Aqui estamos, em meados de 2002, e se alguém anuncia um título novo para o PS1, você pode esperar uma de duas coisas: jogos licenciados de baixa qualidade para crianças pequenas... ou jogos não licenciados de baixa qualidade para crianças pequenas. O PlayStation certamente não caiu atirando em uma explosão de glória, isso eu posso te dizer. A essa altura, o PS2 já havia roubado os holofotes, as publishers estavam despejando qualquer coisa que fosse barata no último sobrevivente da quinta geração e os balaios de jogos em liquidação estavam se enchendo mais rápido do que as multas por não rebobinar a fita da locadora.
Mas de vez em quando, quando as estrelas estão certas, alguma coisa escapa da quarentena que é tão inacreditavelmente estranho que levanta mais perguntas do que respostas. Hoje é um desses dias.
Porque, sério... por que Klonoa ganhou um jogo de vôlei de praia?
Quer dizer, eu entendo a parte do vôlei de praia. É colorido, alegre, fácil de entender e relativamente barato de fazer. Isso FAZ sentido, o que não faz é... por que Klonoa, de todas as franquias?
Pense nisso racionalmente. A Namco podia ter feito um jogo de volei de praia do... huh... eles tinham o Pac-Man, eu acho, mas então duvido que qualquer criança em 2002 se importasse com essa coisa ainda. Mas então eles podiam ter feito um jogo estrelando, deixa eu ver... os carros do Ridge Racer? Bem, enquanto honestamente eu pagaria um bom dinheiro para ver carros jogando vôlei, provavelmente seria mais trabalho do que eles estavam disposto a ter. Mesmo se aplica a Ace Combat. Mas hey, eles tinham Tekken, onde você poderia ter feito um jogo de vôlei com tema de luta apresentando todo mundo de biquini, o que, convenhamos, teria vendido alguns milhões de cópias no Japão só pela premissa... mas então a possibilidade de um jogo de volei de praia com personagens de luta da Namco provavelmente envolveria o Voldo de Sunga branca. Melhor não.
Em vez disso, alguém entrou na sala de reunião, deu um soco na mesa e declarou: "Não, o jogo de vôlei será do viajante dos sonhos de orelhas balangantes". Até hoje eles não tem certeza se essa pessoa realmente trabalhava lá.
Mas então, tem que Klonoa é provavelmente o mascote mais mascotante que jamais mascotou. Olhe essas orelhas moles ridiculamente grandes, aqueles olhos enormes, o chapéuzinho, sua coleira de cachorro em um rosto parecido com um gato...
...o que, nos traz de volta a uma pergunta que este blog já fez duas vezes antes, e ainda assim permanece sem resposta:
O.
QUE.
DIABOS.
É.
KLONOA?
Sério. Ele é um coelho? Um gato? Um coato? Um gatoelho? Algum tipo de chinchila mágica que saiu de um sonho... o que meio que é o caso de acordo com a lore dos jogos. Mas enfim, Klonoa simplesmente pertence àquele clube exclusivo de mistérios que a humanidade provavelmente jamais terá uma resposta tipo como a anestesia geral realmente funciona (sério, pesquise sobre isso — muito da nossa medicina moderna é baseada em "a gente sabe que isso funciona... por alguma razão") ou se a maionese é, de fato, um instrumento musical. Algumas perguntas estão simplesmente além da compreensão mortal.
Então, recapitulando, Klonoa é... uma coisa... que estrelou em alguns jogos de plataforma de sucesso comercial moderado, o que é uma pena porque tanto KLONOA: Door to Phantomile quanto KLONOA 2: Lunatea's Veil estão entre os melhores jogos de plataforma já feitos. Eles são charmosos, mecanicamente brilhantes e mereciam muito mais atenção do que tiveram. Fora dos jogos, a franquia recebeu principalmente o tratamento esperado para mascotes: pelúcias — é claro que tem pelúcias — um mangá, algumas participações especiais...
...e agora um jogo de vôlei de praia. Por alguma razão.
Parabéns, Klonoa. Você é oficialmente um atleta olímpico agora.
Então, depois de passar anos ouvindo as pessoas dizerem "VOCÊ NÃO É O CRASH BANDICOOT", enquanto estrelava jogos genuinamente fantásticos, Klonoa decide tirar umas merecidas férias com seus amigos... e inimigos, porque aparentemente todo mundo se dá bem depois que bate o ponto. Essa é basicamente toda a justificativa para este spin-off. Todo o elenco simplesmente vai para a praia porque... por que não?
