Nos anos 80, havia uma forma praticamente garantida de imprimir dinheiro: mechas. Bom saber que, quase meio século depois, poucas coisas mudaram. Crianças gostam de ver naves e robôs gigantes fazendo coisas legais e, mais importante, gostam de azucrinar os pais até que uma daquelas peças específicas de plástico vá parar dentro de casa. Mais uma vez, poucas coisas mudaram. Abençoado seja o capitalismo.
Apesar de terem recepções fracas na sua transmissão original, eventualmente animes como Space Battleship Yamato e posteriormente Mobile Suit Gundam provariam que havia sim muito dinheiro a ser feito em brinquedos baseadas em obras que faziam o público realmente se importar com quem estava lutando e por quê, em vez de simplesmente mostrar máquinas legais fazendo coisas legais. Essa prática posteriormente seria weaponificada pela indústria, o que nos daria coisas como Neon Genesis Evangelion e Code Geass, ao mesmo tempo que nos empurraria merchandising suficiente para afogar gerações inteiras de otakus em plástico.
Então, como eu disse: robos gigantes são basicamente uma licença pra imprimir dinheiro, certo?
Então... não é tão fácil assim também.
Por volta de 1980, o Studio Nue estava tentando tirar do papel um projeto de ficção científica bem mais pesada. Shōji Kawamori, Kazutaka Miyatake e o resto da equipe estavam muito interessados em máquinas mais fundamentadas e designs mecânicos pouco convencionais, mas seus parceiros da Wiz Corporation estavam mais interessados nas pequenas trivialidades do metier: COMO QUE A GENTE VENDE A PORRA DO ROBÔ GIGANTE?
A Wiz não queria essa bobajada de dramas existenciais, questionar a guerra e crianças com os olhos cheios de água ao entender que quando um robo gigante explode, é o pai de alguém que não vai mais voltar pra casa. Não, eles queriam vender a porcaria dos brinquedos e deu.
E se é assim que ia ser, beleza. Cês querem vender a porra dos brinquedos? Então a gente vai vender a porra dos brinquedos: a Nue então criou Battle City Megaroad. Se eles queriam queriam robôs humanoides gigantes, tudo bem: faça os INIMIGOS serem humanoides gigantes. Assim, nossas máquinas teriam uma razão de verdade para assumirem uma forma humanoide também. Já que estamos aqui, faça a própria nave espacial se transformar num robo gigante? Alias, faça também sua mãe ser um robo, pq ela já é gigant- desculpem, me passei.
Mas sim, a ideia era avacalhar mesmo: colocar uma cidade civil inteira dentro da nave que vira um robo gigante por nenhum outro motivo que TEM UMA CIDADE INTEIRA DENTRO DA NAVE QUE VIRA ROBO GIGANTE, vamos ver se eles não vão gostar disso...
... espera, eles gostaram disso? A Wiz achou aquela ideia super dahora e viu a possibilidade de vender um bilhão de brinquedos, ao que o Studio Nue de repente se viu obrigado a levar a piada a sério. À medida que a possibilidade de realmente produzir Megaroad aumentava, seus elementos mais abertamente paródicos foram sendo reduzidos e a coisa toda evoluiu para aquilo que acabaria se tornando The Super Dimension Fortress Macross.
E certamente não faltavam ao Nue pessoas que sabiam projetar máquinas absurdamente legais. Kazutaka Miyatake já havia trabalhado em Space Battleship Yamato, enquanto Kawamori — absurdamente jovem nessa época — também vinha fazendo design mecânico para a Takara, inclusive para uma linha de brinquedos chamada Diaclone.
A qual você provavelmente conhece, especialmente por causa da sua linha de 1982.
[POR QUE DIABOS EU CONHECERIA ESPECIFICAMENTE A LINHA DE 1982 DE BRINQUEDOS JAPONESES DOS ANOS 80 COM UM NOME QUE EU NUNCA OUVI NA VIDA?]
Porque um daqueles brinquedos era um caminhão vermelho e azul que virava um robô com uma compulsão irresistível de fazer discursos para o espaço sideral enquanto Linkin Park toca nos créditos.
[AH... ESSE ROBÔ-CAMINHÃO.]
É.
Esse.
Ainda assim, o ponto é que o Nue tinha talento, especialmente Miyatake e Kawamori, e essas pessoas GOSTAVAM MUITO de projetar máquinas. O que é importante porque, se havia uma área na qual Macross não iria fazer concessões, era justamente toda a razão pela qual esses caras estavam interessados no projeto em primeiro lugar: robôs e caças.
Infelizmente, vivemos em mundo menos que ideal e gostar de robôs não fornece automaticamente o dinheiro necessário para animar robôs.
O que por um lado foi uma coisa boa, pq a Wiz Corporation entrou em dificuldades financeiras e abandonou o barco, dando ainda mais liberdade para o Studio Nue transformar aquela tolice toda em algo mais perto da história que eles queriam contar. O lado menos bom do seu parceiro com dinheiro não ter mais dinheiro... é que você não tem mais o parceiro com dinheiro.
O Studio Nue conseguiu manter o projeto vivo meio que na força do ódio até conseguir arranjar um acordo com Big West Advertising como patrocinadora principal, enquanto a Tatsunoko Production passou a ter participação pesada na produção efetiva da série. Guarde esse acordo com a Tatsunoko, ele vai ser importante mais pra frente.
E quando eu digo que Macross mal sobreviveu ao caminho até a televisão, quero dizer coisas como a duração planejada da série mudando várias vezes dependendo de quanto dinheiro tinha naquela semana. Um dos primeiros planos para Megaroad previa 39 episódios, durante a pré-produção limitações financeiras acabaram reduzindo o plano para televisão a apenas 23, quando a série realmente estreou e ficou popular ela foi esticada para 36 episódios enquanto já estava sendo produzida.
