Em 1997, MIB: Homens de Preto se tornou um dos maiores sucessos da década e com toda a razão. Era tudo o que uma comédia de ação raiz dos anos 90 deveria ser: engraçada, surpreendentemente inteligente, repleta de frases de efeito memoráveis, e estrelada pelo tipo de dupla carismática que os executivos de Hollywood passaram as últimas três décadas tentando recriar em laboratório.
Naturalmente, um sucesso dessa magnitude desencadeou o Tsunami de Merchandising™ definitivo dos anos 90: action figures, uma série animada de TV, vendas de óculos Ray-Ban explodindo, videogames (MIB: MEN IN BLACK - The Game), cereais licenciados e quadrinhos. Tá, eu sei que MIB tecnicamente JÁ era baseado em um quadrinho, mas me diga na minha cara que alguém fora dos nerds de quadrinhos hiper-nichados se importava com aquelas páginas antes do Will Smith vestir o terno. Hollywood pegou um quadrinho indie obscuro e deprimente, deu um tratamento MASKARA jogando um brilho de sci-fi PG-13 por cima, e imprimiu dinheiro pra caralho.
E sendo um fenômeno cultural — e, mais importante, comercial — tão massivo, uma sequência não era uma questão de "se". Era uma questão de "quando".
... o que, infelizmente, foi todo processo criativo que essa sequencia teve.
Sério, o pitch meeting de Homens de Preto 2 foi essencialmente algum executivo dizer numa reunião: "As pessoas gostaram daquele filme, né? Bem... façam aquilo de novo. Reunião encerrada". Então aquilo de novo foi feito, simples assim.
Agora, não me entendam errado: eu não sou contra filmes serem feitos porque dão dinheiro. Os estúdios gostam de lucrar, as pessoas gostam de ser pagas, e o Will Smith gosta de comprar outra ilha para o jovem Jaden. Tudo perfeitamente belezinha, mas... bem, tem que ter algo mais, né? Uma ideia nova. Uma história que valesse a pena ser contada. Um personagem engraçado que alguém mal podia esperar para colocar na tela. Uma sequência de ação interessante. Uma exploração daquele cenário. Qualquer coisa que te faça pensar que esse filme foi feito pq alguém sentiu que essa sequência precisava existir além de "Não me importo, embolsa o cheque, tô fora."
...Não?
Pois é, MIB II existe simplesmente porque tinha que haver uma sequência. Ponto final. E como você faz a sequela mais sequelosa que jamais sequelou? Você marca caixinhas em uma planilha corporativa:
- "As crianças gostaram dos alívios cômicos!" → Dê ao Frank o Pug e aos Vermes 500% mais tempo de tela!
- "As pessoas gostaram das palhaçadas com alienígenas em CGI!" → Jogue aleatoriedades alienígenas sem motivo nenhum para o enredo!
- "Tommy Lee Jones está de volta!" → Apague todo o seu arco emocional do primeiro filme sobre se reunir com a esposa com uma única linha de diálogo bem merda!
- "Linda Fiorentino saiu!" → Escreva a Agente L fora do filme com uma única linha de dialogo mais merda ainda... embora tenhamos ganhado a Rosario Dawson no lugar. E eu serei um cadáver gelado e duro antes de chamar a Ahsoka de um downgrade. Ei, até um relógio quebrado acerta duas vezes por dia.
- "Precisamos de um vilão!" → No lugar da performance brilhante do Edgar-inseto de Vincent D'Onofrio, temos a Lara Flynn Boyle de modelo de lingerie com roupa de couro. Olha, eu lembro de achar essa escolha apelativa e gratuita já em 2002, quando eu tinha 16 anos... então você pode imaginar o quão barata e desesperada ela parece para mim agora em 2026.
Vê, esse é o meu maior problema com esta sequência: quase tudo acontece porque... bem... porque sim.
O filme mal parece interessado em si mesmo: o próprio personagem do Johnny Knoxville literalmente desaparece antes mesmo do terceiro ato começar. Não é que ele morre ou acontece alguma coisa com ele, ele simplesmente para de estar no filme, como se alguém tivesse percebido só no meio da edição que esqueceram de escrever um final para ele e decidiram apenas: "Eh, tá bom assim."