Tá, vá lá, esse jogo TEM uma história. Não que um jogo de esporte precise de uma, mas este tem mesmo assim. O que rola aqui é que o torneio é organizado pelo vilão Guntz e seu não-tão-capanga Garlen, que estão secretamente usando a competição como uma cortina para os esquemas de Nahatomb — uma bolha gigante rosa e roxa cuja espécie, gênero e razão geral de existir permanecem mais inexplicaveis do que a raça do Klonoa. Naturalmente, isso culmina em uma batalha contra o chefe final, Nahatomb e o Super Garlen — que é exatamente o que parece: Garlen, só que super.
Você vence, coleta o dinheiro do prêmio, salva o dia, e todos vão para casa felizes.
É uma narrativa tão emocionalmente profunda que tenho certeza de que Fiódor Dostoiévski teria largado Os Irmãos Karamázov, derramado uma única lágrima e sussurrado: "Obra-prima da ficção."
Mas falando do jogo em si, hey, pelo menos o vôlei de praia é um setup que faz sentido para o público do final do PS1. As regras são simples o suficiente para que qualquer um as entenda em minutos, as partidas são curtas, e há muito espaço para bobagens exageradas no estilo anime — que é exatamente o que este jogo entrega.
O que vc precisa saber sobre o jogo não poderia ser mais simples: escolha dois personagens, escolha seus oponentes e entre direto em uma partida. Essa é basicamente toda a premissa. Se você nunca assistiu a uma partida de vôlei na vida, não se preocupe — o tutorial faz um trabalho respeitável explicando tudo. Três toques alternados por equipe, mande a bola de volta sobre a rede antes do terceiro toque, não deixe ela tocar o chão do seu lado, marque pontos, repita.
... isso e os ataques especiais, claro.
Agora, a menos que as Olimpíadas tenham mudado drasticamente desde a última vez que eu chequei, o vôlei de praia da vida real geralmente não envolve lançar bolas de fogo ou executar superataques de anime. Embora, para ser justo, a última partida de vôlei de praia que eu assisti foi com Tom Cruise e Val Kilmer em Top Gun, então meu entendimento do esporte pode estar um pouco desatualizado. De qualquer forma, Klonoa e sua coleção de formas de vida igualmente não identificáveis têm técnicas super extravagantes, porque se você está fazendo um jogo de esportes com mascotes é claro que eles tem.
Falando em formas de vida não identifiicaveis, minha única reclamação importante com este jogo é, de fato, a seleção de personagens e digo isso como alguém que jogou os dois jogos de plataforma do Klonoa. Eu olhei para este elenco e, nas palavras imortais do grande filósofo da nossa era, Jerry Seinfeld:
QUEM SÃO ESSAS PESSOAS?
O problema é que o universo de Klonoa simplesmente não é tão grande assim. Isso não é uma crítica à série em si — ela nunca precisou de dezenas de personagens recorrentes — mas se torna um problema no momento em que você decide fazer um spin-off esportivo com mascotes. Mario pode colocar cinquenta rostos aleatórios em um jogo de tênis sem suar. Sonic pode juntar esquisitos o suficiente para um jogo de corrida. Klonoa... bem... Klonoa tem o Klonoa.
O elenco inicial consiste em oito personagens jogáveis. O próprio Klonoa está obviamente aqui, enquanto Lolo e Popka serão familiares para quem jogou KLONOA 2: Lunatea's Veil. Joka retorna do primeiro jogo, junto com Tat e Leorina da sequência. Todos esses fazem perfeito sentido para as 4 pessoas que jogaram esses jogos.
Então eles perceberam que estavam ficando sem nomes no quadro branco e adicionaram Heart Moo...
...O REI DE TODOS OS MOOS.
Sabe, o inimigo vermelho em forma de bola que passa a maior parte dos jogos de plataforma pulando por aí esperando você jogá-lo em algo.
É.
A Namco realmente raspou o fundo do tacho aqui.
E para completar, tem Chipple, um canguru boxeador dos jogos para Game Boy Advance. Não me interpretem mal — eu até gosto do Chipple — mas a inclusão dele parece menos um fan service e mais alguém folheando desesperadamente a wiki da franquia em busca de alguém pra fechar a tela de seleção de personagens.
Isso acaba servindo como um lembrete constante de que talvez... só talvez... Klonoa não fosse exatamente a franquia para sustentar spin-offs. Por outro lado, provavelmente eu não deveria pegar tão pesado já que SONIC THE FIGHTERS de alguma forma encheu um elenco inteiro de jogo de luta com, o quê, quatro personagens estabelecidos do Sonic? O resto era basicamente "Fang, Bean, Bark, Aquele Cara, O Outro Cara, Você não era o Besouro Verde?". Tá, podia ser pior.
Não que SONIC THE FIGHTERS seja exatamente o padrão ouro dos spin-offs com mascotes, mas divago.
