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quarta-feira, 22 de julho de 2026

[#1781][Nov/2000] COUNTER-STRIKE


Hoje vamos falar sobre um jogo muito, muito especial — daqueles que aparecem apenas quando as estrelas estão certas. Um daqueles jogos que não apenas são sucessos como games, mas que furam a bolha dos videogames e entram para a cultura popular. Quer dizer, sua mãe pode não saber nada sobre videogames além de Pac-Man, Mario e aquele rato amarelo da Nintendo, mas é bem provável que ela já tenha ouvido falar pelo menos sobre aquele jogo de tiro de LAN House onde... bem, as pessoas atiram umas nas outras. E bem, essa não é uma descrição totalmente errada: Counter-Strike realmente é um jogo sobre duas equipes tentando se matar no pipoco, não é exatamente Dostoievski tb né. 

Mas...
... como sempre, o "mas" é o que realmente importa, não é?


Porque Counter-Strike nasceu durante a era de ouro dos shooters competitivos para PC. Ele surgiu em um mundo já dominado por gigantes como QUAKE 3 ARENA e UNREAL TOURNAMENT, jogos que praticamente escreveram o manual de como fazer um FPS multiplayer. Mais de vinte e cinco anos se passaram desde então, e aqui estamos nós em 2026... onde Quake e Unreal são lembrados com carinho por entusiastas retrô, mas Counter-Strike não é apenas uma relíquia nostálgica acumulando poeira na história dos games. Ele continua sendo um dos maiores jogos competitivos da Terra, com torneios internacionais lotando estádios, milhões de espectadores assistindo online e literalmente mais de um milhão de jogadores online na Steam nesse exato momento (sim, eu acabei de checar, aqui é jornalismo-verdade rapá!)

Até porque se você é um Charlinho Brasileirinho como eu (e não tem como não ser, quem mais leria esse texto além de IAs comendo qualquer porcaria na internet pra alimentar seu banco de dados?), provavelmente eu não preciso explicar o quão absurdamente popular Counter-Strike foi, e ainda é. Na verdade, mais provavelmente ainda são as chances de você conhecer o jogo mais do que eu pq CS não foi apenas mais um jogo de PC por aqui — ele se tornou parte da própria cultura das Lan Houses e por tabela, dos anos 2000. Para uma geração inteira, "ir para a lan house" e "jogar Counter-Strike" eram sinonimos. Esse jogo atravessou classes sociais, apresentou inúmeras crianças ao multiplayer online e moldou o Brasil como uma das nações mais fortes do cenário competitivo de CS do mundo.

IEM Rio 2026 reuniu 16 finalistas de Counter-Strike com premiação de US$ 1 mi agora em abril/2026

Então, em vez de fingir que eu posso te ensinar alguma coisa que vc já não saiba sobre Counter-Strike, vou fazer o que eu sempre faço quando este humilde blogueiro tropeça em um dos pilares que mudaram a cultura como a conhecemos (como fiz na minha resenha de HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL): eu vou só fazer uma pergunta bem simples:

Por que ESTE jogo?

Sério, por que milhões de pessoas ainda estão jogando um jogo de 1999? Sim, ele recebeu atualizações, updates nos gráficos, ajustes de balanceamento e até sequências, mas seu design básico permanece ainda é essencialmente o que Minh Le e Jess Cliffe desenharam mais de um quarto de século atrás.

Por que Counter-Strike, especificamente?

Por que não QUAKE 3 ARENA? Por que não UNREAL TOURNAMENT? Por que nenhum dos outros dezenas de arena shooters se tornou o fenômeno mundial que ajudou a definir os e-sports modernos e os jogos online competitivos? 

Essa é a pergunta que vou tentar responder hoje.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

[#1725][Dez/2000] STUPID INVADERS

Ei, você!
Sim, você aí mesmo!
Por acaso você está vivendo em 2001 e sentindo falta do finado gênero point-and-click?
Você anseia por um jogo de comédia construído inteiramente sobre pastelão, gags visuais asquerosas e um compromisso sério com humor escatológico infantil?
Você quer uma quantidade absurda de cutscenes que, na época, eram estranhamente chamativas e transbordando aquela energia da era da MTV?

Se você respondeu “sim” para as três perguntas, então Stupid Invaders é praticamente feito sob medida para você. Se qualquer coisa aí te faz hesitar — ou pior, se você espera literalmente qualquer coisa a mais de um videogame —, aí sim… vai ser bem mais difícil de vender. Mas vamos começar do come—

[É UMA BOA RECOMENDAÇÃO TAMBÉM PRA QUEM É FÃ DO DESENHO, NÃO É?]

Fãs do quê?

[DO DESENHO. STUPID INVADERS É BASEADO EM SPACE GOOFS. PASSOU NO BRASIL, FOI ATÉ DUBLADO E TUDO.]

Passou…? Arceus, eu literalmente nunca tinha ouvido falar nisso. Mas, aparentemente, sim — passou no Brasil, tanto na Fox Kids quanto no Angel Mix. Huh. Como isso passou batido por mim? Vivendo e aprendendo. Enfim… tá. Vamos nos submeter a isso e ver com que tipo de tolice estamos lidando.


