quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

[#1676][Out/2000] HOKUTO NO KEN: Seiki Matsukyu Seishi Densetsu

O ano é 1982, e o panorama dos mangás é bem diferente do que damos por garantido hoje. A Weekly Jump e suas contemporâneas eram dominadas por mangás de esporte — CAPTAIN TSUBASA, Touch, Kinnikuman — ou por séries de ação-cômica como Dr. Slump. A ideia de um mangá construído quase inteiramente em torno de combate corpo a corpo brutal, pose masculina exagerada e violência operística não era inexistente, mas definitivamente não era o padrão-ouro. O “shōnen de batalha”, como entendemos hoje, ainda não existia de verdade. 

E no centro desse momento de transição estava um mangaká de 21 anos chamado Tetsuo Hara, lutando para encontrar seu lugar. Hara amava filmes de kung fu — Bruce Lee em especial — e tinha uma fascinação profunda pelas artes marciais como espetáculo e como filosofia. O problema era que essa paixão não batia com o que as editoras achavam que venderia. Seu editor, seguindo a lógica do mercado, o empurrou para o que estava em alta na época — mangás de esporte. Hara aceitou, profissionalmente, se não emocionalmente, e o resultado foi Iron Don Quijote, um mangá sobre corridas de motocross que conseguiu durar exatamente dez edições antes de ser cancelado. O motivo era óbvio para todos os envolvidos: Hara sabia desenhar. Ele tinha talento. Mas seu coração não estava ali. Não de verdade.

Esse fracasso, porém, acabou sendo um ponto de virada, e não um fim. Hara se recompôs, reuniu o pouco de confiança que ainda lhe restava e voltou ao editor com um pedido: mais uma chance. Apenas um one-shot. Sem concessões. Sem seguir tendências. Só a ideia dele. Seu editor, o lendário Nobuhiko Horie, acreditava no garoto e tinha uma boa ideia de como fazer isso acontecer.  O espaço seria a Fresh Jump, uma revista paralela criada especificamente para permitir que autores iniciantes experimentassem, falhassem sem grandes consequências ou — se tivessem sorte — acertassem em cheio. 

Fresh Jump No 4, Abril de 1983

Hara tratou aquele one-shot como seu único tiro, sua única oportunidade, seu espaghetti da mamãe. Ele despejou ali tudo o que amava, sem qualquer contenção. O resultado foi uma colisão gloriosa de influências: os desertos desolados de Mad Max, a masculinidade mítica de Bruce Lee, artes marciais baseadas em versões exageradas de acupuntura, destino guiado pelas estrelas e heróis hipermasculinos que soltavam frases de efeito segundos antes de fazer seus inimigos explodirem das formas mais grotesca e criativamente possíveis. Era rídiculo. Era sincero. Era completamente insano para os padrões da Jump do início dos anos 80. E funcionou.

Assim nasceu Fist of the North Star — ou Hokuto no Ken, para os íntimos.

A reação foi imediata. Em uma semana, os escritórios da Fresh Jump estavam abarrotados de cartas de fãs. Os leitores não apenas gostaram — eles piraram com aquilo. A resposta garantiu a Hara um segundo one-shot, efetivamente uma continuação, chamada retroativamente de Fist of the North Star 2. E após isso… nada. Nenhum retorno por parte da editora. Nenhuma confirmação. Apenas silêncio. A única coisa que Hara sabia era que havia sido convocado para o prédio principal da Shueisha, para o escritório das pessoas que realmente decidiam carreiras. Naquele momento, ele não fazia ideia se estava prestes a ser promovido ou apenas demitido.


Hara caminhou até o prédio da Jump com o estômago revirado. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Será que ele tinha ido longe demais? Violento demais. Ridículo demais. Homens literalmente explodindo por causa de pontos de pressão — o que ele estava pensando? Ou pior: será que não tinha ido longe o suficiente? Será que tinha sido sem graça? A hora marcada chegou, e ele parou diante da porta do escritório, mãos suadas, coração disparado. Ele bateu.

— Entre.

A sala estava silenciosa daquele jeito tipicamente corporativo — limpa demais, parada demais. Os editores não sorriram. Também não perderam tempo.

