Os filmes de Guerra nas Estrelas tinham, até o ano de 2002, apresentado uma quantidade bastante limitada de estrelas e menos ainda de guerras. Bem, isso estava prestes a mudar.
Depois de um filme inteiro dividido entre coisas com as quais absolutamente ninguém se importava — tratados comerciais espaciais, procedimentos senatoriais, Jar Jar respirando — e fanservice constrangedor enfiado à força na história com a sutileza de um Wookiee entrando numa loja de porcelana — Darth Vader construiu C-3PO quando tinha nove anos porque é claro que construiu — George Lucas estava pronto para dar ao público aquilo que ele realmente queria.
Ah, não, não, senhor! Desta vez finalmente conheceríamos em detalhes as lendárias Guerras Clônicas, mencionadas pela primeira vez no Star Wars original vinte e cinco anos antes só porque George Lucas achou que “Guerras Clônicas” soava bacana e suficientemente sci-fi. O que, sejamos honestos, realmente soa. Parece o nome de uma coisa muito maneira envolvendo exércitos, ambiguidade moral e talvez duas ou três estrelas efetivamente indo à guerra. Considere minha atenção conquistada.
Também descobriríamos como o irritante, mas fundamentalmente esperançoso, pequeno Anakin Skywalker se tornou o vilão mais icônico da história do cinema. Como aquele adorável tampinha das corridas de podracer cresceu para estrangular funcionários durante reuniões e viver dentro de um respirador artificial ambulante?
Finalmente era hora de respostas.
Então vamos lá: Star Wars: Episódio II — Ataque dos Clones.
Ao longo da trilogia original, descobrimos que Darth Vader havia sido o Cavaleiro Jedi Anakin Skywalker e era, de fato, o pai de Luke. Oh, noes! Alerta de spoiler: caso você tenha conseguido evitar essa informação durante as últimas quatro décadas, provavelmente deveria parar de ler reviews do segundo filme da trilogia prequel. Além disso, parabéns por ter evitado a civilização ocidental por tanto tempo.
Mas quem exatamente foi Anakin Skywalker? Quem era a misteriosa uva-passa encapuzada diante da qual Darth Fucking Vader se curvava? Como a República Galáctica se transformou no maligno Império? Por que os Jedi desapareceram? Quem encomendou todos aqueles uniformes brancos idênticos? O Império tinha um departamento de compras ou Palpatine simplesmente conhecia um cara?
Para responder a essas e muitas outras perguntas, precisamos viajar de volta para o futuro de 2002. De Volta para o Futuro — taí um bom nome, espero que alguém faça um filme legal com ele uma hora dessas.
Enfim, três anos antes, George Lucas havia ressuscitado a franquia com STAR WARS: Episódio I – A Ameaça Fantasma, o primeiro filme novo de Star Wars em dezesseis anos. As expectativas não estavam apenas altas: elas haviam deixado a atmosfera e estabelecido uma colônia permanente em Júpiter.
E, financeiramente, o filme foi exatamente o enorme sucesso que todo mundo sabia que seria. As pessoas não esperaram dezesseis anos por um novo Star Wars para então decidirem ficar em casa porque alguém na internet não gostava do Jar Jar. STAR WARS: Episódio I – A Ameaça Fantasma arrecadou dinheiro suficiente para comprar vários planetas de médio porte.
Criticamente, contudo, as coisas foram um pouquinho mais complicadas.
Na cabeça de George Lucas, ele tinha feito um filme de Star Wars perfeitamente bom. Tinha heróis, vilões, espaçonaves, alienígenas bobos, maquinações políticas, uma criança prodígio, oportunidades de merchandising e uma luta de sabres de luz muito maneira. O que mais alguém poderia querer?
Bem, segundo uma parcela bastante barulhenta da base de fãs: diálogos competentes, personagens que se comportassem como seres humanos e uma história que não parecesse estar inventando seus objetivos enquanto a câmera já estava rodando. O que, verdade seja dita, são reclamações razoáveis.
A escrita de George Lucas sempre flertou com o constrangedor, mas A Ameaça Fantasma transformou esse flerte em um casamento legalmente reconhecido. Não havia um roteiro de Lawrence Kasdan para limar as arestas mais ásperas, nenhum Irvin Kershner dirigindo os atores ao redor dos diálogos de Lucas e nenhum Harrison Ford por perto para explicar que seres humanos podiam até digitar aquelas palavras, mas não havia uma circunstancia em que alguem realmente diria elas.
O resultado final é um filme que causa tantos palmfaces que poderia ser classificado como calistenia.
Infelizmente, as críticas não se limitavam ao roteiro. Um número considerável de fãs também reclamou que o filme era infantil demais, bobo demais e não suficientemente sombrio. Segundo eles, aquele não era o Star Wars de que se lembravam e sim uma aventura familia colorida, cheia de alienígenas ridículos, personagens feitos para vender bonecos, humor escrachado, moralidade simples, veículos perfeitos para virar brinquedos e coisas brilhantes acontecendo na tela sem motivo nenhum que senão coisas brilhantes acontecendo na tela.
Ao que George Lucas deve ter ficado muito confuso: “Mas Star Wars não foi assim desde sempre?”
Santa TARDIS, a resposta dos nerds foi ensurdecedora.
“É claro que não, SEU COROA! Star Wars é uma saga madura e sombria que trata de política, filosofia, tragédia e relacionamentos de tamanha complexidade literária que Hemingway sairia rastejando do próprio túmulo, descobriria a Pedra Filosofal para adquirir a imortalidade apenas para se mata outra vez por pura inveja! Star Wars é sombrio! Star Wars é profundo! Star Wars é brutal!”
Suspeito que temos aqui um problema de comunicação.
As prequels não estavam sendo acusadas apenas de ter uma escrita horrorosa — o que tem, pra caralho —, mas de não incorporar uma versão séria e sofisticada de Star Wars que nunca existiu nos filmes originais. Desde quando Star Wars havia sido qualquer coisa além de uma aventura familia criada, entre outras coisas, para vender brinquedos extremamente legais?
Bem... desde os vinte e cinco anos entre o filme original e Ataque dos Clones, receio eu.
Em todas essas decadas, a Lucasfilm licenciou romances, quadrinhos, jogos e livros de referência, tentando manter algum nível de continuidade entre eles com maior ou menor sucesso, e George Lucas ocasionalmente contribuía com ideias e impunha restrições — mas na hora de escrever os filmes mesmo não considerava o universo expandido muito mais do que uma fanfic.
Na prática, isso significava que autores podiam passar quinze anos construindo cuidadosamente uma elaborada história galáctica, apenas para George dizer "lol, fodasse, alien azul go brrr" porque tinha imaginado um alienígena engraçado durante o café da manhã.
Os fãs, contudo, levavam o Universo Expandido extremamente a sério.
