quinta-feira, 14 de maio de 2026

[#1735][Jul/2001] FLOIGAN BROS. EPISODE 1

Okay, essa vai ser uma das estranhas. A melhor descrição que eu consigo dar para Floigan Bros. é… você lembra de PAC-MAN 2: The New Adventures? Claro que não lembra. Ninguém lembra. Mas  Pepperidge Farm lembra! …na verdade, não, ninguém lembra do Pepperidge Farm também. Meu Deus, eu não sei mais como me comunicar com seres humanos modernos. Eu vou morrer sozinho mesmo.

Mas onde eu estava? Ah, sim, PAC-MAN 2: The New Adventures. Aquele jogo era basicamente um point-and-click onde você também precisava administrar o humor do Pac-Man para ele colaborar com os seus comandos ao invés de agir como uma criança birrenta e passivo-agressiva. Okay, tudo bem, eu suponho que uma comparação com A Boy and His Blob também não seja totalmente absurda, mas a minha é muito mais precisa e ainda me permite sentir intelectualmente superior por citar jogos obscuros dos quais ninguém lembra ou se importa. O que, mais uma vez, explica bastante a parte do “vou morrer sozinho”.


Mas enfim. O ponto é que Floigan Bros. é mais ou menos isso… só que em 3D, com uma quantidade cavalar de energia de desenho do Tex Avery por cima. Você controla Hoigle, o irmãozinho pequeno e manipulador, enquanto dá comandos para o gigantesco idiota do Moigle através de ações contextuais. Você chama ele até certos pontos e então manipula as emoções dele para ativar eventos: irritá-lo, assustá-lo, fazê-lo chorar, fazê-lo entrar em pânico, e observar o cérebro de homem das cavernas dele triggar a solução do puzzle. Como eu disse: PAC-MAN 2: The New Adventures, mas em 3D e em uma vibe full cartunesca.

Estrelando a inesquecível dupla Hoigle e Moigle Floigan — tá, tenho que dar a Visual Concept que é bem divertido falar isso em voz alta — a história se desenrola com Moigle trabalhando incansavelmente em uma invenção surpresa para seu diminuto irmão. Cabe a Hoigle ajudá-lo a encontrar as peças necessárias para concluir o projeto enquanto também impede o traiçoeiro Baron Malodorous e seu esquadrão de gatos mercenários de tomarem posse do... eu nem sei o que eles tem que o cara quer, mas ele quer alguma coisa deles.

E… basicamente é isso o jogo inteiro.


Fora um breve tutorial, esse é o conteúdo completo de Episode 1. Se você já souber as soluções dos puzzles, o jogo pode ser terminado em pouco mais de uma hora. O que parece catastrófico no papel, especialmente considerando que a EGM simplesmente EXECUTOU o jogo na época, dando notas 1.5, 1.5 e 2.0/10. São notas do tipo normalmente reservadas para jogos que insultam sua família e depois tacam fogo no seu cachorro. Mas, acredite ou não, essa nem chegou perto de ser a pior hora que eu já passei com um videogame.


Porque aqui está a coisa: embora Floigan Bros. seja absolutamente culpado de tentar fazer bem pouco, o pouco que ele faz é honestamente bem decente. O humor tem uma energia genuinamente divertida de Looney Tunes, completa com animações exageradas de slapstick e personagens se comportando como se tivessem escapado de um desenho de sábado de manhã. A gata capanga maligno do Baron Malodorous — que exala constantemente aquela energia de “eu não acredito que trabalho para esses idiotas” típica de funcionário de varejo cinco minutos antes do fechamento — praticamente rouba todas as cenas em que aparece.

Os minigames? Já vi piores. Mas também, eu sobrevivi à era inteira do 3DO, então minha tolerância para minigames ruins foi quimicamente alterada além da compreensão humana. Ainda assim, eles são aceitáveis o bastante. E os puzzles, embora simples, ao menos são compreensíveis e administráveis ao invés de mergulharem em pura lógica lunar de adventure game.

O verdadeiro pecado do jogo é sua absoluta falta de conteúdo — e a razão está literalmente no título: Episode 1.


O plano original claramente era transformar Floigan Bros. em uma série episódica, provavelmente distribuída online, o que teria combinado perfeitamente com as ambições online do Dreamcast… se o Dreamcast já não estivesse já morto a alguns meses quando esse jogo foi lançado. Dá para enxergar o esqueleto desses planos futuros espalhado pelo jogo inteiro. A roda de ações possui vários espaços vazios claramente reservados para habilidades ou comandos que apareceriam em episódios posteriores, e existe um sistema inteiro de diálogos que mal é utilizado aqui. Em todo canto, o jogo transmite a sensação de estar economizando recursos e guardando mecânicas para continuações que nunca aconteceriam. 

E isso deixa toda a experiência com uma sensação de inacabado que é honestamente meio triste.

Porque eu realmente me sinto mal julgando um jogo que claramente foi concebido apenas como o começo de algo maior. Existe charme aqui. Existe personalidade. Existe criatividade. Em alguns momentos, existe até uma pequena centelha de genialidade escondida sob toda a falta de conteúdo e sistemas pela metade. Mas, no fim das contas, eu ainda preciso analisar aquilo que efetivamente foi parar nas prateleiras — e o que foi parar nas prateleiras simplesmente não era suficiente.

Charmoso? Sim. Engraçado? Surpreendentemente. Ocasionalmente inspirado? As vezes.
Mas ainda assim… pouco demais.


Não “1.5 de 10” pouco, convenhamos. Acho que a EGM pegou bem pesado aqui, provavelmente numa daquelas semanas miseráveis de fechamento onde qualquer pequeno incômodo vira uma vingança pessoal contra a indústria dos videogames. E eu nem posso julgá-los tanto assim por isso. Eu também já tive algumas reviews aqui no blog onde o cansaço e a frustração provavelmente afiaram as facas mais do que o jogo merecia. Acontece.

Ainda assim, Floigan Bros. permanece como uma daquelas (ultimas) estranhas curiosidades fascinantes do Dreamcast: um jogo com uma personalidade única, preso para sempre como o primeiro capítulo de uma história que ninguém nunca verá o final.

MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 160 (Fevereiro de 2001)


EDIÇÃO 168 (Outubro de 2001)


MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 085 (Abril de 2001)