Vc não precisa realmente ser um PHD em escrita criativa para perceber o quanto a duração da série ficar encolhendo e esticando assim ENQUANTO a coisa já está sendo feita... é o cenário menos que ideal, vamos colocar assim. E eu estou contando tudo isso porque... bem, principalmente porque tenho todo esse conhecimento sobre história de anime e absolutamente ninguém para conversar sobre ele, mas também porque isso é fundamental para entender Macross.
Pq se, assistindo ao anime, às vezes parece que a série é uma colcha de retalhos feita de concessões, decisões desesperadas de produção e uma equipe decidindo diariamente o que poderia sobreviver ao corte enquanto ao mesmo tempo tentava empurrar a animação para frente como mídia, é porque foi exatamente isso que aconteceu.
Macross é uma bagunça.
Não tem meio termo, eu vou dizer isso abertamente desde já.
E você precisa aceitar a bagunça para conseguir apreciar quanta coisa boa sobreviveu dentro dela.
Então, qual é a nossa história?
Bem, no ultrafuturista ano de 1999, a humanidade recebe a prova definitiva de que vida extraterrestre existe quando uma gigantesca nave alienígena cai na ilha de South Ataria, no extremo sul do arquipélago de Ogasawara. Como você provavelmente se lembra, 1999 foi um ano bastante movimentado.
A boa notícia era que a humanidade não estava mais sozinha no universo.
A má notícia era basicamente todo o resto.
A nave estava séculos afrente de qualquer coisa que a humanidade pudesse construir, as pessoas que a utilizavam aparentemente eram gigantescas e — pequeno detalhe que algumas culturas poderiam considerar ligeiramente preocupante — aquilo era muito obviamente uma NAVE DE GUERRA.
Mais preocupante ainda: era uma nave de guerra ABATIDA.
O que significava que, em algum lugar lá fora, existiam as pessoas que construíram aquilo e existiam pessoas que provavelmente não gostavam muito de quem construiu aquilo. Mais importante para nossos problemas imediatos, pessoas que conseguiram derrubar uma tecnologia que nós nem entendíamos de tão avançada.
Fodeu.
Pq se a história humana nos ensinou alguma coisa, é o que normalmente acontece quando uma civilização tecnologicamente avançada encontra uma consideravelmente mais rudimentar... e em geral você não quer descobrir que está do lado mesoamericano desse encontro em particular.
Então a humanidade chega à conclusão óbvia de que talvez todas as nações devessem cooperar, unir seus recursos e se preparar para seja lá o que diabos estivesse lá fora. E porque estamos falando da humanidade, essa tentativa de unificar pacificamente o planeta imediatamente causa outra guerra.
As Guerras de Unificação consomem boa parte da década seguinte enquanto o recém-formado Governo da ONU combate grupos contrários à unificação... o que é uma das partes mais realistas do anime:
“ALIENS EXISTEM E UMA HORA VÃO VIR AQUI MATAR TODOS NÓS.”
“Certo, mas antes eu preciso atirar EM VOCÊ por causa de como vamos lidar com isso.”
A humanidade eventualmente coloca suas merdas em ordem — mais ou menos... — e passa dez anos fazendo engenharia reversa da nave acidentada e da tecnologia dentro dela.
A nave alienígena se torna a SDF-1 Macross.
E então, exatamente no dia da cerimônia de lançamento da Macross em 2009, porque aliens são divas dramáticas que entendem ritmo televisivo, adivinha quem aparece?
A frota Zentradi.
Eles reconhecem a Macross como uma nave que pertenceu aos seus inimigos e vêm investigar. A humanidade inicialmente não faz ideia do que diabos está acontecendo.
Infelizmente, a própria Macross faz.
Seus sistemas automatizados de defesa originais despertam, detectam as naves Zentradi se aproximando e disparam o canhão principal sem pedir permissão aos seus novos proprietários humanos.
Então a primeira troca significativa da humanidade com uma civilização extraterrestre ocorre aproximadamente assim:
“Saudações, seres de outro—”
BWAAAAAAAAAAAAAAAM.
Parabéns.
Primeiro contato realizado.
Os Zentradi compreensivelmente reagem um pouco mal a terem suas naves vaporizadas, e a batalha começa, o Capitão Global (mais precisamente, Bruno J. Global, possivelmente o melhor nome de personagem de anime de todos os tempos), no comando da Macross, decide usar o sistema de dobra espacial da nave para escapar. A ideia é saltar para o lado oposto da Lua, tirando a batalha imediata das proximidades da Terra enquanto coloca alguma distância entre a Macross e os Zentradi.
Faz muito sentido, só tinha um pequeeeeno problema: ninguém realmente entendia muito bem essa tecnologia alienígena. Quer dizer, nós consertamos a porcaria pq a gente sabe como remendar uma fiação, mas o que ela faz EXATAMENTE é um caça-bípede de uma cor inteiramente diferente. Então provavelmente daria certo. Esperamos.
Então nosso Brunão da massa aperta o botão dimensional e a Macross salta. Yay.
E aparece perto de Plutão. Menos yay.
Ah, um errinho de apenas 5 bilhões de quilometros, quem nunca passou a entrada no Waze também né?
Também acontece que o campo de Dobra não levou apenas a Macross: ele levou um pedaço considerável de South Ataria junto, incluindo a cidade. E os civis. Imagine se esconder dentro de um abrigo reforçado durante um ataque alienígena, abrir a porta depois e descobrir que seu endereço atual é A PORRA DE PLUTÃO. Cacete, as taxas de entrega do ifood devem ter ficado assustadoras.