Ao longo dos anos, ele se transformou em uma gigantesca mitologia viva própria, com linhas temporais inteiras, guerras, facções políticas, civilizações antigas e personagens recorrentes. Havia tanto material que os seis filmes lançados nos cinemas pareciam um spin-off inconsequente dos livros.
Para entender o quão fundo essa toca de coelho vai, considere a cena de Ataque dos Clones na qual um traficante se aproxima de Obi-Wan em uma boate e se oferece para vender “bastões da morte”. Obi-Wan responde que não quer bastões da morte e usa um truque mental Jedi para convencer o sujeito a voltar para casa e repensar sua vida.
É uma piada de cinco segundos.
George Lucas provavelmente pensou “Isso fará Obi-Wan parecer legal e maneiro” e esqueceu completamente a cena antes mesmo de a câmera terminar de gravá-la. A franquia, naturalmente, deu um nome completo ao traficante: Elan Sleazebaggano.
Elan. Sleazebaggano.
Pq sutileza é para comedores de quiche.
Os bastões da morte se tornaram um narcótico oficialmente documentado dentro do universo, com efeitos, métodos de distribuição e aparições em materiais posteriores. O banco de dados oficial se lembra de Elan. Os livros de referência se lembram de Elan. Os fãs se lembram de Elan. Em algum lugar, alguém provavelmente calculou sua renda anual e desenvolveu uma teoria explicando em qual faixa tributária de Coruscant se enquadram traficantes de boate.
É assim que o fandom de Star Wars funciona. George Lucas pode deixar uma caneca de café atrás de um alienígena figurante e, dentro de seis meses, aquela caneca terá um fabricante, número de modelo, planeta de origem e uma história trágica envolvendo a queda da Velha República.
Assim, quando muitos fãs exigiram algo mais sombrio, mais político e próximo do tom que associavam ao Universo Expandido, Lucas aparentemente decidiu dar uma chance à seriedade. Certamente tentar agradar ao público não poderia dar errado.
Certo?
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| Você e eu depois de assistir esse filme, amigo |
Bem, me responda uma coisa: qual filme de George Lucas é famoso por ser uma história investigativa noir futurista no estilo de Blade Runner? Qual deles é lembrado como um drama romântico bom? Qual demonstra seu domínio do cinema de guerra em grande escala, envolvendo exércitos, artilharia, manobras políticas e logística militar?
Exatamente.
George Lucas nunca havia dirigido um filme parecido com qualquer um desses. Ele não sabia como fazê-los, assim como Lionel Messi não é exatamente conhecido por ganhar disputas de cabeça contra zagueiros e Ronaldo Fenômeno não era a primeira pessoa para quem você ligava quando precisava cobrar uma falta a trinta metros do gol. Grandes artistas têm seus pontos fortes. Reconhecê-los costuma ser preferível a jogar três gêneros que vc não entende lhufas dentro de um liquidificador e esperar que a trilha do John Williams transforme o que sair em um filme.
Ainda assim, Ataque dos Clones tenta ser um thriller investigativo, um romance trágico, um drama político e um épico de guerra — tudo isso enquanto continua sendo uma aventura espacial infantil em que robôs ficam trocando de cabeça.
O primeiro filme tinha problemas porque sua escrita não possuía um impulso dramático claro. Objetivos eram inventados em cima da hora quando os personagens precisavam viajar para algum lugar novo, cenas duravam mais do que deveriam e as conversas pareciam ter sido traduzidas do inglês para código binário e depois de volta ao inglês pelo Altavista Translator.
Em vez de corrigir esses problemas básicos, Lucas tentou tornar tudo maior, mais sombrio e mais complicado. Para surpresa de bem pouca gente, o resultado não é apenas um desastre de trem, são quatro trens se aproximando do mesmo cruzamento, vindos de gêneros incompatíveis, enquanto R2-D2 observa tudo a uma distância segura por ser o único personagem da franquia que saiu sem um arranhão na sua imagem dessa palhaçada toda.
Ataque dos Clones é o pior filme das duas primeiras trilogias e facilmente seria o pior filme principal de Star Wars de todos os tempos não fosse a Disney ter se esforçado muito, muito, muito mesmo para tomar esse posto decadas depois. Ao ponto que eu tenho dificuldade para identificar qualquer coisa que funcione particularmente bem e preciso me esforçar ainda mais para encontrar alguma coisa que funcione bem de propósito — felizmente, o humor involuntário jamais nos abandona.
Então vamos começar pela bantha no meio da sala: vamos discutir o romance mais creepy da galáxia.
Deixa eu colocar de uma forma bem simples: não existe um único elemento do romance entre Anakin e Padmé que parece certo. Pra começar, pensem no histórico dos dois: Anakin conheceu a rainha Padmé Amidala quando tinha nove anos e ela, quatorze. Ela havia sido eleita rainha de um planeta inteiro numa idade em que a maioria das pessoas não é responsável o bastante nem para escolher o próprio horário de dormir, enquanto Anakin era um gênio mecânico escravizado que construía droides de protocolo, consertava podracers e aparentemente jamais aprendeu como conversas funcionavam.
Dez anos depois, eles se encontram novamente. Anakin tem dezenove anos, Padmé tem vinte e quatro, e ele imediatamente confessa que não passou um único dia sem pensar nela desde que se separaram. Tudo bem, cara. Eu entendo.
Quando suas interações com o sexo oposto durante a adolescência são mais raras do que a passagem do cometa Halley durante um ano bissexto, é perfeitamente normal continuar revivendo um encontro microscópico na própria cabeça durante a década seguinte. É patético. É deprimente. Também é uma experiência humana com a qual... alguns de nós ... podem estar completamente familiarizados.
["ALGUNS DE NÓS", NÉ?]
Tá, já estive lá. Já fiz isso. Não virei o Darth Vader, mas ainda dá tempo.
Para Padmé, entretanto, a situação é mais desconfortável. Da última vez em que viu Anakin, ele era uma criancinha perguntando se ela era um anjo. Agora ele voltou como um guerreiro zelote com treinamento de combate para matar todos na sala em menos de 7 segundos, insistindo que passou dez anos pensando nela.
Isso não é uma declaração romântica. É uma informação que você encaminha para a polícia cívil no seu boletim de ocorrencia. E tudo fica pior porque cada cena entre os dois parece que a Natalie Portman esta tão desconfortável que parece que ela está calculando mentalmente a distância até a saída de emergência mais próxima.
Anakin não flerta, ele levanta mais bandeiras vermelhas que o Beira-Rio numa final de Libertadores.