— Tetsuo Hara — disse um deles, entrelaçando as mãos. — Você deve juntar suas coisas e desocupar sua mesa até o fim do dia.

As palavras acertaram como um soco no estômago. Então era isso. Mais um fracasso. Mais uma ideia estranha demais, extrema demais, ele demais. Como um típico japonês, Hara se curvou automaticamente, mal ouvindo a si mesmo pedir desculpas. Seus ouvidos zuniam. Ele já estava repassando mentalmente cada erro, se perguntando como explicaria aquilo a quem ainda acreditava nele.

Então o editor continuou.

— Você está dispensado da Fresh Jump.

Hara congelou.

— …Porque você está sendo transferido.

A pausa foi deliberada. Quase cruel.

Hokuto no Ken vai se tornar um mangá serializado na Weekly Shōnen Jump.

Por um segundo, Hara parou de respirar. As palavras não se encaixavam. A sala parecia irreal, como um quadro que ele ainda não tinha desenhado. Mas antes que o alívio pudesse se instalar por completo, o editor levantou um dedo.

— Mas tem uma condição.

Claro que havia.

— Você ainda é um novato — acrescentou outro editor. — Mal passou da maioridade. Então você não vai trabalhar sozinho.

Eles trocaram olhares. Daqueles que deveriam servir de aviso.

— Vamos designar um roteirista veterano para trabalhar com você. Alguém experiente. Alguém que saiba lidar com… excessos.

O primeiro editor pigarreou.

— Seu senpai pode ser um pouco… pitoresco.

A porta se abriu atrás de Hara.

Passos pesados. Calmos. Sem pressa. O tipo de caminhada que não pede permissão.
Um homem entrou na sala irradiando uma confiança perigosa — óculos escuros em ambiente fechado, um cigarro pendendo da boca, corpo de quem parecia ter saído direto de um romance policial. Ele não se apresentou de imediato. Apenas sorriu de lado.

— O nome é Yoshiyuki Oka.. — o editor começou a apresentação.

— O nome é Buronson — ele interrompeu. — Ouvi dizer que você gosta de homens que socam o destino na cara.

Os editores observaram atentamente.
Hara engoliu em seco.
E, nesse exato instante, a história de toda cultura japonesa moderna mudou para sempre.

Tetsuo Hara no centro e Buronson a direita, em uma premiação em 2015

Então sim, Hokuto no Ken talvez seja genuinamente a coisa mais absurdamente mascula que os anos 80 já produziram. E isso quer dizer alguma coisa coisa. Estamos falando da década que nos deu Conan, o Bárbaro, a queda de braço no ar em Predator e RoboCop transformando Detroit em um sarapatel de meliante. E ainda assim, colocados ao lado de Hokuto no Ken, todos eles parecem desenhos de sábado de manhã.

A ideia central é bem simples. Pegue o cenário de Mad Max: um deserto pós-apocalíptico onde a civilização colapsou e a única lei é a lei do mais forte. Agora troque o Mel Gibson — que já não era exatamente um sujeito delicado — e coloque Bruce Lee no lugar. Só que esse Bruce Lee tem dois metros de altura. E, além de apenas quebrar ossos, ele faz as pessoas literalmente explodirem ao tocar pontos de pressão. Esse é o nosso protagonista.

E, caso isso ainda não fosse suficiente, o roteirista nem tentou esconder suas influências. Ele adotou o pseudônimo “Buronson” como uma homenagem direta a Charles Bronson. Taí algo que não é sutil, definitivamente. Mas então, é assim que esse mangá rola. Quando você internaliza isso, começa a entender por que até o Rambo parece gentil perto desse monumento radioativo de testosterona.


Mas aqui está a coisa: entender a estética só te leva até metade do caminho. Porque Hokuto no Ken não se contenta em fazer de seu herói alguém absurdamente poderoso e estoico. Ele vai além. Muito além. Se Kenshiro vai ser um salvador errante e justo, então o mundo precisa de vilões tão vis, tão irremediavelmente monstruosos, que a violência dele não pareça apenas justificada — mas necessária.