Felizmente, muitos dos abrigos sobreviveram. A Macross recolhe os civis, recupera o que consegue da cidade e eventualmente reconstrói boa parte dela nos enormes espaços internos da nave alienígena. Infelizmente, aparentemente o sistema de dobra não pegou o memorando que ele era parte do resto da nave e continuou dobrando o espaço até... bem, sabe-se lá onde. Então se um dia sua civilização na Grande Nuvem de Magalhães for aniquilada pq um motor de dobra bateu nela... foi malz ae.
E de toda forma, talvez seja para o melhor, pq ninguem estaria muito animado pra apertar o botão de novo e arriscar acabando na vizinhança de Sagittarius A* da próxima vez. O que importa aqui é que a Macross então tem que fazer todo caminho de volta de Plutão até a Terra ao velho estilo texano: ligando seus motorzinhos e percorrendo todos os vários bilhões de km... ao menos o programa de milhagem deve ficar supimpa.
Então esse é nosso cenário básico.
E talvez não intencionalmente, mas existe uma energia bastante Battlestar Galactica nisso: uma nave militar isolada protegendo milhares de civis enquanto tenta chegar em casa e uma frota inimiga continua atazanando a vida deles pq eles não tem absolutamente nada melhor pra fazer.
O que nos leva ao que Macross REALMENTE é: brega pra cacete.
E isso é uma coisa maravilhosa.
Nosso herói aqui é Hikaru Ichijyo, um piloto acrobático civil que foi até South Ataria porque seu senpai Roy Focker (hihihi) o convidou para a cerimônia de lançamento da Macross. Hikaru acaba preso nessa confusão toda e eventualmente entra para as forças armadas por uma mistura da influência de Roy, circunstâncias e o fato de que ele gostaria muito que a garota bonitinha que acabou de conhecer não fosse reduzida aos seus átomos constituintes por aliens gigantes. Ainda assim, ele reclama bastante da vida militar ainda que eventualmente ele continua sobrevivendo por tempo suficiente para receber mais responsabilidades, que é basicamente como promoções funcionam durante uma guerra.
Parabéns, soldado! Suas qualificações para promoção são:
A) respirar;
B) o cara anterior não está.
Essa é outra das partes mais realistas do anime.
A garota bonitinha em questão é Lynn Minmay, uma das civis presas a bordo da Macross. Ela se estabelece na Macross City reconstruída e ajuda no restaurante chinês dos tios porque aparentemente ser teleportada até Plutão não é suficiente para derrotar o setor de serviços.
O capitalismo sobreviverá à morte térmica do universo.
Dê seis horas e alguém abre um Starbucks lá.
E porque milhares de civis agora vivem dentro de uma nave espacial durante meses e precisam de alguma coisa para fazer além de contemplar o horror existencial de sua situação, Macross City retoma algo parecido com uma vida civil normal.
Comércios reabrem.
A televisão volta.
As pessoas saem em encontros.
E eventualmente organizam o concurso Miss Macross.
Porque aliens gigantes podem destruir a humanidade amanhã, mas eles não destruirão nosso compromisso com as waifus HOJE.
Novamente: bastante realista.
Minmay vence, vira celebridade local e eventualmente se torna uma idol.
E é aqui que o anime começa a ficar consideravelmente mais estranho do que o seu show normal de ROBÔ LEGAL MATA ALIEN que as fabricantes de brinquedo provavelmente imaginavam estar pagando, porque Macross não é realmente sobre Hikaru derrotando os Zentradi, é sobre ele enfrentar uma coisa muito mais aterradora: ser péssimo em lidar com as mulheres.
Mais especificamente, Macross se torna um triângulo amoroso entre Hikaru, Minmay e a Primeira-Tenente Misa Hayase, oficial da ponte da Macross que inicialmente interage com Hikaru principalmente mandando ele fazer as coisas enquanto ele reage como um adolescente cuja mãe acabou de pedir para limpar o quarto.
Hikaru e Minmay são o casal óbvio no começo: eles se conhecem durante o ataque, ele protege ela, os dois ficam presos juntos, ele fica apaixonadinho, ela claramente gosta dele, vai levar 275 episódios pra no máximo alguem pegar na mão de alguém. Animes nos treinaram durante décadas para saber no que isso vai dar. Exceto que... a vida adulta começa a acontecer com os dois.
Hikaru se envolve cada vez mais profundamente com a vida militar. Ele perde pessoas. Recebe responsabilidades. Gradualmente desenvolve uma relação com Misa baseada menos em fantasia romântica adolescente e mais em realmente compartilhar experiências, depender um do outro e sobreviver a coisas terríveis juntos. Minmay, por sua vez, fica famosa e sua carreira consome cada vez mais da vida dela. Ela viaja, faz shows, lida com fãs e empresários e começa a viver em um mundo cada vez mais distante daquele Hikaru que conheceu inicialmente.
E eu realmente gosto dessa ideia.
A relação entre Hikaru e Minmay não é destruída por uma grande traição melodramática nem nada do tipo, eles apenas vão se afastando não porque eles gostem menos um do outro, mas as vidas deles deixam de encaixar uma na outra. Os dias dourados da juventude passam, o “felizes para sempre” de mãos dadas desaparece no horizonte, responsabilidades se acumulam, as pessoas ficam cada vez mais cansadas, relacionamentos esfriam e eventualmente você aceita que vai morrer sozinho tossindo no escuro sem ninguém para ouvir.
[FALE-ME MAIS SOBRE PROJETAR A SI MESMO EM UM ANIME.]
Caham. Deixando essa pequeníssima última parte de lado, Macross realmente tem algo surpreendentemente maduro a dizer sobre relacionamentos mudando conforme as pessoas crescem e se tornam adultos diferentes... Infelizmente, o que ele quer dizer e o quão elegantemente consegue dizer isso são duas coisas extremamente diferentes.