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| Manja o olhar de "vc vai acabar numa série de crimes reais da Netflix" do meliante |
Sério, não tem uma única frase "romântica" no filme em que ele não pareça o futuro tema de um documentário criminal dividido em seis episódios. Ele encara Padmé de uma forma completamente sociopata. Reclama que ela o está atormentando. Explica sua admiração política por ditaduras. Observa-a enquanto ela dorme. Fica irritado quando ela pede que pare de agir como se os dois já fossem casados.
Isso não é sedução, isso é a petição de entrada de um pedido de restrição judicial.
O que me faz muito querer conhecer a Sra. Lucas, pq se é assim que o George realmente acredita que é assim que o cortejo funciona, eu tenho várias perguntas em como exatamente ela se apaixonou por ele.
A interpretação mais generosa para o eventual afeto de Padmé é que ela se rende por cansaço ou vergonha alheia. “Tudo bem, Anakin. Eu me caso com você. Apenas pare de falar que a simples ideia de não ficar comigo lhe causa um sofrimento insuportável. As pessoas estão tentando comer”. Eu não conseguiria imaginar um casal com menos química nem se a E. L. James tivesse escrito o roteiro depois de perder uma aposta.
Pegue a infame cena diante da lareira, por exemplo, Anakin anuncia que é assombrado pelo beijo que ela jamais deveria ter lhe dado, enquanto Padmé está sentada ali dizendo que eles não podem ficar juntos enquanto se vestiu como uma modelo da Vitória Secret espacial especificamente para a ocasião. George, não é assim que funciona.
Ou então a sequência no campo, na qual os dois rolam pela grama e fingem estar se divertindo. Deveria ser encantador. Deveria demonstrar por que Padmé consegue enxergar alguma coisa por baixo da arrogância de Anakin e por que Anakin a vê como algo além da primeira femea que falou com ele quando ele tinha nove anos. Em vez disso, parece uma propaganda de medicamento cujos efeitos colaterais incluem dependência emocional, destruição da democracia e posse espontânea de sabres de luz.
Mas o verdadeiro ponto sem retorno ocorre depois da morte da mãe de Anakin: ele encontra os Tusken Raiders responsáveis, massacra o acampamento inteiro e depois confessa tudo a Padmé. E veja bem, consigo entender Padmé simpatizando com o ato inicial de vingança. A mãe dele foi sequestrada, torturada e morreu em seus braços. Anakin está dominado pela dor, pela raiva e pela culpa. Matar aqueles diretamente responsáveis é moralmente terrível, mas emocionalmente compreensível.
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| "Luke, na verdade seu pai morreu tentando ficar de pé em cima de um carrapato gigante. Eu inventei a coisa da guerra, era menos vergonhoso" |
Então ele acrescenta que matou todo mundo.
Os homens.
As mulheres.
As crianças.
Presumivelmente os animais de estimação, os cactos decorativos e qualquer pessoa cujo nome estivesse escrito na caixa de correio.
E não apenas isso, ele descreve esse banho de sangue em massa como um vilão de desenho animado de sábado de manhã. Ele não apenas confessa que cometeu um pequeno genocídio no calor do momento, ele vibra de orgulho de te-lo feito!
Nesse momento, Padmé não foge. Não entra em contato com Obi-Wan. Não sugere que talvez o adolescente telecinético imensamente poderoso devesse ser mantido longe de crianças, armas e cargos públicos.
Ela vai tipo "tá, isso acontece, quem nunca, né?".
Minha querida, eu to me esforçando muito para entender o que você enxergou nesse homem, mas tu não tá me ajudando.
Essa cena deveria ser o coração emocional do filme. É o momento em que Anakin dá seu primeiro passo inegável na direção de Darth Vader. E vá lá Hayden Christensen realmente pega a ideia geral da coisa: Anakin ainda não é friamente maligno. Ele está envergonhado, furioso, de luto e apavorado com a própria capacidade de violência.
Mas o filme não faz ideia do que significa a reação de Padmé.
Ela perdoa um genocídio porque o ama? Não acredita nele? Considera os Tusken seres inferiores? Está chocada demais para reagir? O roteiro está apenas desesperado para manter o romance em movimento, torcendo para que esqueçamos essa conversa?
Eu não sei.
O filme também não sabe.
E enquanto Anakin e Padmé rolam pela grama em cenas que me fazem querer chamar a polícia — porque certamente alguém deve estar apontando um blaster para a cabeça daquela mulher —, Obi-Wan atravessa Coruscant e metade da galáxia investigando as tentativas de assassinato contra a senadora Amidala.
Coruscant é um planeta quase inteiramente coberto por uma única cidade, um conceito extraordinariamente legal que o filme utiliza principalmente como cenário para engarrafamentos. E eu direi isto apenas uma vez:
George Lucas não sabe escrever uma história de detetive.
George Lucas não demonstra evidência alguma de que tenha lido uma história de detetive.
George Lucas talvez nem tenha certeza absoluta do que um detetive realmente faz.
Obi-Wan possui a astúcia investigativa e a habilidade social de um cruzado medieval que riu quando o jogo perguntou se ele queria gastar pontos de atributo em Carisma e sua investigação só avança porque ele está perseguindo os criminosos mais burros da galáxia: pessoas cuja competência operacional faria a Equipe Rocket parecer material digno de O Espião que Sabia Demais.
A trama de assassinato começa com uma bomba destruindo a nave de Padmé em uma plataforma de pouso mas o plano fracassa porque Padmé estava usando uma sósia. Os vilões então mandam centopeias venenosas para o quarto dela usando um droide voador mas isso fracassa porque Anakin sente a presença delas, corta-as ao meio e Obi-Wan pula por uma janela.
A assassina, Zam Wesell, foge por Coruscant, dando início a uma perseguição que dura três meses e meio — ou pelo menos parece durar pq George Lucas também não sabe escrever uma perseguição urbana. A sequência possui carros voadores, letreiros de neon, alturas impossíveis, ruas lotadas e uma assassina capaz de mudar de forma. Deveria ser o entretenimento mais fácil já criado pela humanidade. Ainda assim, continua por tanto tempo que até os veículos parecem cansados.
Eventualmente, Obi-Wan e Anakin encurralam Zam em uma boate... e a esse ponto o filme esqueceu que ela é uma metamorfa. Não, sério, você poderia imaginar que a capacidade de alterar a própria aparência seria útil durante uma fuga pela cidade mais densamente povoada da galáxia. Bastava dobrar uma esquina, virar outra pessoa e sair andando tranquilamente.
Em vez disso, Zam entra em um bar, mantém praticamente a mesma aparência e tenta atacar dois Cavaleiros Jedi — membros de uma ordem conhecida amplamente por ter os melhores combatentes de toda galaxia, que carregam espadas laser e reagem aos perigos antes que eles aconteçam.
Plano sólido.
Os Jedi a capturam, mas, antes que possa revelar qualquer coisa, ela é morta por um dardo envenenado disparado pelo caçador de recompensas que a contratou. A cena é apresentada como aquele momento clássico no qual o assassino elimina um subordinado descartável para proteger a conspiração... só que Zam já era uma assassina subcontratada.
