terça-feira, 26 de maio de 2026

[#1755][Ago/2002] BUFFY THE VAMPIRE SLAYER


Uma das coisas mais difíceis de se fazer na escrita criativa é o que chamamos de "desconstrução de gênero". Isso porque a desconstrução de gênero não é uma paródia, nem uma sátira. É pegar as premissas centrais de um gênero e perguntar a sério: "Certo, se as coisas realmente funcionassem desse jeito… quais seriam as consequências?". Claro que para isso funcionar, tanto o autor quanto o público tem que estar profundamente familiarizados com os tropos do genero — do contrário a discussão perde todo o sentido.

O exemplo mais clássico é provavelmente Neon Genesis Evangelion. Garotos de catorze anos pilotando robôs gigantes para lutar contra abominações sobrenaturais já era um elemento básico da cultura de anime há décadas, geralmente retratado como algo legal, heroico, até mesmo inspirador. O garoto entra no robô, salva a humanidade, ganha admiração, talvez fique com a garota. Mas isso é realmente legal? Você ainda é um adolescente. Seu cérebro não está totalmente desenvolvido, suas emoções são uma bagunça, e agora sua rotina diária envolve enfrentar horrores incompreensíveis cujo único propósito é te despedaçar da maneira mais violenta imaginável. Suponho que ninguém aqui já tenha tido uma monstruosidade lovecraftiana tentando arrancar suas entranhas — não posso dizer que eu tenha passado por isso —, mas suponho que todos podemos concordar que viver isso todos os dias soa muito menos como "eu queria ter essa vida!" e muito mais...


Isso é desconstrução de gênero no seu melhor. 
Mas pq eu estou falando isso? Porque Buffy Summers é a Escolhida. Não "uma" escolhida. "A" Escolhida. Com E maiúsculo. Ela sozinha deve proteger a humanidade contra vampiros, demônios, lobisomens, bruxas, deuses, ciborgues, clones, profecias antigas e praticamente todo monstro rejeitado de X-FILES GAME. O que até não é um conceito novo. Monstro da semana. Heroína sarcástica que espanca o mal enquanto faz tiradinhas. Em circunstâncias normais, esse é o tipo de série do final dos anos 90 que você lembra vagamente que existia, mas mal consegue lembrar trinta anos depois. O tipo de coisa que acaba na mesma prateleira que Charmed. E não vem me dizer que vc lembrava que Charmed existiu um dia, pra cima de moi não!

Mas aí depois de conseguir tirar do papel sua série mesmo depois que o filme-piloto com essa ideia em 1992 foi um desastre (sério, eu assisti e é horroroso, a direção não pegou o espirito da coisa e quis filmar a galhofada a sério... ficou uma coisinha), nosso bom e velho conhecido Joss Whedon teve uma ideia. E se a Escolhida fosse tratada como um ser humano de verdade? E se ser "especial" fosse uma fantasia empoderadora que nenhuma pessoa realisticamente conseguiria manter em uma vida normal?


Na 1ª temporada, Buffy é uma animada líder de torcida do ensino médio que relutantemente aceita seu destino de salvadora do mundo enquanto faz tiradinhas e tenta manter uma vida adolescente normal.  Você sabe: festas, garotos, impedir o senhor das trevas de mergulhar o mundo em uma noite eterna, blusinhas da moda, essas coisas. Na temporada final, ela tem o olhar exausto e o humor seco de alguém que viu demais, perdeu demais, carregou peso demais. A série transformou ela ao longo do tempo, deixando de ser uma aventura sobrenatural adolescente para se tornar a história de um esgotamento emocional crônico. Buffy não pode desistir porque não tem literalmente mais ninguém que possa fazer o que ela faz. Em algum momento da 6ª temporada, sua reação ao descobrir que há outro monstro aterrorizando Sunnydale é menos mais "yay, aventura!" e mais "Pelo amor de Deus, eu tenho um turno pelo qual me pagam salário mínimo amanhã, estou criando uma irmã mais nova, tenho uma pilha de contas pra pagar e vocês mortos não tem nada melhor pra fazer? Tá bom. Vamos acabar logo com isso."


