sexta-feira, 1 de maio de 2026

[#1728][Nov/2001] HARRY POTTER AND THE SORCERER'S STONE

Certo, então… Harry Potter.

Tá, eu tenho que começar falando que eu não gosto realmente de falar sobre Harry Potter. Existe um certo constrangimento em elogiá-lo agora, e a maioria das pessoas já sabe por quê. Se você não sabe, aqui vai o resumo: sua autora, J. K. Rowling, passou anos fazendo declarações públicas que muitas pessoas — eu inclusive — consideram, no mínimo, profundamente desconfortáveis. Eu não vou fingir que isso não projeta uma longa sombra sobre a obra, porque projeta sim. É difícil separar o autor da obra, e é mais dificil ainda a ideia de dar dinheiro pra ela pq é como estar financiando isso, mesmo que uma obra desse tamanho tenha literalmente milhares de outras pessoas envolvidas que não tem nada haver com a Rowling sendo babaca.

Por que ela escolheu reforçar posições que dificultam a vida de um grupo que já lida com hostilidade mais do que suficiente… eu não sei. Não vou tentar psicanalisar. O que eu sei é que Harry Potter já não é apenas uma série de livros — é algo que vem com bagagem, e interagir com ela exige um longo suspiro incomodado. Dito isso, se vamos falar sobre essa coisa honestamente, então também temos que reconhecer o que ela foi — o que ela fez. Então vamos logo com isso que quanto mais rápido eu começar, mais rápido eu termino.

Sabe, eu cresci em um mundo muito, muito diferente do que vivemos hoje. 


Hoje, mesmo as pessoas que não leem muito tendem a concordar que ler faz bem. É visto como algo positivo — saudável, até admirável. Mas... esse não era o ambiente em que eu cresci. Naquela época, ler por prazer não era apenas "uncool" — era suicídio social. Era o tipo de coisa que colocava um alvo nas suas costas. Um farol para bullying. Você era "o esquisito". O nerd. A piada fácil.

É engraçado, de certa forma. Hoje, as pessoas vão às redes sociais declarar em alto e bom som que não assistem reality shows ou que não ouvem determinados tipos de música, como forma de sinalizar bom gosto ou superioridade. Naquela época, a leitura ocupava esse mesmo espaço cultural — mas invertido. Em vez de ser um distintivo de refinamento, era uma marca de fracasso social.

E então… algo mudou.
Quase da noite para o dia, ler se tornou maneiro.

De repente, as mesmas crianças que zombavam de você por carregar um livro estavam fazendo fila por horas para conseguir um. Bibliotecas e livrarias tinham eventos de lançamento à meia-noite como se fossem filas de shows ou lançamentos de games. Se você não estivesse lendo, você era um troglodita, um poliglota. A dinâmica social virou de cabeça para baixo tão rápido que parecia surreal. Eu lembro claramente de estar no ensino médio quando isso aconteceu, apenas observando aquilo se desenrolar e pensando: "…Peraí. Ler é legal agora?"

Pois é. Foi estranho.

E o livro que desencadeou essa mudança foi Harry Potter e a Pedra Filosofal — ou Harry Potter e a Pedra do Feiticeiro nos EUA, porque diz muito sobre o nível cultural americano que o mercado decidu que provavelmente as crianças vomitariam de nojo antes de tocar em alguma coisa com uma palavra relacionada a "filosofia" na capa.

Mas… por que este livro? Por que especificamente esta história em particular mudou o mundo?
E é aqui que as coisas ficam interessantes, porque a resposta não é simples. É uma mistura de qualidade literária verdadeira, timing perfeito e uma jogada de marketing muito inteligente ao mesmo tempo que acidental.


Harry Potter e a Pedra Filosofal foi publicado pela primeira vez em junho de 1997 pela editora Bloomsbury, no Reino Unido. E, considerando o que sabemos que essa série viria a se tornar, é bem obvio que vc poderia esperar um lançamento explosivo — sucesso instantâneo de vendas, filas enormes, esse tipo de coisa.

E vc estaria completamente errado.

A tiragem inicial foi bem pequena: cerca de 500 exemplares, com aproximadamente 300 destinados diretamente a bibliotecas. O livro não foi tratado como a próxima grande novidade — era apenas mais um livro infantil tentando encontrar espaço nas prateleiras. E mesmo isso era meio que um problema, pq... onde, exatamente, vc coloca algo assim? É mais longo e mais sombrio do que os típicos livros para leitores iniciantes, mas ainda trata de uma criança descobrindo a magia. Muito infantil para a seção  de romances, muito complexo para livros infantis. Meio que não existia uma prateleira nas livrarias entre Thomas a Locomotiva e as Cronicas de Narnia. Passou a existir por causa de Harry Potter, mas estou me adiantando.