Na página da crítica do Roger Ebert, tem um comentário que descreve o filme como "sem alma, ganancioso, corporativo e preguiçoso". Eu não iria tão longe a ponto de dizer... não, na verdade eu iria. Este filme É sem alma, ganancioso, corporativo e uma sequência preguiçosa. É exatamente isso que ele é.
Mas tá.
Isso então significa que MIB II é uma experiência 100% miserável com zero qualidades redentoras?
Hmm, nem tanto. Tem algumas ideias engraçadas e pontuais espalhadas aqui e acolá, mesmo que sejam mais piadas isoladas do que algo que se construa para um todo satisfatório.
A cena do armário ainda é fantástica, e o K desencadeando o apocalipse de uma civilização alienígena miniatura cutucando ela é o tipo de piada que parece ter vindo de um episódio de Rick and Morty anos antes desse desenho existir. Ou então o cameo do próprio diretor Barry Sonnenfeld, na cena da família e o depósito de armas do K, e algumas das piadas de fundo com alienígenas capturam exatamente o charme bizarro que fez o filme original funcionar.
As atuações também são muito boas: Tommy Lee Jones parece tão visivelmente exausto e de saco cheio de estar em um projeto tão sem propósito que isso funciona perfeitamente para a persona perpetuamente de saco cheio do Agente K. Se isso é atuação de metodo depois de ler o roteiro, deixo para a história decidir.
Will Smith é excelente durante a primeira metade também. Sua versão do J como o agente veterano é uma evolução interessante: um pouco mais calejado, mais cínico, claramente exausto por anos lidando com essa tolice alienígena, mas ainda inconfundivelmente ele mesmo. Então, em algum lugar no meio do filme, o roteiro o força a regredir para um bobalhão na segunda metade só para montar um pastelão básico.
Patrick Warburton é outra surpresa agradável. Sua entrega gloriosamente exagerada tem uma forte energia Bruce Campbell, e toda cena em que ele está é mais engraçada do que teria o direito de ser. Sua performance curta de herói canastrão de filme-B faz o ato de abertura funcionar e sinceramente, deixá-lo de lado tão cedo só para dar mais tempo de tela para um pug falante parece um desperdício de talento cômico... mas então, suponho que as pelucias do pug de terno não iam se vender sozinhos, né?
Então sim, Homens de Preto 2 tem momentos divertidos o suficiente para torná-lo assistível — especialmente na dublagem brasileira, onde a atuação fenomenal do saudoso José Luiz Barbeito consegue tornar até as cenas do Frank o Pug divertidas.
Mas é o que eu disse, fora de momentos aqui e acolá, este filme é basicamente o que os filmes de paródia costumavam usar como piada sempre que precisavam de uma falsa "sequência de Hollywood sem alma". A única diferença é que este aqui não era uma piada.
E quando você coloca o filme assim, dá para argumentar que o jogo tie-in de PS2/GameCube é uma das adaptações cinematográficas mais fiéis já feitas pq é um produto oportunista feito com exatamente a mesma quantidade de alma: nenhuma. Um jogo que existe exclusivamente porque alguém do marketing olhou para o calendário, notou que um filme estava saindo, e gritou: "Cadê o jogo licenciado?!"
Não é terrível, diga-se. Há lampejos de competência aqui e ali. Algumas partes são até razoavelmente bem feitas.
É só... vazio.
O que, como eu disse, o torna absurdamente fiel ao material de origem.
Já na história dá pra ver que os desenvolvedores não pareciam particularmente interessados em se esforçar muito: o jogo é teoricamente uma prequela do filme — ele até mostra como o J prendeu Jarrah, outro personagem que é um potencial desperdiçado do filme. Mas então o K já está de volta junto com o J... apesar de toda a premissa de Homens de Preto 2 ser que o K havia se aposentado e esquecido tudo sobre a agência.
Então... onde exatamente isso se encaixa cronologicamente?
Bem, pelo menos essa é fácil de responder: esse jogo acontece no exato momento em que absolutamente ninguém estava se importando a mínima, é aí que ele se passa.
Os personagens também não ajudam: nem o J nem o K se parecem ou soam remotamente como seus equivalentes nos filmes. O J já é genérico o suficiente, mas o K está em outro nível completamente. Ele se parece menos com o Tommy Lee Jones e mais com um imitador de Elvis Presley que acidentalmente entrou no set de filme errado e decidiu tocar o barco. Agora, eu entendo que licenciar a semelhança dos atores não é barato e vários jogos de filmes tinham que contornar isso. Mas qual é... eles não podiam pelo menos ter se esforçado um pouquinho mais?