E não estou falando de “mal” no sentido inofensivo de desenho animado . Estou falando de um mal elevado a níveis rídiculos. Como um vilão que obriga um pai a escolher em qual de seus bebês ele próprio terá que atirar. Como um idoso atravessando o deserto em agonia para levar à sua vila a última cumbuca de água, apenas para ser morto casualmente por um punk pós-apocalíptico porque… porque ele pode, simples assim. É, sem dúvida alguma, um péssimo universo para se ser idoso, mulher ou um pai amoroso. Os vilões torturam, massacram e brutalizam pessoas em uma escala que faria até um burocrata soviético da Guerra Fria parar e dizer: “Ok, talvez isso tenha sido demais”. E o mangá quer isso. Quanto mais descarado, mais exagerado, mais “alguém pense nas crianças!”, melhor.

Esses antagonistas não são nem personagens unidimensionais. Eles são piores. Eles são buracos negros. Não há profundidade a explorar, nem trauma a desvendar — apenas uma massa gravitacional infinita feita de crueldade. Eles existem apenas para serem destruídos, e merecem cada segundo disso. E isso, fundamentalmente, é o motor de Hokuto no Ken. Não é realismo. Não é sutileza. É extremismo moral levado a níveis operísticos, onde justiça e maldade são tão exageradas que a única resolução possível envolve punhos, destino e corpos explodindo sob o peso da justiça cósmica.

É assim que funciona.


Então sim, cerca de metade de Hokuto no Ken é sobre vilões sendo tão monstruosamente maus que sua crueldade acaba dando a volta completa e se tornando cômica de tão exagerada. E então o herói se aproxima deles. “Toca” neles — embora tocar seja uma palavra que dê a ideia errada quando estamos falando de um homem cujos dedos racham concreto como se fosse pudim — e calmamente informa que eles já estão mortos.


Alguns desses vilões riem da afirmação, embriagados pela própria arrogância. O que torna o momento ainda mais satisfatório, porque nós, leitores, já sabemos a verdade. Eles estão mortos, só ainda não perceberam. Outros reconhecem a fama lendária da escola Hokuto Shinken e imediatamente desabam em súplicas, implorando por misericórdia assim que entendem com quem estão lidando.

Nesse ponto, Kenshiro é um homem notavelmente justo. Ele concede aos inimigos exatamente a mesma misericórdia que eles ofereceram às suas vítimas indefesas.
Ou seja: nenhuma.
Omae wa mou shindeiru.

E então eles explodem. Não metaforicamente. Literalmente. Corpos se rompem, crânios estouram, órgãos saem do controle de maneiras que fariam David Cronenberg tomar notas. Esse é o Hokuto no Ken que a maioria das pessoas conhece através dos memes, a frase de efeito, o atalho cultural para uma masculinidade absurdamente violenta.

Mas aqui está a parte que frequentemente se perde na tradução.
Isso é apenas metade do mangá.

A outra metade, mais estranha e menos comentada, não é sobre pontos de pressão ou crânios implodindo. É sobre amor. Luto. Lealdade. Desejo. Porque, por mais estranho que pareça, Hokuto no Ken é uma história profundamente romântica — só que filtrada pela sensibilidade mais agressivamente masculina possível do início dos anos 80.


É romance expresso não por palavras gentis, mas por sofrimento silencioso. Por homens vagando sozinhos por desertos, carregando a memória de amores perdidos como feridas abertas. Por devoções tão absolutas que sobrevivem a apocalipses nucleares, desertificação e ao colapso completo da civilização. É um mundo onde homens choram abertamente, gritam seus sentimentos para os céus e socam o próprio destino porque essa é a única linguagem que sabem falar. É ridículo. É sincero. E, de algum modo, contra todas as probabilidades, funciona.