O que quer dizer que ela já sabia pouquíssimo a respeito da trama maior. É justamente por isso que você terceiriza para matar alvos importantes: normalmente eles não pedem acesso ao seu planejamento estratégico de cinco anos.
Felizmente para Obi-Wan, o dardo envenenado revela muito mais informações do que Zam jamais poderia fornecer já que a arma aparentemente é tão específica geograficamente que poderia muito bem ter “FABRICADO NA ZONA FRANCA DE KAMINO” gravado na lateral.
Os Arquivos Jedi não possuem nenhuma informação sobre ela, então Obi-Wan procura Dexter Jettster, dono de uma lanchonete, velho conhecido e criatura de quatro braços, que imediatamente identifica o objeto como um saberdardo de Kamino. Eu não posso exatamente explicar como a Ordem Jedi, guardiã da paz galáctica e detentora dos arquivos mais sofisticados da civilização, não consegue identificar a arma mas o cozinheiro da lanchonete americana frequentada por Obi-Wan olha para ela e responde: “Ah, sim, Kamino. Aqueles clonadores usam isso.”
Se isso é uma história de detetive terrível ou uma crítica social de que Obi-Wan deveria parar de passar todo o tempo entre monges e conversar mais com trabalhadores comuns é algo que eu deixo para os senhores decidirem por si mesmos.
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| Okay, esse cara parece um pouco feliz demais em estar numa guerra |
O que eu posso dizer é que Obi-Wan consulta os arquivos novamente e descobre que Kamino não existe. Felizmente, Yoda está dando aula para uma sala cheia de crianças, e uma delas resolve o problema em onze segundos: alguém apagou o planeta do mapa.
É de longe uma das melhores cenas de Yoda na trilogia. Ele se comporta como o professor sábio e sapecote que conhecemos em Dagobah, permitindo que as crianças encontrem a resposta em vez de simplesmente oferecer uma palestra. Ele também parece se divertir muito vendo Obi-Wan receber auxílio investigativo de uma criança de seis anos.
“Realmente maravilhosa, a mente de uma criança é.”
Tradução: “Constrangedoras, suas habilidades de detetive são.”
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| Vc sabe que a sua solidão atingiu novos patamares na história da humanidade quando começa a achar que as Kaminoanas davam um caldo, heim |
Obi-Wan viaja até Kamino e descobre que o planeta desaparecido abriga uma civilização avançada de clonadores. Os kaminoanos não apenas conhecem o Jedi — eles passaram a última década criando um exército de clones para a República, duzentas mil unidades estão prontas, com mais um milhão a caminho.
A encomenda supostamente foi feita pelo Mestre Jedi Sifo-Dyas, que morreu aproximadamente na mesma época. E não é piada. O nome do sujeito realmente era Sifo-Dyas e se não tinha um brasileiro sugerindo esses nomes pro George Lucas eu sou um Honda Civic 2015 com tração nas quatro rodas. Conde Dooku. Planeta Naboo. Capitão Panaka. Mestre Jedi Sifo-Dyas. Qualé.
Claro, isso levanta mais perguntas do que respostas: quem autorizou esse exército?
Quem pagou por ele?
Como alguém esconde o custo de milhões de soldados geneticamente modificados, armas, armaduras, instalações de treinamento, naves espaciais e dez anos de serviço de alimentação sem que o Ministério Público da República jamais se dê conta desse trambique?
Tá, eu entendo que o Palpatine provavelmente conseguiria fazer vários trilhões de créditos desaparecerem dentro do sistema contábil da República, mas considerando a qualidade com que o filme é escrito de forma geral, eu colocaria meu dinheiro mais que o Lucas simplesmente não pensou a respeito disso.
Obi-Wan relata a descoberta ao Conselho Jedi, que reage com aproximadamente o mesmo nível de preocupação normalmente reservado a uma encomenda atrasada. Trata-se de um exército secreto construído para eles sem seu conhecimento, encomendado por um Jedi morto e clonado a partir de Jango Fett — o mesmo caçador de recompensas ligado à tentativa de assassinato que Obi-Wan está investigando.
Cada parte dessa situação está gritando “CONSPIRAÇÃO SITH” tão alto que os próprios Sith devem estar do outro lado da sala acenando com a cabeça dizendo "é, foi a gente mesmo". Ainda assim, a reação dos Jedi é essencialmente:
“Suspeito, isso é.”
“Sim. Deveríamos continuar investigando.”
“Excelente. Enquanto isso, vamos aceitar a entrega.”
Os kaminoanos então apresentam Obi-Wan a Jango Fett, que vive abertamente dentro das instalações acompanhado de Boba, seu filho-clone não modificado.
Obi-Wan pergunta se Jango conhece Sifo-Dyas.
Jango responde que não. Foi recrutado por um homem chamado Tyranus.
Nesse ponto, a conspiração deixou de ser uma trilha de migalhas e se tornou uma rodovia com setas luminosas. Porra, Tyranus? Não tinha um nome Sith mais sútil não? Que tal "Darth Malignodomalqueodeiaobem"?
Mesmo assim, Jango escapa depois de lutar contra Obi-Wan na chuva... que é uma cena legal, isso tem que ser dado a eles. Mandalorianos são uma das poucas coisas que continuam fodas em Star Wars, mesmo que George Lucas nem fizesse ideia do que isso seja a esse ponto. Seja como for, Obi-Wan instala um rastreador em sua nave e o segue até Geonosis.
O rastreador em si faz sentido... o que faz menos sentido é que Obi-Wan permanece próximo o bastante para ser percebido quase imediatamente, dando origem a uma batalha em um campo de asteroides na qual Jango tenta matá-lo usando mísseis e cargas sísmicas. Caceta, mas cê é ruim nesse trabalho, heim meu filho?
Mas tá, para dar algum crédito ao filme, essas cargas sísmicas possuem um design de som maneiro pra caceta pq tem um instante de silêncio absoluto antes que a explosão se espalhe pelo campo de asteroides acompanhada por um som tão satisfatório que temporariamente me convence de que estou assistindo a um filme muito melhor.
Design de som: um.
Diálogo: menos dezessete.
E toda essa tolice que eu descrevi até aqui poderia ter funcionado se fosse apresentado com a energia aventureira do Star Wars clássico. A trama já é uma comédia de erros: os vilões deixam pistas por toda parte. Os Jedi tropeçam em conspirações gigantescas várias vezes sem perceber o óbvio. Um exército aparece do nada. O futuro Imperador está sentado no centro de tudo com a expressão facial de um homem incapaz de acreditar que ninguém ainda o prendeu.