Essa é a verdadeira tragédia no cerne da série. Buffy aprende gradualmente que a jornada do herói vem ao preço da sua vida pessoal. Várias séries já esbarram nesse conceito aqui e acolá como por exemplo, é muito raro ver a Serena fazendo alguma coisa ou se relaciona com pessoas que não seja relacionada a ser a Sailor Moon, e quando ela faz usualmente é interrompida pelas suas responsabilidades. Como uma descontrução de genero, Buffy The Vampire Slayer é plenamente ciente dessa situação e constrói seu caso sobre ela. Nossa heroína abandona a faculdade porque salvar o mundo deixa pouco espaço para redações e estudos. As amizades se tornam escassas. O romance se torna quase impossível, a menos que a outra pessoa já faça parte do mundo sobrenatural — e se fizer, o relacionamento provavelmente está condenado de qualquer maneira. A série desmonta lentamente a fantasia do heroísmo até que ser a heroína pareça menos um dom e mais uma sentença de prisão perpétua. Em dado momento momento, em mais de uma ocasião, Buffy explode com coisas tipo "tá, eu salvei o mundo, mas e daí? Como isso vai me conseguir um emprego pra pagar as contas? Como eu coloco isso num currículo?" No fim do dia, a escala 6x1 é um monstro que nem a própria slayer pode derrotar.

O que faz tudo isso funcionar é que Whedon e sua equipe de roteiristas entenderam a moderação. Esta não é uma série que começa com desespero existencial logo de cara. É uma coisa que vai sendo cozinhada em banho maria. Durante a maior parte da série, Buffy the Vampire Slayer é estruturada como uma divertida aventura de monstro-da-semana com um vilão sazonal abrangente. E isso por si só já seria divertido o suficiente. Whedon, seja o que for que se pense dele hoje, obviamente entende como escrever diálogos espirituosos e uma química de dinâmica de elenco. Buffy é o "Whedonismo" em sua forma mais pura: diálogos rápidos, personagens mascarando a dor com humor, cenas de ação estilosas, e um vai-e-vem emocional constante entre momentos de comédia e tragédia. Praticamente todos os instintos narrativos que as pessoas mais tarde associariam a "Os Vingadores" já existiam aqui — apenas com um orçamento muito menor, mas infinitamente mais tempo para desenvolvimento de personagens.

E esse tempo extra é a parte mais importante de todas.


Porque por baixo das piadas e da bobagem sobrenatural está uma das melhores histórias de amadurecimento que a televisão já produziu. A progressão do ensino médio para a vida adulta parece surpreendentemente humana. Os personagens passam da insegurança adolescente para a incerteza da faculdade, de festas e romance para empregos, contas, depressão, luto e responsabilidade. Os monstros eventualmente se tornam menos metáforas para perigos externos e mais para as realidades feias de envelhecer. E de alguma forma, apesar de apresentar vampiros com maquiagem barata de borracha e demônios com nomes como "Gnarl", o cerne emocional da série muitas vezes parece mais honesto do que dramas de prestígio que se esforçam dez vezes mais para serem "sérios".

Um dos melhores exemplos disso é "The Body", amplamente considerado um dos maiores episódios de televisão já feitos. Porque uma coisa que o cinema e a televisão sempre entenderam errado é o luto. Quer dizer, eu entendo porque é retratado desse jeito: um personagem gritando dramaticamente enquanto desaba contra a porta parede é uma cena visualmente forte. O cinema ama explosões emocionais porque elas ficam bem na fotografia. Mas o luto da vida real não funciona assim. O luto de verdade é dormência. É o silêncio. Seu cérebro simplesmente se recusando a processar a realidade.