Então, a trama de Hokuto no Ken é — para surpresa de absolutamente ninguém — incrivelmente simples. No centro deste mundo devastado, existem duas escolas marciais supremas. De um lado, Hokuto Shinken, o Punho Divino da Estrela do Norte: a infame arte marcial de pontos de pressão que faz as pessoas explodirem de dentro para fora. Do outro, Nanto Seiken, o Punho Divino da Estrela do Sul, seu oposto filosófico, um estilo que corta a carne de fora para dentro, fatiando corpos como uma faca quente na manteiga. Este é um deserto pós-apocalíptico onde a força é lei, a misericórdia é uma vulnerabilidade e a civilização foi reduzida a assentamentos dispersos lutando pela sobrevivência. Em um mundo assim, é natural que as artes marciais mais fortes disputem o topo. Você é inteligente o suficiente para ver exatamente aonde isso vai dar.

A tensão central se constrói sozinha. Nanto Seiken é dividido entre seis estrelas sucessoras, cada uma destinada a se opor a Kenshiro ou se tornar sua aliada. Hokuto Shinken, por outro lado, permite apenas um único sucessor. Esse sucessor é Kenshiro. Infelizmente para todos os envolvidos, seus irmãos têm opiniões sobre essa decisão. Opiniões fortes e bem violentas a respeito disso.

E assim, a violência se instala.


Generais malignos fazendo coisas malignas (mesmo que, para ser justo, cerca de metade das estrelas de Nanto se revelem pessoas surpreendentemente decentes), intermináveis ​​medições de poder, Nanto versus Hokuto, Hokuto versus Hokuto — sim, sim, todos os clichês do gênero estão aqui. Isso é mais ou menos o que se espera quando alguém lhe apresenta uma épica de artes marciais pós-apocalíptica do início dos anos 80. Eu sabia que tipo de jornada me aguardava.

O que eu não imagina era o quão melodramático tudo isso se tornaria.

Tem há apenas meia duzia de lutas em todo o mangá em que o Kenshiro não simplesmente atropela seu oponente. Na imensa maioria das vezes, sequer é um desafio. Mas quando a história decide desafiá-lo, ela não faz isso pela metade. Ela vai direto ao ponto fraco. Irmão lutando contra irmão. Flashbacks da infância. Histórias de amor puras e perfeitas fadadas a tragédia desde o início. Sacrifício sobre sacrifício. Lágrimas. Muitas lágrimas.


É piegas? Sim. Extremamente.

Houve vários momentos em que precisei parar de ler apenas para encarar a página incrédulo com o quão brega tudo havia se tornado — brega a um nível que faz as novelas mexicanas parecerem filmes independentes europeus em comparação. Não estou exagerando. Isso é MUITO piegas. Então, eu quero deixar isso bem claro, eu NÃO diria que Hokuto no Ken é uma história bem escrita, com personagens profundos e complexos. De jeito nenhum. Nada poderia estar mais longe da verdade.

...Mas...

Se Hokuto no Ken não é bem escrito, e se muitas vezes é constrangedor pela forma como usa clichês emocionais tão baratos, ao menos é surpreendentemente sincero. E eu sei como isso soa estranho quando estamos falando de um mangá escrito por um homem que literalmente escolheu o pseudônimo "Buronson" para se fantasiar de Charles Bronson japonês. Mas aqui está a coisa: eu realmente acho que Buronson tem uma visão surpreendentemente saudável de masculinidade. Não progressista para os padrões modernos — não me entendam mal. As mulheres nesta história ainda são apenas enfeites, símbolos ou objetos em vez de seres humanos. Não é isso que estou defendendo aqui.


O que eu quero dizer é o seguinte: você provavelmente já ouviu a frase "homens não choram". Se você é um homem da geração Y ou mais velho, foi criado com essa doutrina. Homens não devem demonstrar sentimentos. Não em público. Nem fora dele. Disseram a você explicitamente que emoções são fraqueza, que vulnerabilidade é vergonhosa, que expressar dor é de pouco másculo. É provável que você já tenha ouvido isso. É igualmente provável que, em algum momento, você mesmo tenha repetido isso.

Eu já estive lá. Você já esteve lá. Sabemos como isso funciona.

Então, quando peguei Hokuto no Ken, o mangá mais másculo de todos os tempos, presumi que ele abraçaria completamente essa mentalidade. Um protagonista transbordando testosterona, músculos tão enormes que têm seu próprio CEP — certamente essa história trataria as emoções da maneira como a mídia dos anos 80 costumava fazer. Homens podem sentir raiva. Talvez possam murmurar "Eu a amava" com um sorriso estoico se a câmera não estiver olhando diretamente para eles. Qualquer coisa mais profunda do que isso seria proibida.