Ah.
Então foi por isso que passou batido.

sexta-feira, 20 de março de 2026

[#1701][Jun/2000] RECORD OF LODOSS WAR: Advent of Cardice

Você sabe qual é o canal com maior faturamento na Twitch?

Bem, essa não é exatamente uma pergunta fácil de responder pq não é como se a Twitch divulgasse abertamente suas finances. Entretanto, houve um grande vazamento de dados em 2021 que deu um vislumbre por trás das cortinas. E o maior ganhador de cascalho da plataforma não era um músico, um pro-player e nem mesmo uma e-girl de decote com um quadrinho de 4x4 pixels com a "gameplay", não, nda disso. Não — a coroa foi para um bando de nerds fazendo algo muito mais de nicho: jogar RPGs de mesa. O canal é o Critical Role, que segundo relatos ganhou quase 10 milhões de dólares em apenas 24 meses.

Agora, se você tem um conhecimento vago sobre o Critical Role, já sabe que chamá-los de "um bando de nerds jogando RPG" é tecnicamente verdade, mas vende de forma extremamente reducionista o que realmente está acontecendo. Esta não é a sua campanha caseira padrão, sustentada por caixas de pizza e piadas internas. O elenco é, na verdade, composto por alguns dos dubladores mais talentosos e consagrados da atualidade, pessoas que trazem um nível de atuação, timing e nuance emocional que eleva toda a experiência. Temos Matthew Mercer (Vincent Valentine em Final Fantasy VII Remake, Leon S. Kennedy na série Resident Evil), Ashley Johnson (a Ellie em The Last of Us) e Laura Bailey (dubladora da Chun-Li na série Street Fighter e da Mary Jane nos jogos modernos do Miranha), entre muitas figurinhas desse quilate. O resultado é algo mais próximo de um teatro do que de uma noite de jogos casual.

E para surpresa de absolutamente ninguem, esse nível de talento transformou o Critical Role em um fenômeno. O que começou como uma campanha transmitida ao vivo se transformou em uma franquia multimídia completa: teve duas séries animadas (The Legend of Vox Machina e Mighty Nein), romances, quadrinhos e tem até discussões em andamento sobre possíveis adaptações live-action. É o que acontece quando você pega a estrutura inerentemente envolvente da narrativa de RPG de mesa e a combina com valores de produção de primeira linha e artistas profissionais que sabem como vender cada momento.

Mas tá, pq eu estou falando isso? O que isso importa para esse caso?
Bem, essa é a parte interessante: esse tipo de fenômeno não é novo. O Critical Role parece moderno por causa da plataforma, da produção e da escala, mas a ideia central — transformar uma campanha de RPG de mesa em um produto narrativo que atinge um público de massa — na verdade, tem um precedente que aconteceu décadas antes, em um contexto cultural completamente diferente.

quinta-feira, 19 de março de 2026

[#1700][Nov/2000] SIN AND PUNISHMENT

And now, the end is near
And so N64 face the final curtain

Aqui estamos nós, na review do último jogo de N64 neste blog e... bem, vou ser sincero com vocês: este não é exatamente o momento mais emotivo que eu já tive aqui. Quer dizer, eu—como qualquer um que cresceu com pais que os amavam e não tiveram um videogame da Sega—fui criado na Nintendo, e até hoje a marca ainda tem um forte significado no meu coração. Dito isso, o N64... bem, depois de passar por quase toda a sua biblioteca (menos os jogos de esporte e corrida, como de costume), tenho que admitir: não fiquei muito impressionado.

Claro, a Nintendo sempre vai ser a Nintendo, e estou até hoje esperando para ver um título first-party verdadeiramente ruim da Big N. E tem a Rare. Depois de um começo um tanto instável (e sim, ainda mantenho meu ódio por BATTLETOADS), eles provaram ser a joia da coroa, rivalizando com a própria Nintendo em qualidade. Na verdade, quando se trata da quinta geração, essa não é uma declaração trivial. Por mais que eu admire SUPER MARIO 64 e MARIO KART 64, jogos como BANJO-KAZOOIE e DIDDY KONG RACING operam em um nível totalmente diferente—mais polidos, com mais conteúdo e até mais ambiciosos. Entre a Nintendo e a Rare, a chamada "Fun Machine" conquistou sua reputação, chegando a ganhar o prêmio Jorge de Jogo do ano (nossa premiação anual, e obviamente a mais importante da indústria) de 1998 para THE LEGEND OF ZELDA: Ocarina of Time.

Mas saia dessa bolha e a paisagem do N64 se torna... bem árida. Há lampejos de brilhantismo aqui e ali, claro—a adaptação quase milagrosa de RESIDENT EVIL 2, ou TETRISPHERE que é um dos puzzles mais satisfatórios que eu já joguei. Mas além desses destaques isolados, a biblioteca carece de profundidade. A esse ponto, claro, todos sabem o porquê. Já abordei todo o debate da quinta geração (e se precisar de um lembrete, meu conto da história do NINTENDO 64 e do NINTENDO 64DD contam a história muito bem), e o ponto aqui é que o sistema se tornou um playground quase exclusivo para a Nintendo e a Rare. O resultado é um console que, apesar de seus pontos altos, parece vazio em retrospectiva.