Mas Lucas está comprometido em fazer um filme sério e adulto, portanto longas sequências possuem aproximadamente tanto humor ou espaço para respirar quanto um filme do Zack Snyder. Tem várias cenas de ação o tempo todo, mas elas não possuem ritmo, são tecnicamente coreografadas sem serem empolgantes e muito disso é por culpa da CGI.
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| "Senhor, Jedis são conhecidos por facilmente darem saltos de 5m, talvez executa-los amarrados dessa forma não tenha sido a mais feliz das escolhas." |
E não, não vou desculpar todos os problemas visuais dizendo que o filme era “um produto de sua época”. Jurassic Park havia sido lançado quase uma década antes e ainda fazia um trabalho muito melhor ao nos convencer de que os atores dividiam o espaço físico com criaturas vivas. Sim, Spielberg conseguiu isso combinando CGI com animatrônicos, cenários físicos, escuridão, chuva e enquadramentos cuidadosamente escolhidos — mas ninguém proibiu o George Lucas de usar as mesmas técnicas.
Ataque dos Clones foi feito muito, muito dependente de cenários e personagens gerados por computador, filmados em tela verde porque eles lhe davam maior controle. Ele podia criar qualquer coisa, posicionar a câmera em qualquer lugar e alterar cenas muito tempo depois de as filmagens terem terminado. O problema é que essa liberdade vem à custa de peso, textura e presença física: os atores olham na direção errada, as criaturas parecem desconectadas dos ambientes e locais inteiros parecem cenários de videogame.
Portanto, o filme não parece pior porque Lucas foi uma valente desbravador do CGI, ele parece pior pq o diretor escolheu de livre e espontanea vontade um método menos convincente e construiu a maior parte do filme ao redor das limitações dele. Pioneiro? Sem dúvida. Mais bonito? Nem fodendo.
A fábrica de droides de Geonosis talvez seja o exemplo mais claro. Anakin, Padmé, R2-D2 e C-3PO caem em uma gigantesca linha de produção automatizada cheia de metal derretido, máquinas e perigos de comédia pastelão, o que deveria ser uma excelente cena de ação-comédia família bem do jeitinho que o George Lucas gosta (Indiana Jones tem excelentes cenas assim, então ele é BOM nisso)
Em vez disso, parece que os atores foram jogados dentro de uma cutscene de videogame que não conseguem enxergar, enquanto C-3PO inicia uma rotina humorística de troca de cabeças durante o clímax de um filme de guerra supostamente sombrio.
E essa é a estranha contradição no coração de Ataque dos Clones: Lucas tentou produzir uma tragédia política madura, mas continua sendo George Lucas. Não consegue resistir a robôs engraçados, vozes alienígenas bobas e esteiras rolantes de fábricas. Assim, recebemos um filme sério demais para aproveitar suas próprias bobagens e absurdo demais para sustentar sua seriedade.
Mas, ei, era isso que os fãs queriam, certo?
Nada de palhaçadas infantis. Nada de alienígenas caricatos. Nada de mortes usadas como alívio cômico. Temas sombrios! Guerra! Padmé perde metade da blusa e é arranhada por um gato gigante!
Uau.
Tão adulto.
Tão profundo.
Tão chato.
Tá, não a parte da Natalie Portman com a barriguinha de fora, ainda é uma das mulheres mais bonitas da história trincada no shape.
Dito isso, existem algumas coisas de que eu gosto de verdade nesse filme: as cenas do Yoda são boas, tanto quando está ensinando as crianças quanto quando finalmente entra na batalha.
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| Shazam, caralho! Para de ficar olhando com cara de abestado e saí de baixo seu gordo da porra que tá pesado! |
Foi a primeira vez que o público viu Yoda lutar com um sabre de luz em um filme lançado nos cinemas, e o resultado foi divisivo. Algumas pessoas acharam que isso destruía a dignidade do personagem. Outras supostamente comemoraram porque o pequeno Muppet verde havia acabado de se transformar em uma máquina de pinball movida a cafeína.
Pessoalmente, eu achei ótimo.
É completamente idiota, mas da melhor maneira possível dentro de Star Wars.
O conde Dooku primeiro tenta derrotar Yoda jogando objetos pesados pela sala.
Yoda segura todos eles.
Depois, os dois participam de uma disputa usando a Força.
Yoda o acompanha.
Dooku finalmente parece pensar: “Bem, claramente não vou conseguir superar Yoda usando a Força. Mas certamente posso derrotar esse sapo de novecentos anos em uma luta de espadas. Olhem para ele. Precisa de uma bengala. Essa já tá no papo.”
Então Yoda saca o sabre de luz e é possuído pelo espírito de um ventilador de teto virado no ódio e a imagem do Christopher Lee, um dos seres humanos mais dignos já registrados em filme, tentando desesperadamente se defender de um borrão verde aos berros é cinema absoluto.
Alguns fãs queriam que Yoda lutasse inteiramente através da Força, controlando seu sabre telecineticamente ou derrotando Dooku por meio de sua serena superioridade espiritual e de fato, talvez isso fosse mais elegante.
Mas não seria nem de longe tão engraçado.
E, a essa altura, Star Wars precisa desesperadamente de alguma diversão.
Outro elemento de que gosto de verdade — e talvez o ponto mais forte de toda a trilogia prequel — é a ascensão de Palpatine ao poder pq o seu plano é excelente.
Palpatine fabricou os dois lados de uma crise galáctica. O conde Dooku lidera os Separatistas enquanto serve secretamente a Darth Sidious. A República teme os exércitos de droides separatistas, mas não pode criar legalmente uma força militar rápido o bastante para enfrentá-los.
Convenientemente, um exército de clones completamente treinado já existe tudo de que Palpatine precisa são poderes emergenciais para mobilizá-lo.
E quem propõe conceder esses poderes emergenciais a ele? Jar Jar Binks.
É claro.
Jar Jar pode ter menos tempo de tela do que em A Ameaça Fantasma, mas durante esses poucos minutos ajuda pessoalmente a destruir a democracia.
Isso é eficiência.
Mas a coisa que eu gosto aqui é que Palpatine não toma o poder através de um golpe a força. O Senado entrega voluntariamente o poder a ele porque existe uma crise real e uma ação imediata parece necessária. Ele promete devolver seus poderes emergenciais assim que a crise terminar, o que historicamente é o tipo de promessa ao qual todos deveriam reagir verificando se as saídas continuam destrancadas.
É uma ideia política forte porque os senadores não são apenas idiotas hipnotizados, a decisão deles faz sentido diante das informações disponíveis.
A República realmente precisa de um exército.
Os Separatistas realmente representam uma ameaça.
