Diz aí se essa cena parece familiar: um cara respira fundo encostado numa parede. Confere as duas pistolas nas mãos, se prepara e então pula para dentro de uma sala cheia de bandidos — mas ele não simplesmente atira neles. Não, isso seria chato. Ao invés disso, ele desliza por cima de uma mesa enquanto esvazia os dois pentes em câmera lenta, avança até o próximo sujeito, agarra o infeliz como escudo humano, atira em mais dois por cima do ombro dele, pega a arma do pobre coitado antes mesmo de o corpo tocar o chão e continua andando. Estilhaços de vidro voam dramaticamente, a câmera faz um movimento ainda mais dramático, alguma coisa explode. Big badaboom, sim, mas um big badaboom altamente coreografado.
E se isso soa familiar, é pq deveria dado que o cineasta hong-konguês John Woo passou o fim dos anos 80 e o começo dos 90 mudando a gramática dos tiroteios no cinema. Filmes como A Better Tomorrow, The Killer e Hard Boiled não inventaram câmera lenta, tiroteios ou homens fazendo coisas fisicamente irresponsáveis enquanto seguram armas de fogo; o que Woo fez foi pegar boa parte do ritmo, da clareza espacial e da expressividade corporal associadas ao cinema de artes marciais e reconstruir o tiroteio moderno em torno disso. De repente, uma troca de tiros não era mais só sobre quem conseguia ficar atrás de um barril e derrubar o maior número possível de figurantes: os corpos se moviam pela cena, as armas trocavam de mãos, os personagens pulavam, deslizavam, rolavam e giravam enquanto a câmera acompanhava tudo. Violência virou coreografia.
Basicamente wuxia, mas tira o kung fu Shaolin e dá para todo mundo um par de .45.



























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