Embora atuem em indústrias bem diferentes, a Disney e a Nintendo são frequentemente comparadas em discussões — e os motivos não são difíceis de perceber. Nenhuma das duas empresas inventou o meio em que atuam, mas na prática ambas as regras de seus respectivos campos por décadas. Cada uma construiu um vasto império family-friendly que, em certos momentos, parecia rodar macio quase sem concorrência real. Some a isso sua famosa postura talvez um tanto protetora demais em relação à propriedade intelectual e uma lógica de negócios que muitas vezes só funciona porque são especificamente elas que estão fazendo — algo que apenas um seleto grupo de empresas, como a Apple, consegue replicar de vez em quando — e fica fácil traçar paralelos entre as duas.
Dito isso, há outro aspecto curioso que liga Disney e Nintendo, e é sobre ele que quero falar hoje: nenhuma das duas entendeu os anos 2000. Não realmente.
Eu ainda estou devendo a vocês um conto adequado sobre a história do GameCube — eu não me esqueci disso — mas por enquanto basta entender que na virada do milênio o mundo estava mudando muito rápido. Rápido demais, na verdade, para empresas construídas sobre pelo menos uma decada de sucesso estável. E em vez de se adaptar aos novos tempos, a Nintendo redobrou a aposta no que funcionara antes, aprendendo do jeito dificil que o mundo tinha mudado e as coisas jamais seriam como antes. E uma coisa muito parecida pode ser dito sobre a Disney no mesmo período.

Embora a segunda metade dos anos 90 não tenha sido marcada por fracassos comerciais retumbantes, ela nunca alcançou o mesmo nível de dominância cultural da primeira metade da década — a era de
LION KING,
ALADDIN e
BEAUTY AND THE BEAST. Filmes como
O Corcunda de Notre Dame e
POCAHONTAS foram ambiciosos e artisticamente sérios, mas também menos abraçados pelo público e cada vez mais distantes da aclamação unaníme dos primeiros anos da Renascença da Disney. Quando
A Nova Onda do Imperador foi lançado, a Disney ainda tinha um sucesso criativo em mãos — mas comercialmente o filme teve um desempenho modesto e só mais tarde conquistou sua agora famosa reputação cult (no Brasil, não em pequena monta graças a dublagem brasileira que é espetacular e carrega o filme).
Enquanto isso, a concorrência ficava mais forte a cada ano. A Pixar, em particular, roubava a cena com comédias de aventura que eram mais leves em tom, mas mais ricas em caracterização com personagens mais tridimensionais (viram o que eu fiz aqui? Heim? Heim?). Em
TOY STORY, toda confusão começa porque Woody fica com ciúmes e com medo de ser substituído. Em
A BUG'S LIFE, Flik é inteligente e bem-intencionado, mas repetidamente piora as coisas porque tenta resolver problemas que ainda não entende. Tá, não é Dostoiévski, mas para a animação familiar mainstream da época, esse tipo de frame emocional era radicalmente novo. Funcionava para as crianças e para os pais.
Ao mesmo tempo, a DreamWorks Animation ganhava força misturando comédia mais ampla com ambições temáticas mais maduras.
O Príncipe do Egito apresentava a história de Moisés como um drama profundamente humano, e não um espetáculo bíblico distante. E
CHICKEN RUN — produzido pela DreamWorks em parceria com a Aardman — realizava a façanha improvável de transformar uma narrativa de fuga de prisioneiros de guerra em uma comédia em claymation sobre galinhas.
Enquanto os concorrentes ganhavam impulso e o público claramente respondia a essas mudanças, a Disney tinha dificuldade para entender por que os espectadores em 2000 estavam de repente olhando para o quintal do vizinho em vez do seu. E quando a Disney tentou se ajustar sem diagnosticar exatamente o problema, os resultados foram irregulares. Era como tentar consertar um carro sem primeiro descobrir o que estava quebrado.
No início, a Disney suspeitou que o problema pudesse ser o formato musical, então o estúdio se afastou das estruturas tradicionais de canções no estilo Broadway. Mas o problema não era a música. Depois suspeitaram que os próprios contos de fadas estavam se tornando ultrapassados, então se afastaram do material de contos de fadas. Mas o problema também não eram os contos de fadas. Eventualmente, o estúdio concluiu que o público queria mais ficção científica e ação — e essa decisão levou ao que é chamado como a trilogia sci-fi do início dos anos 2000 da Disney: Atlantis: O Reino Perdido, Lilo & Stitch e Planeta do Tesouro.
Apenas um desses filmes se tornou um claro sucesso comercial — e a essa altura você provavelmente sabe que é aquele sobre armas vivas alienígenas que falam engraçado. Os outros tiveram destinos bem diferentes: Atlantis teve um desempenho modesto e raspando não deu prejuízo, mas nunca se tornou um sucesso estrondoso, enquanto Planeta do Tesouro foi efetivamente um flop de bilheteria sério, apesar de sua ambição e experimentação técnica.
Se você já sabe por que isso aconteceu, provavelmente consegue ver para onde esta discussão está indo. E se não sabe, não se preocupe — vamos faze-la juntos enquanto analisamos mais de perto Atlantis: O Reino Perdido.