O ponto é que não havia a sensação de que algo fora do normal estivesse acontecendo.
Até que algo começou a mudar.

O livro começou a ganhar força através do boca a boca e, especialmente, na imprensa escocesa. As primeiras resenhas na Escócia foram surpreendentemente positivas, especialmente para uma estreia de uma autora desconhecida como J. K. Rowling. O The Scotsman o chamou de “um thriller extremamente divertido”, enquanto o The Herald afirmou que ainda não havia encontrado uma criança que conseguisse largá-lo. Logo, o burburinho se espalhou para o resto da Grã-Bretanha. Grandes veículos como The Guardian e The Sunday Times publicaram reviews favoraveis, acrescentando seus próprios endossos. E então vieram os prêmios. O livro não apenas ganhou — ele varreu todos. O livro ganhou o Prêmio Nestlé Smarties em 1997 e também o Prêmio Britânico de Livro Infantil do Ano. Mais importante ainda, no ano seguinte, o livro conquistou quase todos os principais prêmios britânicos de literatura infantil votados por crianças — um endosso que importa muito mais do que a opinião dos adultos.

Então, sim, no final da década de 90, A Pedra Filosofal havia se tornado um grande sucesso na literatura infantil britânica. Um grande feito, sem dúvida.
Mas não tão grande assim.
Ainda não.

Entra em cena Arthur A. Levine, um representante da Scholastic Corporation, que descobriu o livro na Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália. Segundo Levine, ele leu o manuscrito e imediatamente viu seu potencial para o mercado americano. Essa parte não é incomum — identificar livros promissores é literalmente o trabalho dele. O que foi incomum foi o que aconteceu em seguida.

Fila para lançamento a meia noite de um livro, taí uma coisa que não existia antes

A Scholastic comprou os direitos de publicação nos Estados Unidos em um leilão, pagando US$ 105.000 — aproximadamente dez vezes o adiantamento típico para um livro infantil na época. Lembre-se de que isso foi em 1997: livros infantis ainda eram... bem, livros infantis, do tipo que tinha uma pilha na escola e ninguém dava bola. Adaptações cinematográficas, impérios de produtos licenciados e franquias bilionárias não faziam parte da discussão. Ninguém mal gastava cinco dígitos em um romance de fantasia infantil, imagina seis. E, intencionalmente ou não, esse valor se tornou parte importante da história. O valor do acordo em si virou notícia, as manchetes se perguntando: por que diabos uma editora americana pagaria tanto por um livro infantil britânico? Se ele valia tudo aquilo, as pessoas queriam saber por quê.

Ao mesmo tempo, outra narrativa estava se formando — uma que se mostrou igualmente poderosa. A história de J. K. Rowling como uma mãe solteira batalhadora, escrevendo em cafés e viagens de trem, fazendo anotações em guardanapos enquanto embalava o carrinho de bebê da sua filha mal tendo dinheiro para o aluguel. É uma imagem forte, mesmo que um... tanto... romantizada, mas inegavelmente forte. As pessoas não gostam apenas de boas histórias — elas gostam de boas histórias sobre histórias.

E assim, a bola de neve começou a rolar.
Primeiro, era um livro interessante.
Depois, tornou-se um livro comentado.
Em seguida, tornou-se leitura obrigatória.

A partir daí, o crescimento foi exponencial. O boca a boca, a repercussão nas escolas, a cobertura da mídia, o impulso nas livrarias — tudo se retroalimentou. O livro certo, na hora certa, com a história certa por trás.

Mas aqui está o ponto — e esta parte importa.
Nada disso teria durado se o próprio livro não funcionasse.

O marketing pode abrir portas. Pode fazer com que as pessoas olhem. Mas não consegue fazer com que milhões de leitores se importem, virem as páginas e depois recomendem o livro para todos os seus amigos. Então, sim, o timing foi importante. O marketing foi importante. A mitologia foi importante.

Mas, no fundo, ainda precisava ter um livro que as pessoas realmente quisessem ler.
E é aí que as coisas ficam curiosas — porque quando você deixa de lado o fenômeno, a euforia, o evento cultural… o que resta é Harry Potter como história. E isso é uma discussão bem diferente.