Não, eles não podiam.
Em honra ao verdadeiro espírito de Homens de Preto 2, absolutamente nenhum esforço será empreendido nesse jogo.
Falando sobre o jogo em si, depois de uma tela de carregamento incrivelmente longa — o que parece especialmente absurdo considerando que as fases são bem pequenas e na maioria vazias — você tem uma cutscene curta antes que o jogo abra te jogando em um tiroteio... porque nada diz que vc vai se divertir mais do que inimigos atirando em você antes mesmo de você descobrir o que os botões fazem, né?
Não que eles façam lá muita coisa realmente, a jogabilidade é essencialmente um jogo de tiro estilo arcade old-school traduzido para o 3D: você entra em salas, atira em qualquer coisa que se mexa, algumas que não se mexem, pega upgrades de arma, repete até os créditos rolarem. É isso.
Sério, o que você vê no GIF abaixo é praticamente o jogo inteiro. As únicas diferenças mais tarde são que suas armas disparam projéteis de cores diferentes e os alienígenas vêm em formatos ligeiramente diferentes. Se for atingido, você perde vida, junto com o upgrade atual da sua arma — que você tem alguns segundos para recuperar antes que ele desapareça. Atire em tudo antes que atire em você, dê uma olhada no radar em caso de dúvida (que é surpreendentemente útil, tenho que dar isso a eles), e parabéns: você dominou Homens de Preto II: Escapada Alien.
E se parece que estou simplificando demais a jogabilidade, saiba que eu não estou.
Este é realmente o jogo inteiro.
Eu até o compararia a uma versão 3D de SMASH TV, exceto que o jogo de 1990 tinha armas mais loucas, melhor variedade de inimigos, chefes memoráveis e personalidade suficiente para encher um armazém inteiro. Este jogo tem... lasers azuis.
Para ser justo, ele tem lasers azuis muito bonitos.
Quer dizer, os gráficos são passaveis para um título licenciado de baixo orçamento e a quantidade pura de efeitos de iluminação, rajadas de laser, explosões e efeitos de partículas voando pela tela sem o videogame engasgar é tecnicamente impressionante. Os cenários apresentam texturas decentes, objetos destrutíveis como painéis de vidro e barris explosivos, e layouts de fase funcionais o suficiente para mantê-lo avançando sem se perder.
Então o problema aqui não é muito que os desenvolvedores falharam no que estavam tentando fazer, isso eles fazem ok. É mais que eles não estavam tentando fazer muita coisa em primeiro lugar e toda a experiência parece projetada em torno de atender aos requisitos mínimos para um jogo tie-in: ele funciona. Tem uma aparência ok. Os controles funcionam. E é basicamente onde a ambição termina.
Some a isso um punhado de decisões de design bizarras — como ainda usar um sistema de vidas em 2002, o que leva a possibilidade de travar o jogo ao salvar em situações infelizes, ou trancar o modo de treinamento atrás de pontos que vc ganha já entendendo como jogar o jogo — e você tem algo que é tecnicamente competente enquanto grita "SHOVELWARE, CACETA!" a plenos pulmões.
Então, caso você não tenha pego a ideia da coisa até aqui, saiba que eu não fiquei particularmente impressionado com este jogo... assim como não fiquei particularmente impressionado com o filme que o inspirou.
O que é relamente uma pena, pq o universo de MIB: Homens de Preto está praticamente implorando por videogames. Agências secretas, espécies alienígenas bizarras, gadgets ridículos, conspirações intergalácticas, locais exóticos, armas estranhas — você poderia fazer shooters, jogos de furtividade, jogos de aventura, simuladores imersivos, até um RPG se realmente quisesse. As possibilidades são infinitas.
O primeiro MIB: MEN IN BLACK - The Game pode ter sido desajeitado, estranho e em vezes no limite do quebrado, mas pelo menos tinha ambição. Dava para perceber que alguém, em algum lugar, estava tentando alguma coisa.
Este aqui não consegue nem se dar ao trabalho de fingir.
EDIÇÃO 092 (Junho de 2002)





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