E pra ser sincero, eu nem tenho apego emocional suficiente para me sentir triste com o fim do Nintendo 64—o que é incomum para mim. Quando um console morre, geralmente significa algo. Há uma sensação de encerramento, de dizer adeus a um capítulo da sua vida. Mas o N64? Ele meio que... é. 

Dito isso, dou crédito onde créditos são devidos: o N64 consegue evitar uma indignidade em particular. Normalmente, os anos finais da vida de um console são bem deprimentes. Os desenvolvedores seguem em frente, os orçamentos encolhem, e o que resta é um cemitério de ports preguiçosos, tie-ins licenciados baratos e shovelware cínico do tipo "é para crianças, e esses trouxas compram qualquer porcaria". Aconteceu com o NES, aconteceu com o SNES, e por volta da mesma época, estava acontecendo com o PlayStation também. Mas o N64? Ele sai de cena por cima.

Porque seu ato final não é algum caça-níqueis meia-boca—é um verdadeiro petardo. Sin and Punishment, desenvolvido pela Treasure em colaboração com a Nintendo (especificamente a lendária divisão R&D1, as mesmas mentes por trás de METROID e SUPER METROID), é tudo menos uma despedida preguiçosa. É rápido, estiloso, mecanicamente thight e repleto do tipo de energia criativa que tantas vezes faltou ao sistema fora de seus desenvolvedores principais. Na verdade, é tão bom que quase parece uma piada de mau gosto. Você não pode deixar de pensar que se o N64 tivesse recebido mais jogos como este ao longo de sua vida—mais experimentais, mais ousados, mais dispostos a empurrar o hardware—estaríamos falando sobre ele de forma muito diferente hoje.

segunda-feira, 2 de março de 2026

[#1689][Set/2000] ARMY MEN: Sarge's Heroes 2


Oh, Deus. 

É... porque você sabe que coisas boas estão vindo por aí quando alguém começa uma review com "oh, Deus", né? Mas é, Army Men... de novo. A esse ponto, a série se tornou a hidra dos videogames: você analisa um desses produtos genéricos produzidos em uma linha de montagem, e mais dois aparecem para tomar o seu lugar. E agora eu estou no meio de um Zerg Rush da The 3DO Company com Army Men 589 ou qualquer outro número que ninguém mais se importa em contar. Então, vamos tratar isso como o band-aid que é e arrancá-lo rápido.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

[#1686][Jul/2000] DIGIMON WORLD 2


Aqui estamos nós, bravos sobreviventes ao bug do milênio no ano da graça do Nosso Senhor de 2000... mas não para falar de Digimon. Não, não — antes precisamos falar de Matrix. É, eu sei, tá escrito Digimon no título do post, mas me escuta por um momento que vai fazer sentido. Provavelmente.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

[#1682][Dez/2000] PROJECT I.G.I.: I'm Going In


Era uma vez, um desenvolvedor norueguês chamado Interloop Studios que um dia criou sua própria e esforçada engine de jogo, o qual colocou em exibição através do meio simulador de voo, meio tech demo, Joint Strike Fighter. Bom pra vocês, campeões. Naturalmente, após fazer esse jogo, a equipe usou o mesmo motor para criar — o quê mais? — outro simulador de voo, certo?

Não, claro que não. Não seja besta. Em vez disso, eles pegaram a engine projetada especificamente para simuladores de voo e o usaram para desenvolver um jogo de tiro em primeira pessoa focado em furtividade, porque claro que isso é o que totalmente faria sentido. É, parece que o bug do milênio deixou algumas vítimas pelo caminho, afinal. Seja como for, o resultado foi Project I.G.I.: Eu to Entrando: uma experiência pesadamente falha e notoriamente difícil, mas que funciona a seu próprio modo como um tipo de "James Bond da Shopee".

sábado, 14 de fevereiro de 2026

[#1677][Set/2000] MYSTERIOUS DUNGEON: Shiren the Wanderer 2 - Oni Shūrai! Shiren-jō!


Então, Shiren, o Andarilho 2 é a sétima entrada na franquia Mystery Dungeon, e com isso eu suponho que já disse tudo que vc precisa saber sobre esse jogo, e se não recomendo dar uma lida nas minhas revisão de Chocobo Dungeon e Chocobo Dungeon 2. Isso sendo dito, bom carnaval meu povo, usem camisinha, se beber não dirijam e...

