Porque depois de virar sem-teto na guerra dos hardwares e se reinventar como publisher third-party, a Sega encontrou na Microsoft uma parceira entusiasmada para descarregar sua fúria contra o mundo. As duas empresas entraram numa parceria em torno do Xbox, que acabou recebendo coisas como Jet Set Radio Future, Panzer Dragoon Orta, Gunvalkyrie, Sega GT 2002 e, porque aparentemente os pedestres ainda não tinham sofrido o bastante, Crazy Taxi 3.
E Crazy Taxi 3 é parte sequência, parte remix dos dois primeiros jogos. Não chega a ser exatamente uma coletânea, porque apesar da estrutura sugerir isso ele não traz tudo de Crazy Taxi 1 e 2: retorna apenas uma cidade de cada jogo (West Coast que parece São Francisco do primeiro jogo e Small Apple que obviamente é uma referencia a Nova York do segundo). Então joga um terceiro mapa totalmente novo chamado Glitter Oasis por cima para garantir. Basicamente, é Crazy Taxi: Greatest Hits com um single novo de lambuja.
O Xbox obviamente é um hardware muito mais poderoso que o Dreamcast, e West Coast é quem recebe a reforma mais significativa nessa transição: a cidade foi expandida com novas áreas, telhados e atalhos construídos em torno do Crazy Hop (o pulo com o carro) introduzido em Crazy Taxi 2, assim como as corridas com múltiplos passageiros da sequencia também foram implementadas na fake-São Francisco. Então espiritualmente ainda é o mesmo mapa, só que mais bonito e com mais oportunidades de lançar um táxi por lugares onde Deus e o planejamento urbano jamais pretenderam que um táxi estivesse.
Small Apple recebe menos mudanças porque já tinha os upgrades de Crazy Taxi 2 desde o começo, embora agora aconteça à noite e tenha algumas rotas e cenários adicionais.
E então temos Glitter Oasis, inspirado em Las Vegas... que não é muito impressionante. Metade dele é deserto e cânions chatos, enquanto a outra metade é uma cidade de neon que faz o framerate do Xbox sair correndo para chorar no colo do Steve Ballmer.
... O que é bem estranho porque esse é o mapa NOVO.
Essa é a parte feita especificamente para a geladeira preta raivosa da Microsoft, e de algum jeito são as cidades antigas do Dreamcast que sabem se comportar. Pra tu ver.
Visualmente, mais ou menos o que eu disse se aplica a essa atualização: iluminação melhor, reflexos, mais geometria e alguns floreios de Xbox aqui e ali, sendo que esse definitivamente não é um daqueles jogos em que você olha para a geração anterior e se pergunta como a humanidade conseguiu sobreviver em condições tão primitivas. Por baixo da maquiagem, os modelos dos personagens, texturas e a arquitetura geral ainda parecem muito mais um remaster dos jogos de Dreamcast que um remake completo.
O que nem é necessariamente um problema — em Crazy Taxi tudo acontece tão rápido que você raramente tem tempo para conduzir uma análise forense da contagem de polígonos de um pedestre — mas reforça bastante a sensação de que isso é uma versão melhorada de algo que você já jogou e não um salto de geração de verdade... mesmo que tecnicamente o Xbox e o Dreamcast sejam da mesma geração. Mas que atire a primeira pedra quem não coloca instintivamente o Dreamcast competindo com o PS1/N64.
Também existem os extras que você esperaria desse tipo de pacote Greatest Hits: as pedradas do Offspring e Bad Religion retornam porque alguém estava no modo John Hammond e despesas não foram poupadas com licenciamento, enquanto Citizen Bird entra para ser a banda principal de Glitter Oasis. O mesmo vale para as propagandas, nessa época curiosa em que a gente ficava felizão de ver merchan do mundo real em jogo: foram mantidos Pizza Hut, Levi's, KFC e outros. Estranho, porém, que o jogo não usa a função de trilha sonora personalizada do Xbox, o que parece uma coisa tão feita sob medida para Crazy Taxi que não implementá-la exigiu esforço ativo.
Também tem o Crazy X, uma coleção de 25 desafios envolvendo saltos, derrapagens, entrega de passageiros e várias demonstrações de que você dominou a física cada vez mais esquisita de Crazy Taxi, mas eu nunca achei isso mais um que minigame whatever nos jogos anteriores e embora eu goste um pouco mais desse aqui... não espere lá grandes milagre também.
É whateverzinho.
E eu acho que essa é a melhor maneira de descrever Crazy Taxi 3: ele é mais uma versão melhorada de um Greatest Hits do que propriamente um jogo novo... o que é simultaneamente sua maior qualidade e seu maior defeito. Porque afinal é por isso que você compra Crazy Taxi 3: para jogar mais Crazy Taxi. Não é preciso ser um Xerox Rolmes para deduzir isso, né.
O problema é que eu já joguei Crazy Taxi o suficiente como uma experiência arcade de três minutos. Você joga uma vez, dá risada, fica YEAH YEAH YEAH YEAH YEAH e então segue com a sua vida. Como aconteceu com muitos jogos de arcade, ele foi projetado em torno de ser imediatamente divertido por alguns minutos (o que ele absolutamente é), não em torno de me dar motivos para passar minhas noites fazendo isso pelos próximos três meses.
Crazy Taxi 2 já foi meio desnecessário porque o primeiro jogo basicamente tinha esgotado tudo que eu queria daquele conceito. Crazy Taxi 3 chega depois disso e me oferece Crazy Taxi de novo, sendo que já tem outros dois dele. Cara, a gente se divertiu por três minutos uma vez em 1999 e isso era tudo que essa experiência tinha para me oferecer — o que, pensando bem, também descreve toda a minha vida sexual.
E antes que o Jorge venha aqui dizer que eu sou só um velho rabugento que gosta de chutar a Sega por diversão... o que é absolutamente verdade... aparentemente a própria Sega também não estava discordando muito de mim, não. Porque depois de Crazy Taxi 3, a série passaria os próximos vinte e cinco anos sem outro jogo novo para consoles domésticos. Tivemos ports, relançamentos, jogos portáteis, jogos para celular e várias tentativas de manter o nome vivo, mas no sentido de sentar na frente da televisão para jogar o próximo Crazy Taxi de verdade?
Nada.
Por vinte e cinco fodendos anos.
O que é um período bem longo para o mercado dar de ombros e dizer “nah, estamos de boa”... pq sério, a gente tá de boa com Crazy Taxi o bastante já.
Alias, apenas a titulo de curiosidade, na metade de 2026 agora a Sega anunciou Crazy Taxi: World Tour para 2027, então aparentemente o prazo de quarentena venceu. Tá bom. YEAH YEAH YEAH YEAH YEAHremos com vocês nesse blog daqui uns vinte anos então.
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