Mas Hokuto no Ken não faz isso.


Em vez disso, esses homens — verdadeiras montanhas de músculos — gritam seus sentimentos para o céu. Declaram abertamente quem amam. Lamentam. Soluçam. Choram sem vergonha, sem ironia, sem que a história jamais insinue que isso os torna fracos. Porque Buronson entende algo crucial: o ápice da masculinidade não é esconder as emoções por insegurança. É ter segurança suficiente para não se sentir ameaçado por elas. Os grandes vilões choram pelos irmãos que mataram. Guerreiros lamentam amores perdidos. Inimigos desmoronam não por serem patéticos, mas por serem humanos. E a história nunca apresenta isso como uma falha da masculinidade. Muito pelo contrário — trata a honestidade emocional como prova de força. 

E se isso não parece grande coisa hoje em dia, vale a pena lembrar o contexto.
Isso foi na década de 80.

Quase não havia nada parecido na cultura mainstream. E de repente, o mangá mais vendido no Japão estava repleto de figuras masculinas gigantescas — literalmente gigantescas — expressando abertamente tristeza, amor, arrependimento e desespero. Ensinando a toda uma geração de meninos que chorar não era sinal de fraqueza, mas uma qualidade admirável. Que a vulnerabilidade não era o oposto da masculinidade, mas sim parte dela.

E isso foi algo que eu absolutamente não esperava.

O pequeno Eichiro Oda nesse momento tomando notas para o Haki do Armamento

Não surpreendentemente, Hokuto no Ken se tornou o modelo-base do que o mangá shōnen viria a ser — e, em muitos aspectos, ainda é até hoje. Tragédia empilhada sobre tragédia. Homens realizando feitos sobre-humanos não para suprimir emoções, mas por causa delas. Força não como negação emocional, mas como excesso emocional tomando forma física.

Nos anos seguintes, a onda de impacto cultural de Hokuto no Ken gerou uma miríade de mangás que moldariam o meio, cada um refinando, corrigindo ou aprofundando as ideias brutas deixadas por HnK. Dá para argumentar que BERSERK é essencialmente um Hokuto no Ken mais literário, mais bem escrito, com personagens mais profundos e um mundo meticulosamente construído. JOJO BIZARRE ADVENTURE pega a ideia de que homens podem ser eles mesmos e a funde com uma glorificação do corpo masculino que atravessa alegremente a fronteira do homoerótico sem a menor vergonha. Saint Seiya é praticamente a versão “comercial de brinquedo” de HnK — passados trágicos, estrelas guiando o destino (um tema enorme em HnK), emoções pesando mais que poder bruto — só que com a Bandai vendendo armaduras de brinquedo (E, justiça seja feita, essas armaduras são legais pra caralho.)

Você entendeu.


Pelos padrões de hoje, Hokuto no Ken pode não parecer tão impressionante à primeira vista. Tudo o que ele tenta fazer foi iterado nos últimos quarenta anos — e feito melhor. Escrita melhor. Ritmo melhor. Personagens melhores, especialmente quando se trata de personagens femininas. Graças a Deus vivemos em um mundo onde o shōnen pode nos dar Makis e Nobaras de Jujutsu Kaizen sem piscar. Lutas melhores. Sistemas de poder melhores. Tá, não essa parte. Ainda não existe nada exatamente como o Hokuto Shinken. Eu dou isso a eles.

Mas esse não é o ponto.

O ponto é que Hokuto no Ken precisa ser entendido através da lente do seu tempo. Do quão absurdamente maior que a vida ele era para os anos 80. Do fato de que simplesmente não existia nada parecido: essas figuras colossais, hipermasculinas, gritando sobre destino, amor, luto e fraternidade enquanto socam o próprio destino na cara, da forma mais cafona possível. E de quão profundamente influente ele se tornou para todo o meio.