Então a pergunta de literalmente um bilhão de dólares: e aí, Harry Potter e a Pedra Filosofal é realmente tão bom assim pra justificar isso tudo?

Hmm... essa é uma pergunta mais difícil de responder em 2026 do que deveria ser, e isso por dois motivos bem específicos. Primeiro, a magnitude do império Harry Potter projeta uma sombra enorme que eclipsa tudo. Quando algo se torna tão gigantesco — gerando filmes, parques temáticos, impérios de produtos licenciados e bilhões de dólares — as pessoas esperam que o livro original seja um milagre literário que cura o câncer e faz atingir o nirvana de quem lê. Spoiler: não faz nenhuma dessas coisas.


Em segundo lugar, como eu já tinha comentado, a própria J.K. Rowling se tornou uma figura profundamente antipática para muitos leitores (para dizer o mínimo). Suas declarações públicas e comportamento online são como Dementador, sugando grande parte da boa vontade e nostalgia da série para uma grande parcela do público. É difícil separar a obra do artista quando o artista continua lembrando você de sua presença das piores maneiras possíveis. Farei o meu melhor para julgar o livro por seus próprios méritos, mas não existe analise perfeitamente neutra — e acreditem ou não, eu ainda sou apenas humano. Chocante, eu sei.

Isso sendo dito, Harry Potter e a Pedra Filosofal é… bom.

Não é uma obra-prima impecável, nem um épico da literatura infantil como As Crônicas de Nárnia ou Fronteiras do Universo em seus melhores momentos, mas é sólido e agradável. Mais importante ainda, foi excepcionalmente bem escrito em uma época em que fantasia infantil "sólida e boa" era mais rara do que as pessoas lembram. Embora certamente existissem livros infantis decentes na década de 90, é realmente difícil citar muitos que fossem melhor escritos, mais atmosféricos ou mais envolventes emocionalmente do que este para seu público-alvo.

No entanto, se olharmos para ele com um olhar frio, adulto e cínico, a fórmula dificilmente é inovadora. Segue um modelo clássico — quase clichê — de wish fulfilling:

Você tem um órfão cruelmente maltratado por seus terríveis parentes (os Dursleys), o que gera instantaneamente simpatia automática. Mesmo que a personalidade de Harry seja tão interessante quanto papelão molhado, sua situação miserável faz você torcer pelo "Menino Que Sobreviveu".

Então vem a fantasia de poder: o garoto oprimido descobre que não é apenas especial — ele é o mais escolhido de todos os tempos. Ele é o bruxo que, quando bebê, de alguma forma derrotou o bruxo das trevas mais maligno da história simplesmente por existir. Ele não é um gênio como Hermione, mas tem um talento ímpar para a magia que realmente importa para a ação. Ele também é ridiculamente rico (graças ao cofre de seus pais em Gringotes). Ele recebe a vassoura mais legal do mercado. Ele herda uma capa da invisibilidade que não só é poderosa demais para um garoto de onze anos, mas que mais tarde se revela ser uma das lendárias Relíquias da Morte — entre os artefatos mágicos mais raros e poderosos que existem.


Além de tudo isso, ele se revela um jogador de quadribol naturalmente brilhante — o apanhador mais jovem em um século — em um esporte cujas regras (horrorosas) foram deliberadamente escritas para ele ser o maior protagonista que jamais protagonizou. E, claro, ele e seus dois amigos conseguem resolver um elaborado desafio final destinado a deter poderosos bruxos das trevas adultos. Porque, aparentemente, é isso que crianças de apenas onze anos fazem.

Lendo como adulto, os elementos de realização de desejos chegam a ser rídiculo. Se me dissessem que tem um capítulo em que o Harry começa a voar por aí e a disparar lasers pelos olhos enquanto resolve a fome mundial, eu acreditaria.

Os vilões sofrem de uma simplicidade semelhante. Os caras maus são irremediavelmente cruéis, muitas vezes sem nenhum motivo mais profundo além de "porque são maus". Voldemort é essencialmente uma representação caricata do fascismo e do nazismo (completo com uma obsessão pela pureza do sangue), só que com uma varinha em vez de uma Luger. Seu jovem equivalente, Draco Malfoy — o rival designado de Harry — é um garoto rico mimado e arrogante, com praticamente zero qualidades redentoras neste primeiro livro. Até mesmo o famoso sistema de casas de Hogwarts, a coisa pela qual o universo de HP é mais lembrado, é surpreendentemente unidimensional aqui. Em A Pedra Filosofal, a seleção é apresentada de forma muito simples: os Grifinórios são os heróis corajosos e nobres; os Sonserinos são os ambiciosos e essencialmente vilões em treinamento (o tipo de criança que provavelmente vai crescer para ter suas próprias ilhas de Epstein no futuro); os Corvinais são nerds arrogantes que quase não aparecem; e os Lufa-Lufas… bem, se você consegue descobrir o que os define, então vc é um leitor melhor que eu.