... bem, tá. Esse é o penultimo jogo de Nintendo 64 nesse blog, e o pobre coitado do console da Big N já foi esnobado o suficiente pelas third parties, toda biblioteca do console não chega a 400 jogos e uma parte não desconsideravel disso são franquias anuais de esporte, ou buchas como mahjong e pachinko. Então suponho que todos concordamos que o N64 não está em posição de ter jogos pulados assim. Por isso, apesar de Shiren 2 realmente ser apenas outro Mystery Dungeon... vamos fazer essa forcinha pelos ultimos dias do velho guerreiro, sim?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

[#1676][Out/2000] HOKUTO NO KEN: Seiki Matsukyu Seishi Densetsu

O ano é 1982, e o panorama dos mangás é bem diferente do que damos por garantido hoje. A Weekly Jump e suas contemporâneas eram dominadas por mangás de esporte — CAPTAIN TSUBASA, Touch, Kinnikuman — ou por séries de ação-cômica como Dr. Slump. A ideia de um mangá construído quase inteiramente em torno de combate corpo a corpo brutal, pose masculina exagerada e violência operística não era inexistente, mas definitivamente não era o padrão-ouro. O “shōnen de batalha”, como entendemos hoje, ainda não existia de verdade. 

E no centro desse momento de transição estava um mangaká de 21 anos chamado Tetsuo Hara, lutando para encontrar seu lugar. Hara amava filmes de kung fu — Bruce Lee em especial — e tinha uma fascinação profunda pelas artes marciais como espetáculo e como filosofia. O problema era que essa paixão não batia com o que as editoras achavam que venderia. Seu editor, seguindo a lógica do mercado, o empurrou para o que estava em alta na época — mangás de esporte. Hara aceitou, profissionalmente, se não emocionalmente, e o resultado foi Iron Don Quijote, um mangá sobre corridas de motocross que conseguiu durar exatamente dez edições antes de ser cancelado. O motivo era óbvio para todos os envolvidos: Hara sabia desenhar. Ele tinha talento. Mas seu coração não estava ali. Não de verdade.

Esse fracasso, porém, acabou sendo um ponto de virada, e não um fim. Hara se recompôs, reuniu o pouco de confiança que ainda lhe restava e voltou ao editor com um pedido: mais uma chance. Apenas um one-shot. Sem concessões. Sem seguir tendências. Só a ideia dele. Seu editor, o lendário Nobuhiko Horie, acreditava no garoto e tinha uma boa ideia de como fazer isso acontecer.  O espaço seria a Fresh Jump, uma revista paralela criada especificamente para permitir que autores iniciantes experimentassem, falhassem sem grandes consequências ou — se tivessem sorte — acertassem em cheio. 

Fresh Jump No 4, Abril de 1983

Hara tratou aquele one-shot como seu único tiro, sua única oportunidade, seu espaghetti da mamãe. Ele despejou ali tudo o que amava, sem qualquer contenção. O resultado foi uma colisão gloriosa de influências: os desertos desolados de Mad Max, a masculinidade mítica de Bruce Lee, artes marciais baseadas em versões exageradas de acupuntura, destino guiado pelas estrelas e heróis hipermasculinos que soltavam frases de efeito segundos antes de fazer seus inimigos explodirem das formas mais grotesca e criativamente possíveis. Era rídiculo. Era sincero. Era completamente insano para os padrões da Jump do início dos anos 80. E funcionou.

Assim nasceu Fist of the North Star — ou Hokuto no Ken, para os íntimos.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

[#1669][Dez/2000] THE GRID

Antes de começar este blog, eu nunca tinha parado pra pensar no quão realmente melancólico foi o fim do ano 2000. E melancólico é bem a palavra, pq foi menos um colapso dramático e mais apenas a entropia se instalando. O PlayStation respirando por aparelhos, seus últimos momentos definidos quase inteiramente por tie-ins e shovelware de baixo esforço que existia por obrigação contratual. O Nintendo 64 não estava muito melhor — com exceção da Rare e a da própria Nintendo, que eram dois remadores exaustos tentando desesperadamente manter em frente um barco afundando. E se isso já não fosse suficiente pra dar aquele clima de fim de festa, os fliperamas — outrora o coração pulsante e barulhento da cultura dos videogames — haviam se tornado espaços sombrios e vazios. As luzes não brilhavam mais tão forte, os efeitos sonoros não ecoavam mais com a mesma promessa. A magia não tinha desaparecido da noite pro dia, ela simplesmente tinha erodido com o passar do tempo e com os hábitos que mudavam.

Talvez os dias de glória dos fliperamas voltem um dia, mas mesmo naquela época isso já parecia altamente improvável. No início de 2001, praticamente não tinha motivo pra sair de casa, pegar um onibus até o Shopping e ficar andando com um punhado de fichas chacoalhando no bolso. O próprio ritual — decidir entre dar mais três partidas em King of Fighters ou gastar o resto numa única e imprudente jogatina de Top Skater — já tinha virado nostálgico enquanto ainda estava acontecendo. Os consoles domésticos não eram mais substitutos inferiores; eles eram mais convenientes, mais confortáveis e cada vez mais tão capazes. O fliperama não estava morrendo porque era ruim — estava morrendo porque não era mais necessário. E a história raramente é gentil com as coisas que deixam de ser necessárias.