"The Body" remove quase todos os elementos sobrenaturais e se concentra inteiramente no horror cru e mundano de perder alguém que você ama. Não há um grande vilão para enfrentar. Nenhuma batalha climática. Nenhuma trilha sonora emotiva manipulando suas emoções. Na verdade, o episódio é quase completamente desprovido de música, porque o silêncio em si é a maior parte da experiência. As pausas desconfortáveis entre as frases, o vazio dos cômodos, a maneira como as pessoas não conseguem articular o que estão sentindo — tudo isso captura aquela terrível sensação de desconexão que vem com a perda súbita.


Como alguém que já passou por mais luto do que eu recomendaria, posso dizer que esta é provavelmente a representação mais autêntica do luto que já vi na televisão. Não porque seja dramática, mas exatamente porque não é. O episódio entende que a morte muitas vezes chega sem timing cinematográfico ou palavras finais poéticas. Às vezes ela simplesmente acontece, e o mundo continua existindo ao seu redor com uma indiferença horrível. E essa percepção é muito mais assustadora do que qualquer vampiro que Buffy já enfrentou.

Olhando em retrospecto, é impressionante o quanto a equipe criativa tinha noção do que estava fazendo. Buffy the Vampire Slayer muda de tom constantemente de uma forma que, no papel, deveria ser uma bagunça. Num momento é uma comédia de terror pastelão de filme B, no outro vira uma novela mexicana, e cinco minutos depois vira um drama existencial sobre trauma, solidão e o terror de crescer. Às vezes, as três coisas dentro do mesmo episódio. E de alguma forma, contra toda a lógica, funciona.

O que é ainda mais impressionante é o quão confiantes os roteiristas se tornaram com o tempo. Lá pelas temporadas do meio, a série se sente tão segura com o que está fazendo que até arrisca narrativas experimentais. Você tem "Hush", um episódio inteiro construído em torno do silêncio, onde os personagens perdem a capacidade de falar, forçando a série a depender quase inteiramente da narrativa visual e da linguagem corporal. Depois tem "Once More, With Feeling", onde a série inteira de repente vai full musical da Broadway. E o mais impressionante é que isso é brilhante. Não no sentido de "é divertido para um episódio experimental", mas genuinamente um dos episódios mais inteligentes de toda a série, usando números musicais como confissões emocionais para personagens incapazes de se comunicar honestamente de outra forma.


Os atletas têm uma expressão: "estar na zona". Aquele estado em que você está tão focado e tão no controle do seu corpo que tudo parece sem esforço, como se instinto e execução se tornassem a mesma coisa. É nisso que Buffy eventualmente se torna. Quase todo mundo parece perfeitamente alinhado com seus papéis — bem, exceto talvez na 1ª temporada, quando a série ainda estava se encontrando. Mas quando engrena, o elenco inteiro desenvolve uma química natural onde até o absurdo da premissa começa a parecer plausível. A série fica confortável o suficiente para explorar genuinamente o que viver num mundo de horror sobrenatural constante faria com aquele grupo de pessoas — para o bem e para o mal.

E, como você provavelmente já deve imaginar, um dos maiores seriados de televisão de todos os tempos obviamente recebeu uma adaptação terrível para videogame porque isso é a lei natural do universo e—

...Espera.
Peraí.
Isso não parece certo.
Esse jogo é... bom? Isso é sequer permitido?

Porque Buffy the Vampire Slayer é, de alguma forma, um beat 'em up estranhamente sólido. Imagina só. Um beat 'em up onde bater em pessoas é divertido. Que tecnologia arcana proibida e assustadora é essa? O que vem depois? Um FPS onde atirar é satisfatório? Um jogo de futebol onde marcar gols é empolgante? A civilização está colapsando diante dos nossos olhos!