A escrita romântica de Macross é, colocando gentilmente, desajeitada pra cacete. Os personagens ficam dando voltas em torno do mesmo mal-entendido boboca, Hikaru passa períodos extraordinários de tempo sem conseguir entender informações posicionadas aproximadamente quatro centímetros diante do rosto dele, Minmay pode parecer uma adolescente crível em um episódio e uma máquina especificamente projetada para gerar complicações românticas no seguinte. E Misa alterna entre uma comandante altamente capaz (algo bem raro pra um anime da época) a mocinha com cara de paisagem esperando o herói decidir a sua vida romantica (algo bem comum pra um anime da época).
Olha, animes ainda não se sentem particularmente confortaveis escrevendo romance nem em 2026, imagina fazer isso em 1982. Agora imagina fazer isso enquanto sua produção está ficando sem dinheiro, episódios estão sendo reorganizados e metade da equipe provavelmente não dorme desde quinta-feira. Ainda assim, eu ao menos respeito o que eles estavam tentando fazer.
E Minmay se torna muito mais importante para o destino da Macross do que você inicialmente imaginaria porque os aliens que estão perseguindo eles — os Zentradi — são uma civilização muito peculiar: eles foram criados para a guerra.
Literalmente.
São soldados gigantes geneticamente modificados, produzidos pela antiga Protocultura e criados inteiramente em torno do combate. Sua sociedade não tem cultura civil, homens e mulheres operam separadamente, a reprodução é industrial. Toda a civilização é construída em torno de obedecer ordens e atirar naquilo que alguém mandar atirar.
Eles conhecem GUERRA.
Eles não conhecem muita coisa além disso.
Então imagine ser um soldado de cinco andares de altura que passou a vida inteira cercado por disciplina militar, homens gigantes e explosões quando de repente você é confrontado com a arma mais poderosa da humanidade: waifu.
Os Zentradi poderiam absolutamente destruir a humanidade militarmente, o problema é que ao fazer isso eles começam a entrar em contato com a cultura humana: música, filmes, romance, pessoas vivendo juntas, homens e mulheres interagindo sem ninguém atirar na cara de ninguém (na maior parte do tempo).
E então...
BITOCAS.
A reação dos primeiros Zentradi expostos a dois humanos se pegando é aproximadamente aquela que você esperaria de um monge medieval descobrindo o Pornhub: QUE PORRA É ESSA?
E a resposta é: Cultura.
Que acaba sendo a arma mais perigosa e infecciosa que a humanidade já desenvolveu.
Imagine o relatório subindo pela cadeia de comando da frota:
“Comandante, os miclones têm essa coisa chamada música.”
“O que ela faz?”
“Eles... escutam.”
“Por quê?”
“Porque eles gostam.”
“...gostam?”
“Além disso, os machos podem ficar perto das fêmeas.”
“O QUÊ?”
“E às vezes eles encostam nelas.”
“EM QUE MUNDO VIVEMOS!”
Logo isso começa a se espalhar pelas fileiras Zentradi como fogo, porque pela primeira vez esses soldados estão sendo apresentados à possibilidade de que a existência possa conter alguma coisa além de combate.
Você pode comer porque a comida é gostosa, em vez de porque seu corpo precisa de combustível, pode fazer coisas porque são bonitas, pode cantar simplesmente porque está com vontade, pode amar alguém, pode desperdiçar o domingo à tarde jogando um JRPG de oitenta horas e depois gastar outras escrevendo uma review sobre ele que ninguem vai ler.
Isso é cultura.
E para pessoas cujo sistema social inteiro depende de ninguém jamais perguntar “tem mais alguma coisa que eu poderia estar fazendo da minha vida?”, civilização é aterrorizante pra caralho.
Não ironicamente, o alto-comando Zentradi trata a exposição cultural quase como uma infecção. E sinceramente?
Eles estão certos.
É uma infecção.
Soldados ficam obcecados por produtos humanos.
Outros começam a querer desertar.
Toda a estrutura começa a rachar porque, depois que alguém descobre que uma vida pacífica existe, gritar “DE VOLTA PARA O FRONT!” vira uma proposta muito mais difícil de vender.
É aí que Minmay deixa de ser simplesmente a idol bonitinha por quem Hikaru tem uma queda e se transforma talvez no recurso estratégico mais importante da humanidade. Não pq as músicas dela são mágicas... ao menos não no Macross original, pq ocasionalmente a franquia transformaria a música em metafísica, mas isso é um problema para o futuro. Aqui Minmay importa porque representa tudo aquilo que os Zentradi jamais experimentaram e a música dela é usada como arma psicológica.
Eu quero dizer literalmente, durante o conflito final eles transmitem Minmay cantando.
Imagine as tropas americanas desembarcando no Dia D ao som de Taylor Swifit e os soldados nazistas completamente confusos com "que bruxaria é essa e pq esse som viciante faz eu querer remexer os quadris?".
Eventualmente, o alto comando Zentradi conclui que a infecção cultural humana se espalhou demais e que as próprias forças Zentradi contaminadas se tornam uma ameaça ao sistema, decide sacrificar as próprias forças contamindas e essas forças acabam se aliando à Macross contra a frota principal. Então Macross se transforma nessa space opera absurdamente brega em que naves vencem batalhas, mas o poder de uma música vence a guerra.
E eu sinceramente amo essa tolice, pq é uma ideia muito mais interessante que os aliens sejam derrotados não por um canhão maior, mas pq a sua sociedade desmorona ao entender tudo mais que a vida podia ser
Comida gostosa.
Músicas.
Romance.
Amigos.
Famílias.
Hobbies inúteis.
Garotas fofas fazendo coisas fofas.
E pegação.
Especialmente pegação.