É verdade que Rowling mais tarde tornou essas divisões mais complexas (especialmente a partir de A Ordem da Fênix), humanizando alguns Sonserinos e abordando as falhas da seleção. Existe até um trecho posterior nos livros em que a Hermione comenta que faria sentido ela pertencer à Corvinal, mas claramente a Rowling colocou ela na Grifinória por conveniência da trama. De qualquer forma, o meu ponto é que nesse livro tudo meio que parece bastante simplista e “inventado conforme vai escrevendo”, com muitas regras parecendo arbitrárias.

Dito isso, eu estou ciente que esta é uma analise essencialmente adulta e cínica. Porém essa mesma abordagem puramente fria e analítica não é totalmente deletéria ao livro, que tem sim seus méritos. E o primeiro aspecto inegavelmente forte de Harry Potter e a Pedra Filosofal é sua narrativa excepcionalmente organizada e bem estruturada.


Pode-se criticar (e eu acabei de fazer isso) como suas ideias não são exatamente revolucionárias, mas estruturalmente o livro é uma máquina bem lubrificada. Todas as batidas narrativas estão onde elas precisam estar. Os riscos são claros desde o começo, o mistério central é fácil de acompanhar sem parecer simplista demais, e o objetivo do antagonista — uma vez revelado — faz sentido dentro da lógica da história. Até mesmo a reviravolta com Quirrell é plantada na medida certa. O livro deixa claro, mais de uma vez, que Severus Snape parece ser o vilão óbvio, enquanto sutilmente direciona sua atenção para outro lugar. Ele mesmo até diz isso textualmente — "Snape faz bem o tipo, não é?" — que é basicamente a história piscando para você.

O ritmo é excelente. A narrativa avança rapido, mas nunca parece apressada. Cada capítulo introduz algo novo — seja uma peça do mistério ou um novo aspecto do mundo — então sempre tem alguma coisa para ver. As cenas de ação são claras e fáceis de visualizar, sem se tornarem simplistas ou confusas. Não é uma escrita extravagante, mas é uma escrita eficaz. E isso é mais difícil de conseguir do que parece, acredite.

É verdade que o desenvolvimento dos personagens é limitado, e a maioria do elenco se baseia em arquétipos bastante básicos nesta fase. Harry, Rony, Hermione — eles são simpáticos, mas não são particularmente profundos. Mas, em vez de compensar com psicologia complexa, o livro se concentra em algo completamente diferente.

E não — não é exatamente a construção do mundo.


Isso pode soar estranho, porque as pessoas adoram falar sobre a "riqueza" do mundo bruxo. Mas, se você observar com atenção, muita coisa é claramente inventada conforme a história se desenrola. As regras nem sempre são consistentes e, se você parar para pensar demais em certos aspectos — como por que os bruxos se esforçam tanto para se esconder dos trouxas, apesar de se importarem tão pouco com eles —, a narrativa começa a fazer água. 

Então, se não é uma construção de mundo meticulosa, de onde vem essa sensação de "magia"? Do tom.
Mais especificamente: do humor britânico.

Ao ler Harry Potter e a Pedra Filosofal, o que realmente dá vida ao mundo bruxo é a maneira seca, discreta e impassível com que os personagens lidam com as situações mais bizarras e perigosas como se fossem perfeitamente normais. É o equivalente literário a descrever o caos apocalíptico enquanto se toma chá calmamente e se reclama dos biscoitos. Esse estilo deve muito às tradições cômicas britânicas — é possível sentir ecos de Douglas Adams, Terry Prachet e até mesmo Monty Python. Obviamente que a Rowling não escreve tão bem quanto esses caras, mas dá pra sentir que eles vieram sim do mesmo caldeirão cultural.