Mas sério, o combate aqui é surpreendentemente bom, o que é uma coisa ótima considerando que combate é cerca de 90% do que você vai fazer. O jogo faz um ótimo uso do hardware do Xbox para criar interações físicas mais pesadas e convincentes, dando a cada soco, chute e golpe de estaca uma sensação de impacto satisfatória. Em muitos aspectos, isso parece o que BOUNCER tentou alcançar no PS2 — combate corporal cinematográfico e chamativo com interação ambiental — só que Buffy executa a ideia com mais sucesso, e também porque o material base se presta bastante a uma insanidade de artes marciais exagerada.

Os chutes giratórios absurdamente dramáticos e a coreografia cafona de kung-fu da Buffy são material de videogame perfeito e os desenvolvedores entenderam isso. Quase todos os seus movimentos característicos da série estão aqui, incluindo a pequena estaca de mão que ela usa para transformar vampiros em pó instantaneamente. O que sempre me fez pensar se os vampiros nesse universo têm caixas torácicas feitas de papelão molhado, pq a Buffy mal toca neles e de eles explodem em confete.

As interações ambientais são provavelmente a mecânica mais legal do jogo. Você pode chutar vampiros contra cercas que convenientemente funcionam como estacas improvisadas, esmagar inimigos contra paredes, ou jogá-los na luz do sol e vê-los sumir num poof instantâneo. Isso captura a brutalidade divertida da série surpreendentemente bem. Só queria que o jogo tivesse investido mais nesses elementos, porque eles são distribuídos de forma um pouco espaçada demais pela campanha. Ainda sim, quando funciona, ele funciona.


E além do combate, a apresentação é exatamente o que você esperaria de uma boa adaptação de Buffy. Você percorre locais icônicos de Sunnydale como a Sunnydale High School e The Bronze enquanto dá um role com o elenco habitual de humanos adoráveis e problemáticos. Xander Harris continua sendo o idiota bem-intencionado do grupo, Willow Rosenberg ainda é a nerd esquisita por quem todo mundo com bom gosto já teve uma queda em algum momento, e Rupert Giles continua sendo britânico, o que aparentemente conta como um traço de personalidade inteiro na televisão americana. Os americanos sempre tiveram essa fascinação bizarra por britânicos, tratando-os como inerentemente cultos e sofisticados simplesmente porque pronunciam as palavras de forma pomposa e tomam chá enquanto parecem levemente desapontados com você.

Então, para um jogo licenciado, Buffy para Xbox é surpreendentemente bom. Seu maior problema é simplesmente que os desenvolvedores foram um pouco ambiciosos demais com a duração. O sistema de combate é divertido, mas não é divertido o suficiente para oito horas. O jogo se estende muito além da variedade de inimigos e diálogos que ele realmente tem disponíveis. Lá pela quarta ou quinta hora, eu já estava cansado de ouvir as mesmas piadinhas repetidas meia dúzia de vezes por fase e de lutar contra os mesmos três ou quatro tipos de inimigo repetidamente.


Levei cerca de sete a oito horas para terminar, e o jogo provavelmente seria mais forte com metade desse tempo. Há um motivo pelo qual os beat 'em ups clássicos raramente duravam mais de uma ou duas horas na era dos fliperamas: esse gênero prospera na intensidade, não na resiliencia. Buffy aparentemente faltou a essa aula na Sunnydale High, o que é tematicamente apropriado, tudo considerado. Mesmo com os ocasionais elementos de exploração e resolução de quebra-cabeças, a repetição acaba criando a sensação de que o jogo abusa um pouco da sua hospitalidade.

Ainda assim, mesmo que isso o impeça de se tornar algo realmente ótimo, ser apenas "bom" já é um milagre para os padrões de jogos licenciados, especialmente no início dos anos 2000. Então, eu aceito a vitória onde eu posso consegui-la. No cemitério amaldiçoado dos tie-ins licenciados, um jogo genuinamente divertido é raro o suficiente para merecer respeito por si só.

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