Se tem uma coisa que eu aprendi em quase dez anos escrevendo resenhas para este blog, é que nem tudo é arte. Na verdade, muito poucas coisas são arte da forma como entendo a palavra: uma forma de expressão com significado e propósito — algo que pode desafiar suas ideias preconcebidas ou te dar uma visão da mente de outra pessoa. A maioria das obras — e isso é particularmente verdadeiro para videogames, mas também se aplica à música, ao cinema e até mesmo aos livros — não aspira a nada além de ganhar dinheiro fácil entretendo você da maneira mais simples possível.
A maior parte da nossa cultura não é composta por um artista derramando sua alma em uma obra-prima. É mais algo como: "Fiz uma coisa para você passar o tempo, me dê uma grana por isso." E não tem nada de errado nisso. Às vezes (na verdade, na maioria das vezes) as pessoas já têm coisas demais na cabeça e só precisam de algo para se distrair. A demanda cria a oferta.
E falando de coisas bobas sem nenhuma intenção artística por trás, não tem como ir muito mais fundo do que World's Wildest Police Videos (que passou aqui como "Os Vídeos Policiais Mais Insanos do Mundo"). Este programa de TV não é, e nem por um momento tenta ser, outra coisa senão o entretenimento mais raso possível. Bandidos. Mocinhos. Carros em alta velocidade. Oh, não. E sim, eu assisti à maldita coisa. As coisas que eu não faço por vocês.
Enfim, World's Wildest Police Videos é uma série de televisão da Fox que estreou em 1998 e foi exibida originalmente até 2001 (com um breve revival em 2012). Consiste principalmente em imagens de vários departamentos de polícia dos EUA — embora também tenham aparecido clipes da Argentina, Coreia do Sul, Rússia, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido e até mesmo do Brasil-sil-sil — mostrando prisões, tumultos, roubos e, especialmente, perseguições em alta velocidade capturadas por dashcams, helicópteros, equipes de reportagem, câmeras de vigilância e, ocasionalmente, civis. O programa era apresentado pelo ex-xerife do Condado de Multnomah, John Bunnell, cuja narração extremamente dramática enquadrava as cenas como uma batalha épica entre a lei e o caos.
Mas o que realmente define o programa é a perseguição em alta velocidade. Não sei se é porque as rodovias nos Estados Unidos estão profundamente integradas à geografia urbana, ou porque a vigilância aérea policial é mais difundida por lá, ou simplesmente porque a televisão americana passou décadas mitificando essa imagem — mas eu associo fortemente a cena de um suspeito roubando algo e depois sendo perseguido por cinco viaturas e um helicóptero a algo exclusivamente americano. É praticamente um esporte nacional.
E, claro, nem sempre é um assalto a banco. Às vezes, o suspeito está simplesmente descontrolado sem motivo aparente. Às vezes, a motivação é estranhamente específica ("o Detran recusou minha carteira, então vou mostrar para eles!"). Mas o que você geralmente vê é uma perseguição cinematográfica cheia de quase-colisões enquanto um narrador extremamente caricato transforma tudo em um confronto moral entre o bem e o mal.
No entanto — e esta é a parte importante — as imagens são fortemente curateladas.
Na vida real, as perseguições policiais são caóticas. Pessoas se machucam. Suspeitos entram em pânico. Policiais cometem erros. As situações escalonam de forma bem feia. O desespero raramente é cinematográfico e limpinho na vida real, e não raramente termina em tragédia. Mas não é disso que trata este programa.
Aqui, o que temos é espetáculo.
O suspeito dirige como um maníaco, bate espetacularmente, o carro capota várias vezes — e, em vez de ser dilacerado pela colisão com pedaços de corpo espalhados por pelo menos três quintais, de alguma forma ele sai andando tempo suficiente para a polícia prendê-lo. A justiça vence. Sobem os créditos. Pelo menos nos episódios que assisti, este é um padrão claro: muita destruição material, muita adrenalina, mas quase ninguém se machuca gravemente. A narrativa sempre se resolve de forma limpa.
O que nos traz de volta ao que eu disse no início: World's Wildest Police Videos não aspira a ser arte. O que ele aspira a proporcionar é catarse. Ele dá ao espectador cansado e sobrecarregado a chance de sentar no sofá, assistir a um coisa muito louca acontecendo e então ver a ordem vencer antes do fim do segmento. Os mocinhos vencem. Os bandidos perdem. Ninguém importante sofre consequências permanentes. O espectador pode apontar para a tela e dizer: "É isso aí, mostrem pra eles!"