Claro, vc poderia argumentar que a Republica podia deixar simplesmente os separatistas se separarem e que parece meio babaca forçar eles a ficarem na Republica na força pq querem os recursos dele, territórios etc... mas então vc teria que argumentar isso de toda revolução no mundo real que foi combatida pelo então governo central - algumas tiveram sucesso e deram origem a novos Estados, outras foram suprimidas. Sempre a um grande custo de sangue. Então isso pode não fazer lá tanto sentido pra mim na forma que eu vejo o mundo, mas dificilmente argumentaria que não é exatamente assim que as coisas são na vida real.
Seja como for, onde eu queria chegar é que a democracia não desmorona porque um homem entra no Senado e anuncia que é maligno. Ela desmorona porque instituições amedrontadas abandonam voluntariamente suas proteções em troca da promessa de segurança. Isso é genuinamente bom material e se era pra fazer um filme menos farofa, então eu gostaria que o restante do filme confiasse o bastante nessas ideias para desenvolvê-las, em vez de passar tanto tempo assistindo Anakin discutir areia.
Falando como um nerdola de Star Wars, também não posso dizer que não é satisfatório ver os fundamentos visuais do Império surgindo de forma elegante (e elegancia é uma currencia em falta nessa franquia).
Os clones usam armaduras brancas que claramente antecipam os stormtroopers.
As naves de assalto da República se parecem com versões primitivas dos Destroyers Estelares Imperiais.
E, quando o exército de clones deixa Coruscant, John Williams toca a Marcha Imperial por alguns breves momentos. Apenas um pouco, como que dizendo "ainda não, mas estamos caminhando pra isso".
É um dos momentos mais bem-sucedidos da trilogia: os heróis acreditam que a salvação chegou, enquanto o público sabe que a máquina da tirania está sendo montada bem diante deles.
Eu queria mais disso e menos levitação de frutas como preliminar sexual, por favor.
Outra coisa que surpreendentemente eu não desgosto completamente é do conceito do Anakin neste filme. Sim, ele é impulsivo, arrogante, temperamental e emocionalmente apegado a qualquer coisa que demonstre o mínimo de atenção para com ele.
Mas sabe com o que mais ele se parece? Com um adolescente, porque é exatamente isso que ele é. Ele tem dezenove anos, é imensamente poderoso, foi criado por uma ordem religiosa emocionalmente reprimida e separado da mãe depois de passar a infância como escravo. Os Jedi ensinam que ele deve abandonar seus apegos, mas oferecem pouquíssima ajuda prática para lidar com o luto, o amor, a raiva ou o trauma.
Essencialmente, eles dizem a um adolescente instável dotado de poderes sobrenaturais: “Você já tentou não sentir nada?”
Trabalho psicológico maravilhoso, pessoal.
Todos os elementos essenciais de Darth Vader estão presentes. Anakin é arrogante porque sabe que é extraordinariamente poderoso. Ressente-se de Obi-Wan porque considera orientação uma forma de restrição. Acredita que regras são obstáculos criados por pessoas menos capazes. Torna-se apegado porque todas as relações importantes de sua vida foram arrancadas dele. Então vcs esperavam o que dessa criança, exatamente?
Ele até argumenta casualmente que uma ditadura talvez fosse aceitável caso o ditador fosse sábio e obrigasse as pessoas a cooperar. Uma excelente cantada para usar com uma senadora, aliás.
A atuação de Hayden Christensen costuma ser ridicularizada, e não sem razão: sua interpretação pode ser tal como o Naruto, meio dura, suas cenas românticas são desastrosas e os diálogos que lhe deram também não ajudam ele a soar como um ser humano.
Mas a caracterização básica faz sentido.
Anakin não deveria ser o Han Solo². Ele não é um malandro carismático que sabe exatamente quando sorrir. É um prodígio desajeitado e isolado a quem dizem desde a infância que talvez seja a pessoa mais importante da história.
É claro que ele é insuportável.
Imagine pegar um jovem médio de dezenove anos, dar telecinese, uma espada de laser e uma profecia religiosa declarando que ele é o Jesus Espacial. Deveríamos agradecer pelo fato de Anakin não ter um podcast.
Então o verdadeiro problema não é Anakin se comportar como uma bomba-relógio, o real problema do filme é que é que todo mundo percebe e depois não faz nada a respeito disso.
Obi-Wan reclama abertamente que Anakin se tornou arrogante.
Yoda sente medo, dor e sofrimento ao redor dele.
Mace Windu sabe que ele é excepcionalmente poderoso e emocionalmente instável.
Padmé o ouve confessar que massacrou crianças.
O Conselho Jedi percebe repetidas vezes que alguma coisa está errada e então devolve Anakin a ativa, oferecendo-lhe o apoio psicológico na forma de um “hmmm” desconfiado. Todo mundo tá vendo acontecer, mas dificilmente faz alguma coisa além de "ai ai ai, esse Ani, viu?", Aparentemente, os midi-chlorians conectam as pessoas ao campo de energia que envolve toda a vida, mas não aos conceitos básicos de saúde mental.
Eu verdadeiramente entendo onde o roteiro queria chegar: Anakin se torna o Darth Vader pq ele é um jovem profundamente traumatizado cercado por instituições rígidas, complacentes ou politicamente desinteressadas em para ajudá-lo e não pq Palpatine armou um grande plano maligno do mal para esse cenário, e sim pq o sistema já estava podre por dentro, engessado pela burocracia e tamanho da Republica e pela arrogancia e hubris dos jedi.
Isso é um tema puta interessante... que infelizmente, Ataque dos Clones raramente explora com clareza suficiente. A maior parte do arco emocional de Anakin está enterrada sob diálogos tão constrangedores que o público ri durante momentos que deveriam ser alarmantes. Vemos Darth Vader surgindo, mas o filme apresenta essa transformação com a qualidade dramática de uma peça escolar.
No fim das contas, Ataque dos Clones tenta fazer coisas demais com as quais George Lucas não se sentia confortável.
Quer ser um mistério noir, mas a investigação avança através de coincidências e criminosos extraordinariamente burros.
Quer ser um romance, mas seu casal central se comporta como um stalker e uma refém.
Quer ser uma tragédia política, mas deixa suas melhores ideias enterradas sob exposição pessimamente escrita.
Quer ser um épico de guerra, mas os exércitos digitais raramente possuem peso físico.
Quer ser mais sombrio e adulto, mas continua interrompendo tudo com a cabeça de C-3PO presa ao corpo de um droide de batalha.
E, para surpresa de absolutamente ninguém, fracassa em praticamente tudo que tenta fazer.
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| Enquanto são incriveis em um duelo, uma guerra com sabres de luz parece apenas uma rave muito louca com glowsticks. |
É por isso que Ataque dos Clones é o pior filme das duas primeiras trilogias: não porque nada acontece — uma quantidade absurda de coisas acontece —, mas porque tão poucas delas possuem ancoragem emocional.
