domingo, 11 de fevereiro de 2018

[AÇÃO GAMES 009] THE LONE RANGER (ou o Red Dead Redemption do Nintendinho) [#113]



Responda rápido: qual é o nome do cavalo do Zorro e do melhor amigo dele? Se você respondeu que o cavalo do Zorro se chama Silver (do clássico bordão "aiooooooo Silver!") e o melhor amigo dele é o índio Tonto (que coisa mais politicamente incorreta, heim?), vem cá, dá um abraço. Mentiram pra você também. Tamo junto nessa, mano!

Mas vamos começar do começo: Zorro é um personagem de livros do começo do século passado que virou febre na epoca: ganhou gibis, filmes, séries, desenhos animados e até mesmo um anime. Sim, um fodendo anime feito por japoneses no Japão.


JAPÃO: A regra é clara: se tem algum tipo de transformação mágica, a gente tá fazendo anime 
EU: Mas cara, o Zorro não...
JAPÃO: Bam! Anime nas tua fuça!

Esse anime passou na Record nos anos 90, mas é claro que os americanos não iam ficar pra trás, né? Claro que sim, como não? Então segura esse ZORRO DO FUTURO aí!


EUA: Se existe alguma coisa, a gente vai fazer uma versão DO FUTURO disso!
EU:  América, isso sequer faz sentido, o Zorro pertence a um contexto...
EUA: Shhh! Por isso que você é o EU e não EUA!
EU: Que?! Isso faz menos sentido ainda!
EUA: A gente elegeu o Trump, a gente não precisa fazer sentido!
EU: Ponto válido.

Enfim, acho que já ficou bastante claro o quão insanamente popular o cruzado embuçado original, não? Mauricinho bobão de dia, defensor da justiça de noite - com efeito, o Batman foi inspirado nele. Pois bem, quando alguma coisa é muito famosa o que acontece em seguida?

Exatamente, espertões tentam lucrar em cima do nome famoso... né JASPION 2?

Sério gente, quem além de nazistas da KKK faz isso com o coração das crianças?

Então buscando uns juscelinos faceis, era só tascar "Zorro" em qualquer coisa que tivesse um cara de mascara, certo?

Foi o que pensou a editora Ebal, que viu no Lone Ranger a chance de lucrar muito usando uma marca já consagrada. O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger) foi uma série de rádio de faroeste criada no começo do século que virou série de TV e quadrinhos posteriormente, e onde o nosso herói em questão tinha como bordão o iconico "aiooooooooo Silver!". No Brasil ele foi chamado de Zorro porque, né, bem vindo ao Brasil - onde a única regra é que não há regras.

Deixando as brasileiragens a parte, John Reid era um ranger junto com o seu irmão e outros texanos de gatilhos nervosos. Eles são mortos por uma trairagem do vil vilão Butch Cavendish e apenas John sobrevive. Ele então adota o nome de "Lone Ranger" e decide fazer do Texas um lugar cristão e de bons costumes


Não, não esse tipo de cristão!

Não, nem esse!


Ah, na boa Jesus, dá jeito nesse teu fandom aí cara!

... mas enfim, dito isso vamos ao jogo de Nintendinho. Bem, o quão bom pode ser um jogo feito para o Nintendinho do qual absolutamente ninguém nunca ouviu falar?


Uau. Realmente uau. Tal qual como a inquisição espanhola, eu não estava esperando isso. Quer dizer, é um nível de qualidade de produção realmente alto para um jogo de NES. Como esse não é um dos jogos mais famosos do console?

Ah, já sei! O gameplay deve ser uma bosta então, né?

Bem, então, como eu coloco isso? Lone Ranger é meio que a versão do NES de Red Dead Redemption. Sim, ele é bom desse jeito. Mas vamos começar do começo.

LR é um jogo de ação com elementos de RPG (tipo Zelda, mas com pistoleiros no velho oeste no lugar do menininho vestido de elfo), um jogo de plataforma E um jogo de tiro em primeira pessoa. Tudo isso no mesmo jogo.

Funciona assim: cada fase tem uma missão principal, e para descobri-la você tem que ir na cidade e falar com as mulheres - pq os homens são todos foras da lei e você tem que meter chumbo neles assim que os vir - entrar nas casas, falar com as pessoas, avançar a quest (no caso, baseadas em episódios classicos da série de TV como um impostor manchando o seu nome, uma mocinha sequestrada, etc). Enfim, um RPG simples mas extremamente funcional.



Alem de fazer sua paradinha de RPG na cidade, você ainda pode comprar munição e equipamentos melhores. Assim que você descobre onde você tem que ir, então você pega seu fiel cavalo Silver (aioooooooooo Silver!) e vaga pelo mapa em busca do próximo lugar de treta. Aí o jogo te apresenta uma das três variações de ação possíveis: visão de cima (como em Hotline Miami), jogo de plataforma ou tiro em primeira pessoa.