Um exemplo perfeito logo no início é quando os gêmeos Weasley explicam o Quadribol para Harry. Eles o tranquilizam casualmente: “Não é tão perigoso quanto parece — as pessoas quase nunca morrem jogando hoje em dia… na maioria das vezes. Bem, algumas desaparecem e reaparecem meses depois sem memória, mas não tem nada com que se preocupar realmente.” Essa mistura de corriqueiro, humor negro e indiferença absurda é puro suco de humor britânico e permeia todo o livro.


Você vê isso em todos os lugares: escadas que se movem e mudam de direção "porque querem", retratos que se recusam a ficar em suas molduras porque quem gostaria de ficar parado o dia todo?, e a sensação geral de caos lúdico do castelo. Até mesmo os personagens incorporam esse tom. Dumbledore faz avisos terríveis sobre mortes horríveis com uma calma paternal. Hermione, sempre pragmática, se preocupa que eles possam sofrer uma morte horrível e dolorosa... ou, pior ainda, serem expulsos.

Muitas pessoas não associam imediatamente Harry Potter ao espírito irreverente do Monty Python, mas essa sensibilidade britânica seca e ligeiramente absurda é precisamente de onde se origina grande parte do charme e da "magia" do livro. Ela faz com que o mundo bruxo pareça caprichoso, excêntrico e estranhamente vivo de uma forma que uma consistência lógica cuidadosa jamais conseguiria. E neste primeiro livro, esse humor funciona maravilhosamente.

No fim das contas, Harry Potter e a Pedra Filosofal não é a obra-prima revolucionária que seus fãs mais fervorosos afirmam, nem a bobagem superestimada que seus críticos mais severos consideram. É, simplesmente, uma história de aventura infantil muito bem executada que por acaso atingiu o ápice cultural exatamente no momento certo.

Sua maior força reside não em temas profundos ou originalidade inovadora, mas em sua notável capacidade de fazer o leitor sentir a maravilha de descobrir a magia pela primeira vez. O livro compreende, em um nível muito instintivo, o profundo anseio infantil de ouvir que o mundo é muito mais interessante, muito mais misterioso e muito mais gentil com os solitários e os excluídos do que parece. Esse núcleo emocional — a ideia de que em algum lugar, alguém está esperando para lhe dizer que você é especial, que você pertence a algum lugar e que sua vida pode ser extraordinária — é o que realmente impulsiona a história, muito mais do que qualquer reviravolta inteligente na trama ou elemento do folclore mundial.


A competência estrutural, o humor britânico peculiar, a atmosfera vívida e as amizades simples, porém eficazes, entre Harry, Ron e Hermione se unem para criar algo que parece maior que a soma de suas partes. Pode ser wish fulfilmente disfarçada de bruxo, mas é um wish fulfilling excepcionalmente bem elaborada.

É algo que resiste ao escrutínio de um adulto em 2026? Hmm, questionável.
Os elementos de fantasia de poder são ridiculamente exagerados, os vilões unidimensionais e a construção do mundo, instável. A bagagem cultural que envolve seu autor também tornou mais difícil para muitos revisitarem a obra com alegria pura e genuína.

E, no entanto… para milhões de crianças (e ex-crianças), este livro foi uma verdadeira porta de entrada para a leitura. Fez com que crianças leitoras se sentissem legais, transformou bibliotecas em lugares empolgantes e criou uma linguagem cultural compartilhada que cruzou fronteiras e gerações. Essa conquista é algo que dificilmente veremos acontecer novamente e não pode ser descartada levianamente, por mais complicadas que as coisas tenham se tornado.

Então, veredito final?

Harry Potter e a Pedra Filosofal é um livro muito bem feito que se tornou um fenômeno único em uma geração. Não é perfeito. Não vai curar o câncer ou reescrever as regras da literatura. Mas por um verão mágico — e por muitos verões depois — fez toda uma geração acreditar em magia, em amizade e no poder de virar a página.

E cá entre nós, isso quer dizer alguma coisa.


E agora que basicamente escrevi um pequeno livro sobre um livro de tamanho médio, vamos falar rapidamente sobre o motivo de estarmos realmente aqui: o jogo licenciado de Harry Potter e a Pedra Filosofal para PlayStation. 

Então… o que é esse jogo, afinal?

Bem, a resposta curta é: é exatamente o que as crianças queriam de um jogo do Harry Potter, filtrado pelo que um título licenciado apressado nos dias finais do PlayStation 1 conseguia realisticamente entregar. O que significa: 

Você anda por Hogwarts — yay!
Você lança feitiços — yay!
Você conhece uma das versões mais amaldiçoadas do Hagrid já renderizadas em polígonos — …yay?