Ainda assim, nada termina até que acabe e empresas como a Midway mantinham as luzes acesas, continuando a alimentar a cena arcade com novos lançamentos, como se o esforço puro impulso fosse suficiente pra adiar o inevitável. Mas então, quando a Midway é sua última e maior esperança, bom… isso não é exatamente um bom sinal. Se o futuro dos fliperamas dependia só deles, então sim, esse navio já tinha zarpado. Mas estou me adiantando. Vamos ligar esse arcade na tomada, seguir os cabos de energia e ver quanta voltagem ainda está circulando pelo The Grid.

sábado, 31 de janeiro de 2026

[#1668][Dez/2000] MAX STEEL: Covert Missions

Eu gosto como nessa capa o AÇO MAXIMO está atirando e socando no mesmo alvo, me pergunto o que esse cara deve ter feito

Isso provavelmente vai soar estranho vindo de alguém que tem um blog dedicado a jogos que têm em média mais de vinte e cinco anos, mas eu não realmente sou uma pessoa nostálgica. Sério, o que realmente me fascina é o lado historiador das coisas. Eu gosto de traçar a evolução técnica, entender de onde as ideias vieram, por que certas escolhas de design foram feitas e quais limitações as definiram. Eu me esforço conscientemente para julgar as coisas dentro de seu contexto original. E embora eu não seja totalmente imune a preconceitos pessoais — ninguém é —, eu me recuso absolutamente a julgar qualquer coisa através das lentes de "nhom nhom nhom, sinto saudade dos biscoitos da minha avó, tudo era melhor antigamente porque minha infância era mágica, nhom nhom nhom". 

Não. Não é assim que esse blog funciona. Talvez porque minha infância não tenha sido particularmente mágica ou perfeita para começar, mas isso não vem ao caso. A questão é como eu abordo a crítica de mídia aqui. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

[Jun/2000] MIDWAY GREATEST ARCADE HITS VOLUME 1 [#1660][#1661][#1662][#1663][#1664][#1665][#1666][#045]

Tá, eu não posso dizer que sou exatamente o maior fã da Midway na história dos fliperamas. Eles incorporam as piores práticas do sistema, criando dificuldade descaradamente roubada (input reading, inimigos que spawnam magicamente, carros que ignoram a fisica do terreno que se aplicam a você) para comer o maior número possível de fichas no menor espaço de tempo possível.

Mas isso não quer dizer que a Midway não tenha uma importancia para a HISTÓRIA dos videojogos... mais ou menos. Digo isso pq em 1988 a Williams adquiriu a Midway, e posterioramente fundiu esta e outras empresas adquiridas (como a Atari Games) sob o nome Midway. E isso importa porque a biblioteca da Williams antes dessas fusões, essa sim é pivotal para o conceito de videojogos modernos. Nesse sentido, essa coletanea em duas partes (que deveria ter uma terceira, mas foi cancelada devido as baixas vendas) é uma preservação histórica muito importante desse legado.

Feita essa explicação, vamos dar uma olhada nos oito títulos que compõe a primeira parte dessa coletanea! (alguns são exclusivos da versão de Dreamcast)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

[#1658][Nov/2000] MS. PAC-MAN MAZE MADNESS


Suponho que eu vou chocar um total de absolutamente zero pessoas ao dizer que minhas expectativas para Sra. Pac-Homem: No Labirinto da Loucura estavam tão perto do zero absoluto que eu poderia muito bem ter aprendido a Execução da Aurora de Aquário. Quero dizer, a incursão 3D do marido dela, PAC-MAN WORLD: 20th Anniversary Edition, não é exatamente ruim, mas também é… bem… nada. É o tipo de jogo que não deixa absolutamente nenhuma pós-imagem no cérebro. Você termina, segue em frente, e em poucos minutos ele já evaporou da sua memória. Então sim, as expectativas eram inexistentes.

Mas aqui está a coisa: assim como aconteceu nos fliperamas vinte anos antes com MS. PAC-MAN, nossa dama mais uma vez consegue ofuscar o marido. Contra todas as probabilidades, Maze Madness acaba sendo uma aventura até certo ponto confortável, agradável. Talvez “bom” seja uma palavra forte, mas é, tem algo genuinamente agradável neste jogo.

domingo, 25 de janeiro de 2026

[#1655][Dez/2000] BLOODY ROAR 3


Então. Rugido Sangrento 3.

[OKAY, PRA MIM DEU. EU DESISTO. TÔ FORA.]

O quê? Da onde isso, Jorge? Eu nem comecei ainda!

[OLHA, PARCEIRO, ESSE NÃO É MEU PRIMEIRO RODEIO. EU APRENDI ALGUMAS COISAS NA VIDA, E UMA DELAS É QUE VOCÊ MAIS FURRIES É UMA COMBINAÇÃO QUE SIMPLESMENTE NÃO DÁ.]

Você está exagerando.

[VOCÊ TRANSFORMOU A ANÁLISE DE BLOODY ROAR 2: The New Breed NUM MANIFESTO PRÓ-FURRY.]