Na verdade, grande parte do que as pessoas querem dizer hoje quando falam “isso é tão anime” — o excesso, o melodrama, o absolutismo emocional, o senso operístico de justiça — pode ser rastreado diretamente até Hokuto no Ken

E se você não consegue entender isso…
…bem.
Omae wa mou shindeiru.

Agora, por razões contratuais com as vozes da minha cabeça, eu suponho que sou legalmente obrigado a falar um pouco do jogo de PS1 lançado em 2000. E por "um pouco" eu quero dizer meio que isso mesmo, pq não tem tanto assim o que falar dele: esse é um daqueles jogos que funcionam mais como "item de colecionador" do que como um jogo por si só. Você sabe, jogos como MOBILE SUIT GUNDAM ou ULTRAMAN FIGHTING EVOLUTION, jogos que tem mais valor pelos extras e pra ter na estante da sua coleção do que como videogame.


No caso de SMSD, o destaque aqui é que o jogo reconta basicamente toda história do manga, com vários dubladores do anime clássico reprisando seus papeis. Ver algumas das cenas mais iconicas de Hokuto no Ken animadas pelos gráficos do fim da vida do PS1 - o que, para quem só tinha um PS1 no ano 2000, não deixava de ser alguma coisa. E eu não posso dizer que o jogo falha nisso, pq ouvir o iconico ATATATATATATATATA do Kenshiro enquanto toca Ai wo Torimodose nunca vai ser não legal. Esse definitivamente é o valor do jogo.

Pq visto fora desse prisma... ele tem bem pouco a oferecer, eu temo. É um beat'm up extremamente básico ao ponto do ridículo, e embora vc tenha uma variedade decente de movimentos (especialmente pq vc joga com outros personagens, como Toki ou Rei, cada um com seus próprios movimentos), a IA dos inimigos é essencialmente não existente e vc sente que soca os mesmos bonecos repetidamente por umas cinco horas. Não é pavoroso, mas definitivamente alguém que não é super fã do material base sequer pensaria meio segundo nisso.

Inclusive pq o que esse jogo faz de diferente é altamente questionável. Além de socar e chutar os inimigos ao som de muitos ATATATATATATATATA, os inimigos exibem frames de vulnerabilidade (brilhando) onde vc se forem atingidos eles explodem Hokuto Shinkeniamente se forem minions, ou então abrem um minigame de quick time event onde se vc acertar a sequencia de comandos ele não apenas explode, mas causa dano a todos inimigos em um raio.


Maneiro, né? Bem, sim. Para os inimigos bucha. Pq para os chefes, esses frames de vulnerabilidade são sua principal forma de causar dano a eles, o resto é essencialmente chip damage. O que não seria muito um problema, não fosse o fato que o Quick Time Event é MUITO ferrado, e vc vai ter que tentar várias vezes até memorizar a sequencia de botões (cada inimigo tem a sua fixa). Isso leva a um loop de gameplay bem chatinho: vc espera uma janela de vulnerabilidade, acerta um hit (se acertar) e entra no minigame, o qual precisa repetir algumas vezes pq vc absolutamente não vai acertar o QTE de primeira... nem de segunda... ou de terceira. 

É fazível? Sim, é. 
É divertido? Absolutamente fucking não.

E só para garantir que sua paciência seja testada, o jogo se recusa a permitir que você pule as cutsenes de jeito nenhum. O que significa que cada falha, cada nova tentativa, cada loading é preenchido com sequências de história que você já viu e que não podem ser puladas. Nesse ponto, fica dolorosamente claro que este "jogo" está muito mais interessado em ser um resumo levemente interativo de Hokuto no Ken do que em ser um videogame de verdade.


O que nos leva de volta ao início: SMSD não foi feito para ser jogado. Ele foi feito para ser experimentado, de preferência uma vez, de preferência por um fã, de preferência com um controle na mão, mas com as expectativas zero além de "parecer Hokuto no Ken". Como item de colecionador de Hokuto no Ken, ele tem valor. Como um beat 'em up? É melhor você simplesmente ler o manga ou assistir o anime enquanto sussurra "omae wa mou shindeiru" para si mesmo. O efeito é praticamente o mesmo — apenas menos frustrante.

MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 162 (Abril de 2001)


MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 085 (Abril de 2001)