Espere até eles descobrirem os peitos e nós vamos dominar a porra da galáxia.
Mas falando sério, tem algo genuinamente bonito nessa ideia de que nossa arma mais perigosa não é o laser gigante, é a nossa capacidade de sermos legais uns com os outros. Ser gentil é nosso verdadeiro superpoder, como o Superman passaria décadas tentando explicar antes de Zack Snyder começar a arremessá-lo através de prédios.
Novamente, o ritmo e a escrita são bagunçados o suficiente para que muitas vezes eu aprecie mais aquilo que Macross está tentando dizer do que a forma exata como ele diz, mas a ideia é forte o suficiente para sobreviver à produção. Até porque o capitalismo ser o chefe final de O AMOR VENCE TUDO aí sim talvez seja mesmo a parte mais realista da história.
Mas é claro, eu também adoro a parte dos mísseis e dos lasers pq Shōji Kawamori era bom pra cacete nisso e projetou um dos mechas mais legais que jamais mechou. O VF-1 Valkyrie é essencialmente um caça militar — visualmente muito inspirado nos caças como o F-14 Tomcat — mas capaz de assumir três configurações.
O modo Fighter é o óbvio: Ele voa.
Já estabelecemos o conceito de avião faz um tempinho.
O modo Battroid transforma a aeronave em um mecha humanoide, útil para lutar contra os Zentradi em algo próximo da escala física deles e operar em espaços onde UM JATO DO CARALHO é ligeiramente inconveniente.
E então temos o GERWALK, que é a forma intermediária.
Basicamente, o caça ganha braços e pernas enquanto continua sendo um caça porque seria muito dificil pro Tom Cruise pegar um lanche no Drive Through sem mãozinhas e perninhas.
Tá, eu sei que parece ridículo descrevendo, mas fica realmente foda na execução até pq a série realmente encontra utilidades para ele. O GERWALK pode pairar, frear, manobrar em baixa velocidade e interagir com o ambiente sem precisar sem perder a velocidade de um caça ao se transformar completamente em Battroid.
A VF-1 Valkyrie é um daqueles designs em que você sente que as pessoas fazendo o anime não o inventaram um robô porque alguém da Bandai estava parado do lado de fora do estúdio segurando um taco de beisebol. Eles fizeram isso pq AMAVAM essa merda. Kawamori era obcecado em fazer a transformação fisicamente plausível o suficiente para que peças não simplesmente desaparecessem quando a máquina mudava de forma. O avião ainda precisava parecer algo que realmente poderia voar em vez de só virar uma geladeira colorida no modo Battroid pela força do merchandising.
Esse entusiasmo transpira de todas as cenas mecânicas.
Fato que esse entusiasmo era muito caro, porque máquinas complicadas ficam ótimas quando bons animadores recebem tempo suficiente para desenhá-las... e a parte do “tempo suficiente” era onde o dinheiro dizia "creio que não, Lino". O resultado disso é que Macross consegue ir de cenas absolutamente espetaculares de animação mecânica para personagens que subitamente parecem ter sido desenhados por alguém que recebeu uma descrição do Hikaru pelo telefone... o que as vezes era realmente o caso, pq a produção dependia de diferentes estúdios e terceirizados, e as oscilações de qualidade podem ser brutais. Mas quando Macross fica bonito, PUTA MERDA.
O trabalho de Ichiro Itano em particular se tornaria famoso pelo que depois seria chamado de Itano Circus: enormes barragens de mísseis enchendo a tela, dezenas de projéteis serpenteando uns entre os outros, alvos girando pelo espaço tridimensional enquanto os rastros desenham o movimento.
Não é simplesmente UM MONTE DE MÍSSEIS.
Embora haja, cientificamente falando, míssil pra caralho.
O importante é como a ação flui: os mísseis perseguem o alvo, a câmera acompanha tudo, objetos avançam e recuam em relação ao espectador em vez de simplesmente deslizar lateralmente sobre um fundo pintado.
Isso ajudou a estabelecer uma linguagem visual para combate aéreo que os animes passariam décadas roubando de Macross, pq o maior elogio que uma técnica pode receber é se tornar tão normal que as pessoas esquecem que alguém algum dia precisou inventar a porcaria.
E se transformar um F-14 em robô não fosse suficiente, a própria Macross é uma nave de aproximadamente um quilômetro de comprimento que eventualmente se transforma em uma configuração humanoide gigante por causa de um problema de engenharia maravilhosamente idiota envolvendo os sistemas de energia reconstruídos da nave. Essencialmente:
“Capitão, o canhão principal não funciona.”
“Por quê?”
“A energia não está mais conectando corretamente.”
“Podemos redirecionar?”
“Sim.”
“Ótimo.”
“Só precisamos transformar a nave espacial inteira em um robô gigante.”
“...”
“O quê?”
“Nada. Prossiga.”
Faz algum sentido? Absolutamente nenhum.
Mas então eu serei um cadaver duro e gelado no dia que eu reclamar que um porta-aviões espaciais vira um robo gigante e ele usa esses braços para fisicamente SOCAR as naves inimigas ATRAVÉS DO CASCO, abrir as comportas do navio e despejar Destroids lá dentro. DEADALUS ATTACK, MOTHERFUCKERS!
Isso não é estratégia militar, isso é uma criança de oito anos batendo dois brinquedos um contra o outro e se recusando a reconhecer que a outra criança disse que isso não vale. É absolutamente glorioso.
Infelizmente, ASSISTIR Macross de verdade nem sempre é tão fluido quanto lembrar das partes legais depois.
O ritmo está por toda parte.
A qualidade da animação está por toda parte.
Muitos pedaços da história realmente parecem que todo mundo envolvido descobriu o plano de produção cinco minutos antes da gente.