Mas é assim que ele funciona na prática: você explora Hogwarts como uma espécie de hub semiaberto. Não é totalmente livre — você não vai aonde quer — mas o castelo é estruturado de um jeito que te dá um pouco de espaço para respirar. Pense menos como um mundo aberto de verdade e mais como espaços de plataforma 3D interconectados. Você se move entre áreas seguindo objetivos de missão vagamente inspirados na adaptação cinematográfica de Harry Potter e a Pedra Filosofal: vá para o salão comunal da Grifinória, assista à aula de Poções nas masmorras, saia para as aulas de voo nas vassouras e nunca questione como apoiar todo o peso do seu corpo em uma vassoura entre suas pernas funciona para a anatomia dos meninos… a rotina escolar de sempre.

Só que, claro, estamos em Hogwarts, onde a infraestrutura básica aparentemente também conta como uma violação de todas as normas de segurança conhecidas pelo homem. Então, em vez de simplesmente andar até a aula como um ser humano normal, você escala estantes, pula por plataformas móveis, desvia de perigos e, no geral, arrisca a vida para comparecer ao que deveria ser um dia comum de escola. Eu realmente me pergunto que tipo de conversa rola nas reuniões de pais e mestres do mundo bruxo.

Agora, para crédito do jogo: os controles são surpreendentemente bons. Aliás, corrijo: são realmente bons para um jogo de plataforma 3D da era do PS1. O movimento com o analógico é suave, responsivo e muito mais preciso do que se esperaria de um jogo licenciado desse tipo. Isso por si só já o coloca acima de muitos concorrentes contemporâneos. Então, kudos onde kudos são devidos: a Argonaut Games sabia o que estava fazendo no nível técnico.


O combate é básico, mas funcional. Você trava a mira nos inimigos com R1 e dispara feitiços — principalmente Flipendo, que se tornou o "projétil mágico" padrão do jogo. É engraçado porque não é bem isso que esse feitiço faz, mas então eu entendo que a Argonaut estava fazendo um jogo licenciado, eles mal tinham tempo para ir no banheiro, quanto mais pesquisar a lore do grimório bruxo.

Mecanicamente, lembra muito o sistema de mira popularizado por LEGEND OF ZELDA: Ocarina of Time, The. E sim, elogiar um jogo de 2001 por seguir um modelo estabelecido em 1998 pode soar como um elogio fraco… mas considerando quantos jogos não conseguiram acertar nem isso, honestamente já é uma vitória, né não DRACONUS: Cult of the Wyrm?

Depois de navegar por Hogwarts e alcançar seus objetivos — o que, apropriadamente, muitas vezes parece mais sobreviver ao lugar — você geralmente é recompensado com um minigame. Eles variam de desafios de memória a tarefas de ritmo e sequências de voo de vassoura onde você passa por dentro de anéis. O que, obviamente, me deu flashbacks do Vietnã de SUPERMAN: The New Superman Adventures, não se preocupe — isso não chega nem perto daquele horror. O voo aqui é muito mais indulgente. Você pode cometer erros sem que o jogo te trate como se você tivesse ofendido pessoalmente as mães dos desenvolvedores.

E sim, a essa altura você provavelmente já percebeu o padrão.


Pedra Filosofal no PS1 não faz nada particularmente ambicioso. Não há mecânica inovadora, nenhuma reinterpretação ousada do material original. Você anda por Hogwarts, lança feitiços, joga minigames, interage com personagens conhecidos. Só isso.

É limitado? Claro. É o esqueleto mais básico de um videogame.

Mas — e isso é importante — o jogo executa esse básico bem. A movimentação é gostosa. A estrutura faz sentido. A apresentação, embora datada, captura o suficiente da atmosfera. É até totalmente dublado, com atores tentando se assemelhar ao elenco dos filmes, o que era algo bem significativo para um jogo licenciado na época. Além disso, o contexto importa. Este foi um lançamento do PS1 no final de 2001. Naquele ponto, o console já estava respirando por aparelhos, e o público-alvo — crianças que amavam Harry Potter — não estava exatamente exigindo sistemas mecânicos profundos ou design revolucionário. Eles queriam estar em Hogwarts. Andar por ali. Lançar feitiços. Reconhecer personagens. E é exatamente isso que o jogo dá pra elas. Nada mais, nada menos.

O que, para o que se propôs a fazer, é mais que o suficiente.


MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 165 (Julho de 2001)


MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 089 (Agosto de 2001)