Assassinatos, investigações, romance proibido, genocídio, conspirações, batalhas gigantescas e o colapso da democracia acontecem, mas o filme frequentemente parece George Lucas lendo a ata de uma reunião enquanto alguém passa uma CGI em tela verde atrás dele.
Isso é o que acontece quando criadores escutam os membros mais barulhentos de um fandom sem compreender aquilo que o fãs realmente querem sem ser da boca pra fora:
As pessoas reclamaram de Jar Jar, então Lucas reduziu seu tempo de tela.
As pessoas queriam escuridão, então as cores ficaram mais apagadas e todo mundo parou de sorrir.
As pessoas queriam política mais fundamentada, então os personagens passaram a discutir poderes emergenciais.
As pessoas queriam as Guerras Clônicas, então milhares de soldados digitais apareceram.
Mas nenhum desses ingredientes resolvia o problema central: o roteiro não faz os personagens parecerem vivos. Ainda assim, pelo menos Jar Jar quase não apareceu neste.
Esse era o verdadeiro problema do filme anterior, né?
Bem... tá, até era.
Quero dizer, não era só ele, mas porra tu não me ajuda também, né Luquinhas-san...
E agora que eu escrevi um pequeno livro sobre Episódio II — porque é isso que acontece quando você deixa um nerd falar sobre Star Wars —, vamos tentar ser razoavelmente rápidos sobre o jogo baseado no filme. Eu disse "razoavelmente", não estou fazendo nenhuma promessa com valor legal.
No papel, The Clone Wars é um jogo de combate veicular extremamente simples. Os objetivos aparecem marcados por indicadores muito amigáveis, você dirige até eles, atira em tudo que pareça insuficientemente republicano e tenta não levar tiros de volta. Física quântica isso não é.
Existem algumas coisas interessantes para saber sobre ele, contudo, e a primeira aparece antes de você começar a jogar: o nome da desenvolvedora é Pandemic Studios. Agora, o que esse nome nos diz, além do fato de que o estúdio obviamente foi fundado antes de 2020?
Exatamente. Essa é a mesma Pandemic Studios que, apenas dois anos depois, produziria outro jogo de tiro de Star Wars — um ligeiramente mais famoso chamado Star Wars: Battlefront. E isso torna The Clone Wars curioso porque ele parece o rascunho da Pandemic para um dos jogos de Star Wars mais populares de todos os tempos.
A campanha começa recriando partes da Batalha de Geonosis de Ataque dos Clones, mas logo abandona o filme e parte para uma história original do Universo Expandido sobre o conde Dooku procurando uma antiga arma Sith chamada Dark Reaper. Porque é claro que sim. Você não pode simplesmente ter uma arma normal em Star Wars, ela precisa ser uma ANTIGA SUPERARMA SITH DE PODER INIMAGINÁVEL, preferencialmente enterrada em um planeta cujo nome pareça um medicamento contra parasitas intestinais.
Ainda assim, afastar-se do filme provavelmente foi a decisão correta. Só existem tantas vezes que um jogo pode recriar a arena de Geonosis antes que alguém precise admitir que o próprio Episódio II oferece uns vinte minutos de material aproveitável para videogame cercados por duas horas de Anakin cometendo crimes contra o romance.
Assim, você controla Anakin, Obi-Wan e Mace Windu enquanto eles pilotam tanques da República, gunships, speeder bikes, STAPs, AT-XTs e até montam um maru em algumas fases. E sim, o fato de eu assumir que não precisa explicar o que é um AT-XT ou um maru provavelmente diz tudo que você precisa saber sobre por que eu vou morrer sozinho.
Ainda assim, a quantidade de veículos é bastante satisfatória, e o jogo alterna entre eles com frequência suficiente para evitar que a campanha fique chata muito porque os veículos sentem diferente controlando. Os tanques de combate da República deslizam pelo campo de batalha e podem fazer strafing, as speeder bikes são rápidas e frágeis, as gunships oferecem maior poder de fogo e uma visão mais ampla do campo de batalha, o AT-XT anda por aí como um protótipo de AT-ST que acabou de descobrir o dia de perna.
Eles tambem possuem armas primárias e secundárias diferentes, se movimentam de maneiras diferentes e têm funções especiais adequadas aos seus papéis. Nenhum deles é particularmente sofisticado, mas existe variação suficiente para que trocar de veículo pareça mudar a maneira como você enfrenta a batalha, em vez de simplesmente alterar a skin da coisa que vc controla.
Também existem algumas missões nas quais você controla um Jedi a pé, embora chamar essas seções de “combate Jedi” seria bastante generoso. Vamos apenas agradecer que elas são bem poucas e curtas, e deixar por isso mesmo.
Para além dessa limitação de não poder escolher seu veículo e jogar a fase inteira com o que o jogo te dá, porém, boa parte da estrutura que a Pandemic usaria posteriormente em Battlefront já está visível. As fases são campos de batalha relativamente abertos, cheios de unidades aliadas e inimigas, enquanto seus objetivos envolvem destruir alvos estratégicos, defender posições, capturar instalações ou escoltar veículos aliados que se movimentam com a urgência exigida legalmente pela Convenção Internacional das Missões de Escolta em Videogames: eles são lentos como melaço, obviamente. Pelo menos conseguem atirar de volta e se defender com algum grau de competência, o que já os coloca acima de aproximadamente 97% das missões de escolta da história dos videogames.
A característica mais marcante de The Clone Wars, contudo, é a maneira como os soldados clones aliados e os droides inimigos entram em combate por todo o campo de batalha. Sempre existe alguma coisa acontecendo além do seu objetivo imediato: disparos de laser cruzando o cenário, unidades avançando, naves sobrevoando a área e pequenos grupos de soldados fazendo seja lá o que eles estão fazendo, e o resultado cria a impressão de que uma batalha real está acontecendo com ou sem você.
Claro, isso não chega nem perto da sofisticação de HALO: Combat Evolved, a Pandemic usa vários truques de design e eventos scriptados para vender essa ilusão, mas então uma ilusão que funciona recebe o nome de game design.
Jogando como um Jedi no comando de um tanque ou gunship, você se sente como uma unidade de operações especiais se movendo dentro de um conflito muito maior. Os soldados clones comuns seguram a linha e lidam com os inimigos menores enquanto você destrói artilharia, geradores, veículos de comando e outros alvos importantes o bastante para merecer setas coloridas. Naturalmente, você pode perder tempo caçando droides de batalha individuais presos no fogo cruzado. Ninguém está impedindo você de usar um caríssimo veículo de assalto da República para praticar bullying contra um robô que provavelmente recebe salário mínimo, mas você tem coisas mais importantes para fazer.
Essa distinção dá às batalhas uma sensação de escala bastante interessante pq você não está vencendo a guerra matando pessoalmente todos os inimigos do mapa, está destruindo as posições que impedem o avanço do seu lado enquanto as tropas comuns realizam o trabalho profundamente glamouroso de morrer em grandes grupos atrás de você.