As sessões de tiro são bastante parecidas com os labirintos de Phantasy Star, com a diferença que as batalhas se resolvem metendo bala nos comedores de quiche safados. Eis aqui um grande diferencial: você pode controlar os tiros usando o controle do NES ou realmente pegar a Zapper e meter um bang bang nos pestilentos gatos polares. Essa sessão do jogo é absolutamente impressionante para as limitações do NES, e mais impressionante do que ela é apenas o quão dificil isso é.

Você tem que ser tipo o John Wick para acertar tantos tiros em tão pouco tempo, e olha que eu joguei no emulador mirando com o mouse! Imagina com a pistolinha do NES! Se bem que tem um truque para isso e usando uma lampada fluorescente você também pode ser o melhor do oeste no seu Nintendinho.
Acontece que o acessório é equipado com um fotodiodo para detectar luz, algo que funciona de uma forma relativamente simples: ao apertar o gatilho, a tela do televisor fica preta por um instante para dar ao sensor um ponto de referência, e é nesse momento que os alvos a serem acertados se tornam brancos. Se o sensor capta uma mudança de preto para branco, ele consegue entender que você mirou no alvo correto. Então basta encostar a pistola em uma lampada fluorescente e o jogo vai entender que você sempre está acertando os tiros. Elementar, meu caro Vatisson!



Quase toda biblioteca do NES já termina por aí. Tipo, esse é o jogo e esteja muito agradecido! Mas aqui não, além do modo em primeira pessoa temos ainda estágios em estilo plataforma e aqui a Konami está em casa pois o jogo lembra muito Contra... só que com indios ninjas no lugar de aliens aleatórios.
Sério, eu não vou sequer tentar entender porque os indios arrmessam shurikens e usam nunchakus aqui. Posso apenas imaginar que como o jogo foi feito por japoneses, era tudo que eles conheciam. De qualquer forma, agora você pode dizer que enfrentou indios-ninjas, olhas só!
E de toda sorte, as sessões de plataforma funcionam tão bem quanto você poderia esperar de um jogo da Konami - a mesma que fez Contra e Castlevania, eles sabem o que estão fazendo aqui -  só que com tiroteios do velho oeste  no lugar.
Assim como em Castlevania, as escadas são o maior inimigo de nosso herói. Ou os caras da Konami não sabiam programar, ou o estúdio ficava no 12o andar sem elevador e os programadores tinham uma mensagem sobre o seu local de trabalho.

O terceiro tipo de gameplay é a de visão por cima com tiro, não muito diferente do que já acontecia em Guevara, ou mesmo em Zelda se o jogo se passasse no Texas. Esse acabou se provando minha forma favorita do jogo, já que é mais ritmado e permite uma certa estratégia na abordagem. Como de praxe naquela época, as balas dos inimigos tem a velocidade ideal para desviar delas sem ser um bullet hell (exceto nas ultimas fases), e você pode comprar upgrades para aumentar o alcance do seu tiro.

Considerando o número de tipos de jogos incorporados, Lone Ranger consegue consistentemente manter seus controles intuitivos e responsivos. Ao contrário de alguns jogos com um número excessivo de esquemas de controle (California Games, Track and Field II), The Lone Ranger segue os esquemas de controle NES tradicionais para cada tipo de jogo, mantendo a jogabilidade fluida e intuitiva (novamente,  a imensa maioria dos jogos de NES falha em fazer funcionar um único esquema de jogabilidade).  

O único problema potencial com The Lone Ranger reside no seu nível de dificuldade. Cada uma das oito áreas deve ser completada em uma vida única, pois é game over quando a barra de vida se esgotar; Isso pode ser frustrante, principalmente devido ao fato de que várias etapas podem demorar quase uma hora para serem concluídas. Apesar deste problema, um sistema de password está incluído, permitindo o jogador comece a jogar de novo no início de qualquer uma das oito áreas. O jogo é ofensivamente dificil, sim, mas não é a pior coisa que eu já vi em um cartucho de NES.

Preview que saiu na edição 002


Infelizmente para a Konami, o timing do lançamento de seu excelente jogo não poderia ter sido pior. Ele saiu apenas 34 anos depois que a série parou de passar na televisão (de modo que mesmo os pais das crianças da época teriam dificuldade em reconhecer a marca), e nos meses posteriores ao lançamento do Super Nintendo. O que é realmente uma pena que o jogo tenha sido engolido pelo trem da história, porque é um jogo bastante longo, ambicioso e que faz bem todas as várias coisas que se propõe a fazer - o que é incrível para a época.


Aiooooooooooooo Silver!