E então chegamos ao episódio 27.
Esse era efetivamente o encerramento para o qual Macross vinha caminhando.
Porque quando a série foi reduzida a um plano de 23 episódios durante a pré-produção, o material que acabaria se tornando o episódio 27 deveria servir como final.
Quando a série fez sucesso e os patrocinadores ampliaram a encomenda, a equipe esticou o caminho até esse clímax, inseriu material adicional — incluindo episódios pesados em recapitulação — e empurrou o encerramento para o episódio 27.
E “Love Drifts Away” absolutamente TEM CARA de um pusta final épico.
A Macross e os Zentradi culturalmente “infectados” juntam forças.
A frota suprema Zentradi chega para purgar a Terra e seus soldados contaminados.
Minmay canta como uma arma psicológica de verdade.
O planeta sofre um bombardeio catastrófico.
A civilização humana é quase exterminada.
A Macross lança seu ataque final.
Naves explodem por toda parte.
A Macross termina como um glorioso monte de sucata, mas ainda de pé pq Raoh nos ensinou que é assim que grandes guerreiros caem.
Coisa boa, é exatamente o tipo de clímax absurdamente rídiculo e ao mesmo tempo sincero que só Macross poderia produzir.
O episódio termina e você naturalmente pensa: "Certo, isso foi Macross"...
Só que não foi, ainda está sendo.
Porque lembra de quando a série inesperadamente ficou popular? Os patrocinadores decidiram que queriam 36 episódios agora pq esses bonecos não vão se vender sozinhos, então tira mais 9 episódios da bunda, sei lá, dá teus pulo ae.
Então Macross pula dois anos para frente e passa outros nove episódios lidando com a vida depois da guerra. Tá, eu entendo que DÁ pra fazer uma história disso pq existe uma ideia aqui. Os soldados Zentradi foram expostos à cultura, ótimo, e agora como exatamente eles vivem no pouco que restou da Terra com os sobreviventes humanos?
Isso não necessariamente vai funcionar bem.
Alguns Zentradi se integram à sociedade humana.
Outros percebem a dura realidade que a sua waifu nem ninguem realmente se importa que vc exista e que a vida não é nada senão vazio e solidão. Bem vindos a existencia humana premium, Zentradi, deviam ter lido a letra miúda.
E além disso, o triângulo amoroso entre Minmay, Hikaru e Misa ainda precisa ser resolvido. Então, tematicamente, eu entendo por que esses episódios existem, sério, tudo bem... eu só não preciso de NOVE DELES. A história terminou no episódio 27 e o resto parece a maior cena pós-créditos da história dos animes.
Hikaru e Minmay começam a girar um ao redor do outro novamente.
Misa sofre.
Hikaru fica indeciso.
Depois fica mais indeciso.
Depois alcança um estado da matéria anteriormente desconhecido composto inteiramente de indecisão enquanto toca Komm, Süsser Tod... não, espera, esse é o outro anime. Em algum momento você começa a se perguntar se os Zentradi estavam certos e talvez cultura tenha realmente sido um erro.
Esse arco estendido contribui com ideias importantes que o resto da franquia utilizaria — integração Zentradi, reconstrução da Terra, humanidade se espalhando pelo espaço — mas, como conclusão para ESTA história, ele se arrasta enormemente. É como O Retorno do Rei terminar no Monte da Perdição e então Peter Jackson anunciar que ainda resta uma hora e quarenta minutos do Sam tentando decidir se ainda gosta da Rosie Cotton.
Então, como eu disse: é uma bagunça.
Historicamente importante.
Tematicamente singular.
Cheia de ideias espetaculares.
Responsável por avançar a animação como midia alguns anos para frente.
Lar de um dos maiores mechas transformáveis já projetados.
Um drama romântico sobre a vida adulta enterrado dentro de uma space opera militar.
Uma história em que a humanidade derrota um exército de gigantes geneticamente modificados apresentando música pop e heterossexualidade a eles.
Mas ainda uma bagunça.
Mas agora que eu já contei a história de como Macross ousou mudar a galáxia com uma canção de amor, o próximo passo é contar o que aconteceu quando o Ocidente decidiu que aquela Super Fortaleza Dimensional estava sofrendo de uma grave deficiência de DEMOCRACIA E LIBERDADE. Soltem o grito da águia-careca, porque essa é a trágica história do massacre que Macross sofreu nas mãos da distribuição americana.
E eu sinto que chamar de “massacre” está subestimando a situação, não exagerando.
Mas vamos começar pelo começo.
Em 1984, Transformers provou ser muito mais do que os olhos podiam ver e virou uma febre nos Estados Unidos porque... bem, são veículos que viram robôs. Se eu realmente preciso explicar por que isso é maneiro, você está no blog errado.
E não é exatamente possível esconder um negócio desse tamanho numa indústria que movimenta tanto dinheiro. A Hasbro não simplesmente shadowdropou um Starscream no meio da madrugada e esperou para ver no que dava.
Tem contrato.
Licenciamento.
Negociação.
Concorrentes tentando descobrir qual é a próxima coisa quente antes dos outros.
Todo aquele jazz.
O negócio, acredite ou não, é um negócio.
Então o começo dos anos 80 virou uma pequena corrida do ouro para descobrir quais robôs japoneses poderiam ser importados, remontados, rebatizados e vendidos para crianças americanas. E maldito seja eu se a VF-1 Valkyrie não é o brinquedo mais maneiro que jamais brinquedou. Parece simples, certo?