…okay. Justo. Talvez eu tenha feito isso. Mas dá realmente pra me culpar?

sábado, 24 de janeiro de 2026

[#1654][Nov/2000] SCOOBY DOO! CLASSIC CREEP CAPERS


Nos últimos dias, eu tenho falando muito sobre como, no final dos anos 2000, o PlayStation 1 já estava tossindo sangue no leito do hospital, com seu médico recomendando que ele não evitasse começar livrors muito longos. O PlayStation 2 estava era um fenômeno cultural, o GameCube já se anunciava no horizonte e o Xbox estava ocupado prometendo milagres tecnológicos. O estado da arte havia evoluído. Na prática, a quinta geração tinha terminado e o PS1 fora rebaixado ao status de "console herdado": aquele que as crianças ganhavam quando o irmão mais velho atualizava para o hardware novinho em folha. 

No entanto, eu tenho falando muito menos sobre como o Nintendo 64 não estava exatamente em uma posição muito melhor. Claro, em seus últimos dias, o N64 ainda lutava pela sua vida com títulos genuinamente impressionantes como PERFECT DARK e CONKER'S BAD FUR DAY — mas essas eram exceções. Na maioria dos casos, a situação não era tão diferente do clima de fim de festa do PS1. O calendário de lançamentos estava cada vez mais repleto de títulos baratos e de baixo esforço, direcionados especificamente para crianças, que não eram exatamente o público mais exigente. Jogos projetados menos para impressionar e mais para simplesmente existir nas prateleiras das lojas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

[#1652][Dez/2000] PROJECT JUSTICE: Rival Schools 2

Dois anos e meio atrás, eu contei uma lenda aqui neste mesmo blog. Uma lenda tão lendária que mamães desenvolvedora contavam a seus filhinhos desenvolvedores na hora de dormir. O Santo Graal. A Pedra Filosofal. A Shambhala dos jogos de luta. O unicórnio mítico: o jogo de luta que finalmente fundiria os melhores elementos do design 2D e 3D em um todo coerente.

Pense nisso por um momento. Um jogo tão dinamico, expressivo e visualmente criativo quanto um clássico jogo de luta 2D, mas com a sensação de gravidade, peso físico e confiabilidade mecânica tradicionalmente associada as engines 3D. Velocidade sem leveza excessiva. Impacto sem rigidez. Visualmente extravagante, mas mecanicamente fundamentado. Em resumo: o melhor dos dois mundos, fundidos magnificamente em um.

Uma lenda entre as lendas.
Algo que produtores mencionam em entrevistas e documentos de design, mesmo já sabendo ser impossível executar.
Exceto... que esse jogo já existe.


Em novembro de 1997, a Capcom fez o impensável e tornou esse sonho real com RIVAL SCHOOLS: United by Fate. Um jogo que não apenas flertou com essa filosofia de design, mas se comprometeu totalmente com ela, construindo toda sua identidade em torno desse equilíbrio entre velocidade e peso, espetáculo e estrutura. Mas essa é uma história que eu já contei.

Então vamos avançar três anos. Dezembro de 2000. A virada do milênio. E a Capcom está pronta para lançar uma sequência. O que imediatamente levanta a pergunta incômoda: como diabos você faz sequência pra isso? Como você itera sobre um jogo que já parece uma equação resolvida? Como você melhora algo que acertou em cheio sua filosofia central na primeira tentativa? Bem… uma opção é simplesmente fazer mais do que você tinha. Bem mais. 

Mais designs de personagens marcantes, levando a estética anime-escolar já exagerada ainda mais longe. Um motor visivelmente mais polido, mais suave no movimento e mais confiante em sua física. Golpes especiais ainda mais malucos, barulhentos e absurdos — sem nunca cair no caos incompreensível. Um jogo mais rápido que seu predecessor, mas paradoxalmente mais acessível, mais acolhedor e mais imediatamente divertido.


Project Justice é o que acontece quando você pega um dos maiores jogos de luta já feitos e dá aos seus criadores três anos inteiros não para reinventá-lo, mas apenas para… se divertirem. Para refinar, exagerar e brincar com uma base já sólida como rocha. 

O resultado é exatamente o que você esperaria.
Um dos melhores jogos de luta de todos os tempos — só que melhor.

[ESPERA, ESPERA. TEMPO! SE ESSE JOGO LENDÁRIO, FABULOSO EXISTE — E SE É TÃO INCRÍVEL ASSIM — POR QUE DIABOS EU NUNCA OUVI FALAR NELE?]

Essa é uma pergunta deveras justa, meu caro Jorge.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

[#1651][Nov/2000] HITMAN: Codename 47


A série Hitman é uma das franquias mais icônicas da história dos videogames, representando o paradigma definitivo do que hoje chamamos de "social stealth". Sua ideia central parece simples, mas é absurdamente inovadora para a época: o stealth não é apenas sobre não ser visto, não fazer barulho ou ou memorizar rotas de patrulha. Em vez disso, é sobre usar disfarces, assumir papéis e usar espaços sociais para se mover no meio da multidão sem chamar atenção. Antes de Hitman, alguns jogos flertaram com esse conceito em pontos isolados — MISSION: IMPOSSIBLE brincou com disfarces, MESSIAH experimentou com assumir identidades — mas nenhum deles verdadeiramente se comprometeu em ir até as ultimas consequencias com isso. Hitman não apenas tentou essa filosofia, ele construiu toda a sua identidade em torno dela.