Mais uma vez, é principalmente uma ilusão de game design, mas a Pandemic vende ela muito bem.
Os controles são tão simples quanto combate veicular pode ser. O analógico cuida do movimento, os botões de ombro permitem fazer strafing nos veículos que suportam isso, e os botões frontais controlam o tiro principal, as armas secundárias e o turbo. O direcional fica reservado para comandos de esquadrão, mais ou menos como acontecia em jogos como Rogue Leader e Battle for Naboo, permitindo ordenar às unidades aliadas que sigam você, concentrem fogo em um alvo especifico ou defendam a posição onde estão.
A maior parte do combate gira em torno de administrar o sistema de mira automática. Como a tela frequentemente fica cheia de droides, tanques e naves, a Pandemic não exige mira manual precisa. Basta apontar seu veículo vagamente na direção do inimigo e o HUD trava no alvo mais próximo do centro da tela, exibindo uma mira e uma barra de energia, depois você segura o botão de tiro até a democracia acontecer.
A generosa mira automática funciona na maior parte do tempo e torna atravessar formações inimigas fazendo strafing satisfatoriamente fácil, porque você pode passar voando por um grupo de droides enquanto atira sem parar, confiante de que a maioria dos disparos está acertando alguma coisa que Michael Bay aprovaria ver explodindo.
Quando o campo de batalha fica particularmente cheio, contudo, o sistema de mira se torna menos confiável e pode passar direto pelo inimigo que você realmente precisa destruir, travar em uma unidade inofensiva à distância ou ficar fascinado por um pequeno droide enquanto um lançador de foguetes imediatamente ao lado do seu comboio transforma o objetivo da missão em arte moderna.
Isso se torna especialmente irritante nas missões de escolta. Você pode estar desesperadamente tentando mirar no veículo lançador de mísseis que entrou no meio de dois transportes aliados, mas o jogo decidiu que a maior ameaça à República é um droide de batalha parado atrás de uma pedra, o comboio explode, a República cai, Palpatine vence.
... Tecnicamente, isso ia acontecer de qualquer maneira, mas eu preferia não ser pessoalmente o responsável.
O maior problema do gameplay é que todo o sistema de combate acaba se resumindo a despejar sua munição no que quer que a mira automática tenha selecionado. Você lança uma salva de mísseis em poucos segundos, espera as armas recarregarem ou coleta mais munição e então recomeça o processo.
Nenhum inimigo possui pontos fracos interessantes, padrões complexos de ataque ou comportamentos que obriguem você a mudar de tática e o mesmo vale para as lutas contra chefes. Em vez de estudar o inimigo, explorar uma fraqueza ou desenvolver uma estratégia, você geralmente fica circulando para evitar os disparos, lança todos os mísseis, coleta outro lote na lateral da arena e repete.
Esse combate básico também significa que toda a impressionante atividade no campo de batalha nem sempre se traduz em decisões interessantes. Pode haver dezenas de unidades lutando ao seu redor, explosões por toda parte e disparos de laser suficientes para iluminar um pequeno município, mas sua contribuição pessoal ainda se resume a apontar para o marcador vermelho e apertar A até a galaxia ter menos droides
Mas então, jogos licenciados raramente tinham cronogramas de desenvolvimento generosos, especialmente em 2002, e diante dessa realidade, a Pandemic escolheu fazer um pequeno conjunto de mecânicas funcionar bem em vez de tentar quinze sistemas ambiciosos que ficariam uma bosta.
Todas as coisas consideradas,, essa provavelmente foi a decisão correta.
O jogo sabe o que é. Ele te dá um veículo de Star Wars, enche o cenário de inimigos, toca John Williams em um volume suficiente para bloquear o pensamento crítico e pede que você exploda coisas durante algumas horas. E é isso.
Não é brilhante. Não é elegante. Não tem qualquer profundidade que vá entrar pro hall do grande game design... Mas funciona.
Em seus melhores momentos, The Clone Wars consegue criar batalhas grandes e caóticas o suficiente para que até a versão de Xbox (o mais parrudo dos três hardwares) peça arrego com slowdown. Dificilmente é elegante, mas existem momentos em que você não consegue deixar de admirar a quantidade de peças em movimento que a Pandemic conseguiu enfiar nesses consoles.
Os efeitos sonoros são tirados dos filmes e a trilha sonora é basicamente uma seleção dos maiores sucessos de John Williams. É manipulação emocional descarada, naturalmente, mas eu sou um nerd de Star Wars. Manipulação emocional envolvendo instrumentos de sopro e o Tema da Força é precisamente aquilo para o qual me inscrevi.
Até pq você consegue fazer praticamente qualquer coisa parecer importante tocando John Williams ao fundo.
Destruir um gerador inimigo? Heroico.
Atravessar um campo de batalha congelado? Mitológico.
Bater em uma parede porque o sistema de mira ficou interessado em um droide atrás de você? O eterno conflito entre o bem e o mal.
Então dizer que The Clone Wars “não é ruim” pode parecer o elogio mais fraco imaginável, mas para um jogo baseado em filme lançado por volta de 2002, "não ser ruim" já representa uma pequena vitória. E uma pequena vitória ainda é uma vitória no meu livro.
O jogo possui escala visual, uma variedade satisfatória de veículos, controles funcionais, um multiplayer respeitável e uma ilusão convincente de que um conflito muito maior está se desenrolando ao seu redor. Infelizmente, por baixo de toda a fumaça, disparos de laser e John Williams, o jogo propriamente dito é extremamente simples, repetitivo e esticado muito além do que suas mecânicas conseguem sustentar confortavelmente.
Dali a dois anos o estúdio permitiria que os jogadores saíssem dos veículos, trocassem de classe, capturassem postos de comando e participassem mais livremente das batalhas acontecendo ao redor. Todas as ideias que parecem limitadas ou incompletas em The Clone Wars passariam subitamente a fazer sentido como partes de um sistema maior.
Então isso ainda não é Battlefront, mas você entra no tanque, segue a seta amigável e dispara mísseis até o plano de saúde da Federação do Comércio se recusar a cobrir mais droides. Eu já joguei jogos de Star Wars muito piores.
MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 092 (Junho de 2002)
MATÉRIA NA GAMERS
EDIÇÃO 084 (Maio de 2003)
MATÉRIA NA EGM BRASIL
EDIÇÃO 003 (Junho de 2002)
EDIÇÃO 009 (Dezembro de 2002)
EDIÇÃO 015 (Junho de 2003)




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EDIÇÃO 092 (Junho de 2002)
EDIÇÃO 003 (Junho de 2002)
EDIÇÃO 171 (Janeiro de 2002)
EDIÇÃO 081 (Maio de 2001)