E de certa forma, foi. A Revell já vinha importando model kits japoneses e reuniu vários deles sob uma marca própria chamada Robotech — inclusive modelos derivados de Macross. Harmony Gold, por sua vez, havia licenciado Macross da Tatsunoko inicialmente pensando em algo bem mais simples: fazer uma versão em inglês para home video. Ou seja, de um lado tínhamos uma empresa com o anime, do outro uma empresa com os brinquedos. E ambas olhando para aquele mesmo caça que virava robô pensando:
Após se estranharem um pouco no começo, a Harmony Gold acabou trabalhando com a Revell e contratou Carl Macek para desenvolver aquilo para televisão. Até aí, maravilhoso: Macross ganha versão americana, mais gente vê Macross, brinquedos são vendidos, dinheiro circula, o capitalismo funciona.
... exceto por uma pequena tecniquica... tecniquic... um detalhe tecnico: Macross tem 36 episódios. A syndication americana usava o mesmo sistema que nós usamos no Brasil, onde desenhos são exibidos todo dia de semana de modo que o pacote esperado era de pelo menos 65. A lógica era simples: cinco episódios por semana durante treze semanas, um trimestre inteiro de programação antes de começar a rodar tudo de novo. No Japão, onde Macross ia ao ar semanalmente, 36 episódios davam mais de oito meses de televisão.
Naturalmente, uma solução seria encomendar outros 29 episódios... só tinha um pequeno probleminha nessa ideia: produzir animação custa dinheiro e nós gostamos de RECEBER dinheiro, não de GASTAR dinheiro. Então Carl Macek olhou para o catálogo de animações japonesas que a Harmony Gold tinha à disposição e encontrou duas outras séries com naves, guerra, robôs transformáveis e estética suficientemente parecida para o crime passar batido a olho nu: Super Dimension Cavalry Southern Cross e Genesis Climber MOSPEADA.
Nenhuma delas tinha relação narrativa alguma com Macross.
Mas detalhes.
Macross tinha 36 episódios.
Southern Cross, 23.
Mospeada, 25.
Joga mais um episódio de recapitulação exclusivamente ocidental chamado “Dana's Story”, usando pedaços de Macross e Southern Cross para explicar que personagens das duas séries tinham relações familiares que naturalmente jamais existiram nos originais e BADABAM, 85 episódios.
Agora temos Robotech.
Problema resolvido.
[AH, ENTENDI. É POR ISSO QUE OTAKUS ODEIAM ROBOTECH COM A FÚRIA INCANDESCENTE DE MIL SÓIS! ELE VIOLENTOU A PUREZA SAGRADA DOS ANIMES!]
Bom, isso certamente incomoda algumas pessoas e eu totalmente entendo pq vc me toma por alguem que se incomodaria com tal coisa. Mas honestamente, não é algo que me aborrece muito não. Eu consigo perfeitamente conviver com a ideia de que daqui a algumas décadas aparece outro grupo de personagens e alguém diz: “Ah, sim, há uns cem anos teve aquela parada com a Minmay e os gigantes virgens. Enfim, temos problemas maiores agora” e segue a história.
Pronto.
É uma desculpa meia-boca? É.
Funciona? O suficiente.
[VOCÊ LITERALMENTE USOU AS PALAVRAS “MASSACRE” E “TRÁGICA HISTÓRIA”. ESSA É UMA DEFINIÇÃO BASTANTE CRIATIVA DE “EU CONSIGO CONVIVER”.]
Porque não É ISSO que me incomoda em Robotech.
O problema não é terem unido três animes.
O problema é COMO eles fizeram isso.
Volte para tudo aquilo que eu escrevi sobre Macross: uma raça de soldados cuja sociedade começa a desmoronar quando eles descobrem que existe vida além da guerra. O primeiro contato com música, romance, lazer e sentimentos funcionando como uma infecção porque agora alguém teve a ideia perigosíssima de perguntar: “Espera... eu NÃO preciso passar minha existência inteira tomando tiro?” Um protagonista confuso sobre quem ama porque o relacionamento idealizado da adolescência está entrando em choque com a pessoa que ele está se tornando. Uma guerra cujo ponto de virada não é um canhão maior, mas uma canção.
Agora pense no tipo de desenho americano que disputava televisão infantil em 1985.
He-Man.
G.I. Joe.
Transformers.
Não estou dizendo que os animes dos anos 80 eram progressistas ou discutiam temas de forma sensível, mas podiam muito bem ser Parasite perto do que normalmente passava numa faixa infantil americana.
Personagens morriam em Macross.
Relacionamentos fracassavam.
Adultos bebiam.
Roy Focker literalmente passa sua última tarde tentando agir normalmente enquanto sangra até morrer para não preocupar Claudia. É difícil imaginar o He-Man fazendo isso antes de olhar para a câmera e explicar que crianças não devem esconder hemorragias internas de adultos responsáveis.
Verdade que Robotech ainda foi uma das primeiras séries que mostrou às crianças americanas que animação podia ter continuidade, mortes e relacionamentos muito além da média do cartoon padrão porque porque, mesmo depois de tudo que Harmony Gold fez a animação ainda era Macross e vc só pode editar até dado ponto sem ter mais trabalho do que fazer uma coisa inteiramente nova vc mesmo.
Então não é que Harmony Gold simplesmente apagou tudo isso e transformou Macross em G.I. Joe com avião... embora eles certamente tentaram.
Diálogos foram reescritos ao estilo dos cartoons dos anos 80.
Motivações foram simplificadas para ser algo que o Comandante Cobra poderia dizer.
E especialmente pensamentos são adicionados pq os silêncios recebem narração porque aparentemente deixar o espectador cinco segundos sem alguém explicando aquilo que ele está vendo constituía um crime contra ética televisiva.
Ah, e Hikaru Ichijyo agora se chama...
RICK HUNTER.
Claro que se chama Rick Hunter.
Isso não é nome de pessoa, isso é o nome que uma criança de nove anos dá para o protagonista quando começa a escrever seu primeiro roteiro: “Ele se chama RICK porque é americano e HUNTER porque ele CAÇA.”