E esta é uma reação humana universal.
Seja um espectador americano torcendo durante World's Wildest Police Videos ou uma plateia brasileira aplaudindo quando traficantes levam tapa na cara em Tropa de Elite (um filme que realmente tem um forte comentário social e intenção artística, mesmo que muitos espectadores optem por ignorá-la), o mecanismo emocional é o mesmo: espetáculo seguido de reafirmação moral.
Não estou fazendo um juízo de valor aqui. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, ou o que as pessoas deveriam ou não gostar. Só estou dizendo que é assim que as coisas funcionam. Na verdade, é tão assim que o programa se tornou tão popular quando estreou que seus especiais alcançaram alguns dos maiores índices de audiência que a Fox já havia registrado para um especial de televisão na época.
Só isso já diz algo importante.
Não sobre a televisão.
Mas sobre como as pessoas funcionam.
Nesse sentido, a adaptação para videogame de WWPV é conceitualmente uma das adaptações mais fiéis que um programa de televisão já recebeu nos videogames (não que a barra seja muito alta, mas né). Assim como o programa que o inspirou, o jogo não tenta ser arte. Não tenta ter uma sacada. Não tenta ser nada além de entretenimento barato entregue com o menor esforço possível — e, nesse sentido, ele espelha World's Wildest Police Videos quase perfeitamente.
O que aconteceu aqui é bem típico dos jogos licenciados da época. A Fox, juntamente com a Activision, encomendou um tie-in e entregou o desenvolvimento à Unique Development Studios com um objetivo simples: lançar algo reconhecível o suficiente para vender apenas pelo nome da marca. E o "algo" que eles entregaram é essencialmente uma imitação descarada de DRIVER: You Are the Wheelman.
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| Para nós brasileiros, o jogo mais famoso da Unique Development Studios é o PickUp Express, que foi distribuido aqui pela Gugu games e virou uma grande propaganda do Domingo Legal |
Mas onde o jogo de 1999 da Reflections pelo menos tinha ambição artística — tanto narrativa quanto mecanicamente —, o título da UDS parece perfeitamente confortável em existir como uma reinterpretação da Shopee da mesma fórmula. World's Scariest Police Chases parece um bootleg de um dos jogos de corrida mais famosos já lançados para PlayStation, e carrega essa identidade sem nem um pingo de vergonha na cara.
Além da óbvia estética de "Driver de segunda mão", a estrutura das missões segue o mesmo modelo básico. Você bate no veículo do suspeito até que a barra de vida dele se esgote. Você alcança pontos de controle antes que o tempo acabe. Você segue suspeitos sem chegar muito perto nem ficar muito longe. E por aí vai, vc pegou a ideia.
Como esperado, quase tudo aqui é uma versão reduzida do que DRIVER: You Are the Wheelman fez antes e melhor. A densidade do tráfego é muito mais limitada. A presença da trilha sonora é mínima comparada à elegante energia cinematográfica do jogo da Reflections. E os cenários caóticos de perseguição com múltiplos carros que tornaram Driver tão memorável estão praticamente ausentes — embora, para ser justo, esse último ponto faça algum sentido, já que aqui você joga como a polícia, e não como o bandido.
E para não dizer que o jogo não faz nada NADA melhor que DRIVER: You Are the Wheelman, pode ser que tenha, dependendo do seu gosto. Para aqueles que não gostavam da jogabilidade exageradamente voltada para derrapagens que Driver usava para evocar os filmes de perseguição de carros dos anos 70, a direção aqui parece mais estável e contida. E, pelo menos, o tutorial não é a infame checklist de obstáculos na garagem que travou tantos jogadores antes mesmo de o jogo começar de verdade.
Ainda assim, no fim das contas, World's Scariest Police Chases é exatamente o que se esperaria de um jogo licenciado para PlayStation lançado em 2001: uma imitação barata de uma fórmula de sucesso, projetada principalmente para capitalizar a familiaridade com a marca. A boa notícia é que estar alguns degraus abaixo de um dos jogos de corrida mais iconicos da quinta geração ainda te deixa no campo do "jogável" — o que, para um título como esse, isso já conta como alguma coisa.
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| Pra não dizer que não faz nada de novo, tem também umas missões em que vc tem que atirar nos bandidos no melhor estilo CHASE H.Q., mas não espere muita coisa disso |
EDIÇÃO 154 (Agosto de 2000)




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