIA NA EGM BRASIL
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