E antes fosse a americanização parar no nome, pq as ações continuam as mesmas porque, afinal, eles não podiam redesenhar as expressões do personagem, mas o novo diálogo empurra Hikaru para um Rick muito mais falante, mais assertivo, mais explicitamente heroico e com aquele tempero típico do protagonista americano dos anos 80.
Eu genuinamente fico surpreso que em algum momento ele não diga: “Ei, docinho, uma coisinha bonita como você não precisa esquentar essa cabecinha com assuntos de homem! Haha!”. E embora talvez ele nunca tenha dito exatamente isso, a energia é exatamente essa.
Outra personagem que é esbucherada pela adaptação é a Hayase, pq uma das coisas que eu mais gosto no desenvolvimento entre Hikaru e Misa em Macross é justamente como demora. Eles trabalham juntos, eles brigam, eles começam a se respeitar, eles viraram amigos antes mesmo de Hikaru perceber que existe alguma coisa acontecendo ali. Robotech não tem tempo pra essas frescuras de, argh, desenvolvimento, se ela vai ser a mulher do Rick então ela vai ser a mulher do Rick e fim de papo, não tem isso de "é complicado" não. Ou seja, aquele processo meio desajeitado, mas interessante, de Hikaru crescer para fora da fantasia adolescente com Minmay vira uma coisa muito mais explicita que esse é o Rick e aquela vai ser a garota do Rick, because America Fuck Yeah!
E então chegamos à minha parte favorita: “Protoculture”.
Porque lembre do ponto central de Macross: os Zentradi têm medo de CULTURA.
Eles foram construídos para a guerra. Expor esses soldados a uma sociedade civil faz eles começarem a questionar toda a razão da própria existência e isso é uma ideia absurdamente simples e maravilhosa. Robotech olha para isso e pensa:
“Puta merda, mas que frescura, heim? Tá, corta essa palhaçada, Protoculture é... hã... uma fonte de energia muito foda que faz vc ficar muito foda e poder e pew pew pew pew”
Não estou inventando isso.
Em Robotech, Protoculture é literalmente uma fonte de bioenergia.
A gasolina premium do espaço.
Toda questão sobre determinismo social, duvida e sei lá mais o que virou FONTE DE ENERGIA, novamente BECAUSE AMERICA FUCK YEAH!
E esse é meu problema com Robotech: Macross podia ser ridículo. Quer dizer, eu passei metade dessa review elogiando um porta-aviões espacial que vira braço para SOCAR outra nave. Mas ele era ridículo com sinceridade. Suas ideias bobas tinham alguma coisa a dizer. Robotech pega essas ideias e morre de vergonha de ser visto como "coisa de frutinha uiuiui" e reorganiza tudo pra parecer machão e fodão.
Harmony Gold essencialmente inventou sem querer a abridged parody.
Porque, novamente, eu nem sou o maior defensor de Macross que já viveu, eu acabei de passar uma quantidade obscena de palavras explicando que a produção é uma bagunça, o romance é truncado e os últimos nove episódios parecem alguém tentando tirar pasta de dente de um tubo já vazio porque o patrocinador pagou por isso.
Mas isso...
ESSA COISA...
me incomoda.
E acredite em mim: considerando a quantidade de lixo que eu consumo regularmente para manter este blog funcionando, entrar debaixo da minha pele exige esforço. Um homem que jogou Criticom desenvolve anticorpos contra experiências capazes de destruir mentes menores.
Robotech conseguiu.
Parabéns pela conquista.
[MAS COMO O STUDIO NUE DEIXOU FAZER ISSO? EU ACHEI QUE ELES SE IMPORTAVAM PROFUNDAMENTE COM MACROSS PARA PERMITIR UMA COISA DESSAS.]
Ah. Lembra de quando eu disse lá atrás para guardar o acordo com a Tatsunoko porque ele seria importante depois? Bem-vindo ao “depois”. Quando o Studio Nue e a Big West precisaram da Tatsunoko para conseguir colocar Macross de pé, parte daquele acordo envolveu direitos de distribuição e merchandising internacionais da série.
E eis uma coisa maravilhosa sobre contratos: eles continuam existindo depois que você assina.
A Tatsunoko licenciou esses direitos internacionais de Macross para a Harmony Gold.
O Studio Nue não precisava gostar.
Não precisava aprovar a adaptação.
Não precisava concordar com Rick Hunter.
Não precisava olhar para “Protoculture é combustível” e dizer: “Sim, excelente interpretação da nossa visão.”
Para os efeitos que importavam naquele momento, a Tatsunoko tinha direitos suficientes para fazer aquele negócio.
E foi isso.
O destino desses direitos depois disso se tornaria uma confusão jurídica tão absolutamente colossal que explicar quem possuía exatamente qual pedaço de Macross em qual país e durante qual década exigiria uma review separada ao ponto que só em 2021 Big West e Harmony Gold finalmente anunciaram um acordo encerrando aproximadamente VINTE ANOS de disputas diretas e abrindo caminho para que a maior parte de Macross pudesse finalmente ser distribuída internacionalmente sem alguém imediatamente sacar um advogado do bolso.
Mas se você quiser entender todos os detalhes dessa disputa... pergunte para outra pessoa.
De preferencia alguém menos comprometido com a ideia de jogar Carl Macek dentro do sistema Fold e descobrir onde ele aparece.
Eu tenho padrões muito, muito baixos.
Novamente: um homem que jogou CRITICOM consegue suportar horrores que quebrariam homens menores. Mas até eu tenho limites. E Robotech pegou esses limites, passou direto tão por baixo deles que continuou descendo até encontrar a Fossa das Marianas.
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