segunda-feira, 20 de setembro de 2021

[SNES] HAGANE: The Final Conflict (Junho de 1995) [#761]


O famoso satírico Jonathan Swift observou certa vez: "A falsidade voa e a verdade vem mancando atrás dela ...". No reino dos jogos clássicos, não consigo pensar em nenhum exemplo mais claro dessa máxima em ação do que "Hagane: O Conflito Final" para o Super Nintendo. 

Vamos começar do começo, cerca de uma década atrás uma história de fonte obscura começou a circular na internet de que este modesto jogo de ação de 1994 era na verdade um título exclusivo para locação da Blockbuster, e portanto bastante raro. Alguns jogos, de fato, foram lançados nos Estados Unidos apenas como locaveis na rede de videolocadoras Blockbuster, não estando disponivel para compra nas lojas. THE REN & STIMPY SHOW: Fire Dogs é um exemplo disso.


Então se começou um rumor que Hagane era um desses jogos exclusivos da Blockbuster, e portanto raro. Como resultado, os preços dos cartuchos Hagane dispararam da faixa de US $ 20 a US $ 40 para US $500 e acima. Atualmente o jogo pode ser encontrado por volta de 1000 dolares, preço de saída no ebay.

Você provavelmente já imagina onde isso vai parar. Isso mesmo: não existe há nenhuma prova de que Hagane foi alguma vez associada ao Blockbuster Video. Além do mais, o cana SNESdrunk apresentou muitas evidências de que esse jogo foi, na verdade, um lançamento de varejo normal. 

Não dá pra afirmar se o mito da Blockbuster começou como um erro inocente ou uma tentativa de manipular o mercado de colecionadores, mas sei que mais de uma decada dessa história rolando significam que esses preços não vão mudar em breve, é comum uma edição fisica de Hagane ser vendido a mais de 1500 doletas.

Mas que jogo é esse, afinal?


Bem, "O conflito final" do título é entre dois clãs ninja secretos. Os Fuma são guerreiros místicos encarregados de proteger o Santo Graal. Seus inimigos são os malvados Koma, que sonham em usar o poder ilimitado do Graal para destruir o mundo. Um ataque traiçoeiro dos Koma resulta no roubo do Graal, mas eles cometem o erro fatal de deixar um guerreiro do clã Fuma vivo. Este ninja gravemente ferido, Hagane, tem seu cérebro transplantado para um corpo ciborgue para se vingar dos Koma e recuperar o Graal antes que seja tarde demais. Ninja RoboCop em busca do Santo Graal? Videogames são realmente uma coisa maravilhosa.

A missão de Hagane compreende dezenove fases distribuídas em cinco capítulos. Trata-se essencialmente de um run'n gun bem aos moldes de STRIDERX-KALIBER 2097 ou RUN SABER. Vá pra direita, elimine tudo em seu caminho, buracos não são um grande obstáculo no level design.


Só que diferente desses jogos citados, esse é um jogo em que o herói do título tem uma seleção incrivelmente ampla de movimentos e ataques à sua disposição. Movimentos e ataques demais, pra ser honesto. Hagane tem quatro armas principais que ele pode alternar a qualquer momento: uma espada, shuriken, bombas e uma corrente. Hagane também vem equipado com um ataque de superbomba de uso limitado que lembra CONTRA III: THE ALIEN WARS que ataca tudo na tela e geralmente é melhor guardado para chefes (já que os ataques podem ser destruídos, e chefes tendem a fazer bullet hells).

Mas isso não é tudo! O sempre versátil ninja de metal também pode atacar com chutes e escorregões no chão, agarrar-se a tetos, ricochetear em paredes, executar um tipo estranho de salto duplo rolante que cobre grandes distâncias horizontalmente e realizar uma variedade de ataques em conjunto com os flips para trás e para a frente. Ufa, pelo menos eles não deixaram todos aqueles seis botões no controle serem desperdiçados, heim?


O primeiro passo aqui é ter uma ideia de quais desses movimentos você vai usar constantemente e quais você pode ignorar sem medo. A espada e o shuriken (ou shurikin, como diz a Ação Games) acabaram sendo minhas armas principais (com as bombas em um distante terceiro lugar devido a baixa quantidade) e o salto duplo giratório provou ser a ferramenta de mobilidade mais vital de longe. A corrente, chute com pulo, deslize, ataques com flip e o resto acabaram sendo altamente situacionais ou completamente esquecidos.

Ignorar a maior parte dos movimentos e se focar em uma pequena seleção de movimentos mais eficientes o mais rápido possível ajuda muito a reduzir a dificuldade monstruosa do jogo... mas não muito. Hagane tem a reputação de ser um dos jogos mais dificeis do SNES, e não está realmente errado.


Embora haja alguns que eu pessoalmente classificaria mais alto nesse aspecto (sim, JIM POWER: THE LOST DIMENSION IN 3-D, estou olhando pra vc), certamente não é mais fácil do que um NINJA GAIDEN da vida. De longe, o maior problema desse jogo é a barra de vida minguada de Hagane. Para um cara feito de metal, você esperaria que ele fosse capaz de resistir a mais de três golpes. Itens de cura e power ups que aumentam a barra para 5 hits ajudam um pouco, mas você ainda não pode contar com a possibilidade de cometer muitos erros. Você recebe continues ilimitados, pelo menos, embora esgotar as vidas te voltar no início do capítulo, em vez de no estágio exato em que morreu.

Então tirando um esquema de controle um tanto exagerado e uma dificuldade acima do que o bom senso recomendaria... bem, se vc conseguir transcender esses dois grandes fatores Hagane entrega o tipo de experiência que seu público-alvo poderia esperar. Combina design de nível e posicionamento de inimigos que se sentiriam a vontade um dos jogos SHINOBI, o sistema de armas e a recursos do NINJA GAIDEN, movimento que lembra o STRIDER da Capcom, e alguns toques extras inspirados por CONTRA III: THE ALIEN WARS como a fase onde Hagane deve escapar de uma nave caindo enquanto ela gira em torno dele, cortesia do icônico efeito de rotação de fundo do Modo 7 do console.

Toda esse combo de jogabilidade é reforçado por um design de arte interessante. Cada detalhe do futuro cyberpunk japonês medieval em exibição aqui é convincente, desde os pistões gêmeos esculpidos nas formas de Budas que dão energia ao Hagane na cutscene de abertura até o maior dos chefes robos ostentando máscaras de teatro Noh. A arte conceitual desse jogo, considerando os limites do Super Nintendo, é um cyberpunk de qualidade.


Então Hagane é um jogo decente. Poderia ser melhor se não fosse os controles e a dificuldade completamente desamigavel, mas vale um fim de semana de aluguel se vc estiver muito afim de jogar um ninja gaiden-like da vida. Eu achei interessante como ele é um monstrengo de Frankenstein costurado a partir de pedaços de grandes jogos ninja do passado. A soma das partes não é igual ao todo, e provavelmente vc preferiria estar jogando o Shinobi ou Ninja Gaiden original, mas não é ruim.

Suponho que esse jogo poderia usar alguma continuação para refinar os controles (especialmente escolher apenas alguns deles para ficar), e fazer uma dificuldade mais palatavel, no entanto, os desenvolvedores na CAProduction estavan muito ocupados trabalhando como escravos em todos os jogos de Mario Party até hoje. 

Enfim, Hagane é jogavel mas não grandioso. Vale os $ 1500 ou mais que se encontra na revenda? Nem ferrando em nenhuma realidade do multiverso. Mas horrível não é.

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