Essa aposta se pagou no longo prazo. A série se tornou um clássico, e sua imagem se tornou parte indissociavel da cultura pop. Até mesmo pessoas que nunca tocaram em um jogo do Hitman sabem o básico: um assassino careca, uma tatuagem de código de barras, ternos impecavelmente cortados e uma calma perturbadoramente estilosa enquanto a morte acontece ao redor. A ironia, no entanto, é que o jogo responsável por começar tudo isso, Homemacerto: Codinome 47, também é a entrada menos conhecida da franquia.

Parte desse esquecimento é fácil de explicar. Esta foi uma aposta da Eidos em um estúdio dinamarquês pequeno e relativamente novo chamado IO Interactive, e não é nenhum absurdo entender que a Eidos não afundou muito dinheiro no marketing disso. Além disso, o jogo foi lançado como exclusivo para PC na época pré-Steam, onde PC gaming era um nicho e a visibilidade nos consoles era enormemente importante para o sucesso mainstream. As reviews foram principalmente mornas, frequentemente focando nas arestas a serem aparadas do jogo, em vez de sua ambição. Mas, mais do que tudo, Codename 47 parece esquecido porque é inegavelmente um primeiro rascunho: ousado, experimental, desajeitado e ocasionalmente hostil ao jogador de maneiras que as entradas posteriores suavizariam ou corrigiram completamente. 


Então, a verdadeira pergunta a ser feita aqui é quantos NPCs que nunca se perguntam pq o cara vestido de entregador de pizza tem um código de barras tatuado na nuca são necessários para transformar este estranho e abrasivo experimento em uma das franquias de stealth mais iconicas dos games?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

[#1650][Dez/2000] GIANTS: Citizen Kabuto


Ao longo de todos nessa indústria vital, em mais de uma ocasião eu compartilhei meus sentimentos sobre a Shiny Entertainment. A essa altura, é praticamente um quadro recorrente nesse blog. Já falei sobre tanto EARTHWORM JIM quanto EARTHWORM JIM 2MDK e MDK2 (sim, sem espaço depois do nome, algo que só MDK e a série Mega Man X fazem), MESSIAH, e até me dei ao trabalho de falar sobre EARTHWORM JIM 3D — um jogo que eles nem fizeram, mas eu aprofundei nas diferenças de design entre a Shiny e a VIS Entertainment, e como filosofias criativas radicalmente diferentes podem moldar o que deveria ser a mesma franquia. Então sim, quando digo que sei uma coisa ou duas sobre como a Shiny funciona, eu não estou tirando isso da bunda. Eu já estou nessas trincheiras tempo suficiente para reconhecer suas digitais.

E a conclusão disso tudo, dessa quase uma decada da minha vida dedicada a essas reviews, é a seguinte: a Shiny era um estúdio movido por ideias grandes, ousadas, beirando a insanidade. O tipo de ideia que parece que alguém chutou a porta da sala de reunião e disse: "Tá bom, me escuta, a gente usou um monte de drogas e foi isso que a gente viu". Conceitualmente, eles eram absolutamente lendários. O problema é que, na hora de transformar essas ideias em algo coeso, algo que realmente jogasse tão bem quanto soava no papel, bem, na prática a teoria era outra. A execução raramente correspondia à imaginação. Isso foi verdade para Earthworm Jim, foi verdade para MDK, e foi especialmente verdade para Messiah.

O que nos traz a Giants: Citizen Kabuto.

Porque já nos primeiros minutos o alarme começou a tocar na minha cabeça. A premissa inconfundivelmente maluca. O senso de humor agressivamente britânico. A forma como tudo isso formava uma estrutura de jogo absurdamente ambiciosa que soa incrível em teoria, mas não funciona com a elegância que você esperaria na prática. Na hora eu pensei, "isso fede a jogo da Shiny".

E adivinha só?

[DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO? ESSE JOGO FOI FEITO PELA PLANET MOON STUDIOS!]

Bem, sim. Tecnicamente. Só que a Planet Moon Studios foi fundada por ex-desenvolvedores adivinha da onde? Pois é. Então enquanto você pode de CNPJ, você não se livra de um DNA criativo tão fácil assim. As sensibilidades, os instintos, a filosofia de design da Shiny — todos ainda estão lá, infundidos na estrutura do jogo. Então, para todos os efeitos, Gigantes: Cidadão Besourão é um jogo da Shiny Entertainment em tudo, menos no nome. Para o bem e para o mal.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

[#1649][Nov/2000] TOM AND JERRY IN HOUSE TRAP

Quando eu escrevo sobre esses jogos que têm vinte e cinco anos de idade ou mais, o que eu faço porque claramente minha vida deu muito errado em algum ponto do caminho, eu sempre faço um esforço consciente para não julgá-los pelos meus gostos pessoais de 2026. Isso seria fácil, preguiçoso e profundamente injusto. Em vez disso, tento olhar para eles através da lente de sua intenção original: para quem foram feitos, o que tentavam realizar e, mais importante, a quais limitações tecnológicas e de design estavam presos na época. O contexto em que foi produzida sempre é fundamental para realmente entender uma obra.