Preocupações com o elenco à parte, o jogo em si é um exemplo surpreendentemente bom de como fazer um título de esporte arcade acessível. Os controles são responsivos. Quando você pressiona uma direção, os personagens vão exatamente para onde você espera. Não há aceleração lenta, nem deslizamento estranho na areia, nem luta contra os controles. Eles param quando você para, pulam quando você pula, mergulham quando você manda. Parece imediato no melhor sentido arcade.
Como resultado, quando você perde um ponto, é quase sempre sua própria culpa.
...
Bem.
Ou sua própria culpa...
...ou seu parceiro controlado pela IA decidindo que agora seria o momento perfeito para admirar a paisagem em vez de acertar a bola. Não que eu o julgue, é de fato uma praia muito bonita dentro das limitações do PS1.
Seja como for, felizmente o jogo tem uma solução para isso: você pode controlar ambos os companheiros de equipe você mesmo. Tecnicamente isso é uma opção. Talvez não a melhor opção pq é mais dificil do que parece focar em dois personagens ao mesmo tempo, mas ei, a opção existe.
Uma mecânica que eu achei bem interessante, no entanto, é a grade de pontuação exibida no canto da tela. Tá vendo esses quadradinhos?
Eles são muito mais importantes do que parecem inicialmente: toda vez que você marca um ponto colocando a bola em uma seção específica da quadra do oponente, o quadrado correspondente acende na sua grade. Conecte quadrados suficientes para formar linhas e você começa a ganhar pontos bônus. Complete mais linhas e as recompensas continuam aumentando. Preencha o tabuleiro inteiro e de repente você ganhou enormes nove pontos bônus de uma só vez.
O que significa que este jogo se tornou o que acredito ser o primeiro — e possivelmente único — crossover entre vôlei de praia e bingo.
Eu nunca imaginei que escreveria essa frase.
No entanto, aqui estamos.
Mais importante, adiciona uma camada de estratégia inteligente: em vez de simplesmente mirar no canto que for mais fácil, você está sempre pensando à frente. "Eu já marquei ali... talvez eu deva mirar no lado oposto desta vez" enquanto seu oponente pode ver quais partes da quadra você está tentando completar, então eles começam a defender essas áreas mais agressivamente. Isso, por sua vez, abre o resto da quadra para arremessos mais fáceis. De repente, você está blefando, fingindo cortadas e montando ataques só para completar uma linha de bingo.
É uma mecânica simples que torna cada rally um pouco mais interessante do que o vôlei padrão... que eu não acho o esporte mais emocionante do mundo em videogames, né.
E é exatamente isso que separa Klonoa Beach Volleyball do resto da biblioteca de vôlei do PS1 pq existem alguns jogos de vôlei de praia na pequena caixa cinza da Sony, e a maioria deles queria ser uma simulação enquanto também tentava se vender como edgy e fan service em trajes de banho. O problema é que simulações esportivas exigem investimento sério e enquanto faz sentido investir dinheiro em um jogo de futebol como Winning Eleven ou em um jogo de futebol americano como Madden... Vôlei de praia? As publishers não estavam exatamente atirando orçamentos de blockbuster nesse gênero.
Então esses jogos muitas vezes acabavam sendo simulações medíocres com controles estranhos e a Namco sabiamente foi na direção completamente oposta pq em vez de fingir simular o vôlei profissional, eles abraçaram o fato de que estavam fazendo um jogo de mascotes cartoon. Tudo é colorido, exagerado e imediatamente acessível. Os movimentos especiais são ridículos, os visuais são charmosos e as mecânicas priorizam a diversão em vez do realismo.
No fim das contas, Klonoa Beach Volleyball é bem-sucedido porque nunca tenta ser o que não é. É um jogo de esporte arcade leve que entende exatamente que tipo de experiência quer entregar, e o faz com uma jogabilidade notavelmente polida.
Então ignore o fato de que a ciência ainda não determinou exatamente a que espécie pertence o coelho-gato-coelhogato-seja-lá-o-que-for-da-caixa, abrace o absurdo e aproveite um dos jogos mais legaizinhos que vc encontrará no PS1 em 2002... não que a barra para isso esteja muito acima da Fossa das Marianas, né?
E claro, o jogo fica exponencialmente mais divertido jogando com amigos.
Não que você tenha algum se está lendo uma resenha de 2500 palavras sobre um spin-off de vôlei do Klonoa de 24 anos atrás.
Até pq Klonoa é o Viajante dos Sonhos, não o Fazedor de Milagres.
MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 092 (Junho de 2002)
MATÉRIA NA EGM BRASIL
EDIÇÃO 003 (Junho de 2002)





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