Agora, eu tenho alguma noção. Não muita, mas alguma. Sei que não importa o quanto eu tente, o viés sempre escorregando pra dentro. Por exemplo, uma coisa que eu notei que eu faço inconscientemente é JRPGs são um dos meu gêneros favoritos, o que significa que eu sempre exijo mais deles do que eu exigiria de, digamos, um jogo de plataforma licenciado ou um puzzle. Espero sistemas mais profundos, uma história com um propósito ou ambição mecânica, porque eu sei qeu jRPGs podem dar mais. De toda forma, meu ponto é que eu genuinamente tento ser o mais justo e imparcial possível. Ênfase no "tento".

Porque afinal eu não sou algum crítico iluminado flutuando acima de apegos terrenos. Sou apenas um boomer solitário gritando com as nuvens e com tempo livre demais. Não sou o Dalai fucking Lama. Não alcancei a paz interior. Porra, eu não sou nem o Mestre Shifu no meio de seu arco de personagem. Algumas coisas ainda me irritam. Algumas decisões de design ainda me fazem ranger os dentes. E às vezes, nenhuma quantidade de contexto histórico consegue silenciar completamente a parte do meu cérebro que grita: "É, mas isso é uma tremenda bosta".

E é aí que as coisas ficam complicadas. Há momentos em que eu simplesmente não consigo abandonar minhas percepções modernas e avaliar um jogo puramente pelo que ele se propôs a fazer e, mais importante, para quem foi feito. Quando essa lacuna entre intenção e execução se torna muito grande, até mesmo uma contextualização generosa começa a parecer uma desculpa em vez de uma explicação. E Tião e Jaime na Casa Armadilha é um exemplo perfeito do que eu me refiro. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

[#1648][Nov/2000] THE OPERATIVE: No One Lives Forever


De todos os desenvolvedores aos quais eu nunca realmente tinha parado pra pensar a respeito antes de começar este projeto, o que mais inesperadamente conquistou meu apreço foi a Monolith Productions (não confundir com a Monolith Soft, porque se eu ganhasse um centavo cada vez que um estúdio de videogame decide se chamar "Monolith", eu teria dois centavos. O que não é muito, mas ainda sim é estranho que tenha acontecido duas vezes). O que mais gosto na Monolith é que eles nunca pareceram um estúdio conformado em apenas bater o ponto e produzir em série. Não que eles não estivessem fazendo pelo dinheiro (espera-se que sim, já que é meio que como você sobrevive), mas sempre havia a sensação de que eles realmente se sentavam e se perguntavam "o que podemos fazer de diferente desta vez? Como podemos fazer o gênero avançar de uma forma interessante?"

Suas duas respostas mais famosas para essa pergunta ainda são impressionantes hoje. F.E.A.R. elevou o patamar dos inimigos de uma forma impressionante para a época, os inimigos não apenas absorviam balas ou seguiam scripts previsíveis, eles se comunicavam, flanqueavam, forçavam você a sair da cobertura e reagiam dinamicamente ao ambiente. Mesmo agora, décadas depois, continua sendo um ponto de referência sempre que se fala em combate "inteligente" em FPS. Depois, tem o sistema Nemesis de Shadow of Mordor, uma mecânica tão engenhosa e visionária que a Warner Bros. decidiu patenteá-la, garantindo efetivamente que ninguém mais pudesse usá-la novamente. Inclusive eles mesmos, aparentemente, já que mostraram pouco interesse em usar isso de novo na vida. Uma ideia brilhante trancada em um cofre jurídico, condenada a juntar poeira até 2036 quando a patente expira, porque esse é o mundo em que vivemos.

Mas divago. De volta à Monolith Productions. Antes de F.E.A.R. e da Terra-média, o estúdio já havia mostrado momentos de brilhantismo. Seu jogo de estreia é, na minha opinião, o melhor uso já feito da Build Engine (a engine de DUKE NUKEM 3D, que muita gente confunde com a de DOOM). Em seguida vieram com SHOGO: Mobile Armor Division, uma tentativa inteligente, ainda que falha, de fundir a estética anime com o FPS ocidental. Não foi um sucesso total, mas não deixa de ser interessante a sua própria maneira.


O que nos leva ao próximo jogo apresentado neste blog, e o seu projeto mais ambicioso até aqui: "A Operativa: Ninguém é Inimpacotável Pra Sempre". No papel, já parece uma ideia concebida durante uma sessão de brainstorming particularmente inspirada. Um shooter em primeira pessoa 3D com elementos de stealth, ambientado em uma fantasia espiã hiper-estilizada dos anos 60? Pense em Austin Powers com uma pitada de Metal Gear Solid, filtrado por um dos desenvolvedores ocidentais mais criativos da época. Gadgets, espionagem, humor sarcástico e absurdos da Guerra Fria, tudo embrulhado em uma estrutura de FPS.

Então sim, pode me pintar como devidamente intrigado.