A memória é uma coisa engraçada, né? Eu lembro claramente de ir ao cinema ver o Homem-Aranha quando estreou em 2002… e, honestamente, na época eu não achei tão grande coisa assim. Quer dizer, era legal, claro. Divertido. Perfeitamente sólido. Mas não deixou uma marca muito profunda em mim. Na minha cabeça, eu coloquei ele na mesma categoria dos outros "bons filmes de super-heróis" daquela era, como X-MEN ou BLADE, e segui com a minha vida.
E, em minha defesa, 2002 foi um ano muito cheio para o cinema. Foi o ano que tivemos "As Duas Torres" (ao contrário dos Estados Unidos... e eu totalmente vou pro inferno por essa piada, eu sei). O ano em que o fenômeno Harry Potter teve a sua sequencia A Câmara Secreta. O ano de THE RING, 8 Mile e Lilo & Stitch. Muitos filmes que realmente me marcaram até os dias de hoje. Por isso, o Homem-Aranha foi… bom. Mais do que bom, até. Mas não tão bom assim.
Claro que, em 2002, eu era um adolescente estúpido que mal sabia o que quer que fosse sobre o que quer que seja.
Agora, mais de vinte anos depois, sou um adulto estúpido que mal sabe o que quer que fosse sobre o que quer que seja — mas sei que, em algum momento pelo caminho, a narrativa em torno de Homem-Aranha de 2002 se transformou em algo muito maior. Com o tempo, o filme passou a ser tratado como um divisor de águas para o cinema de super-herói: o filme que ajudou a elevar o gênero de curiosidade de nicho a pilar do mainstream de Hollywood. Não o primeiro filme de super-herói de sucesso, obviamente — Superman (1978) e Batman (1989) já tinham feito isso décadas antes —, mas Homem-Aranha foi o momento em que os estúdios de repente perceberam que aquilo não era mais um agradinho para meia duzia de nerdolas, era um modelo pra fazer dinheiro pra caceta.
Provavelmente vocês já ouviram esse argumento milhares de vezes, mas é o seguinte: eu posso não saber de tudo, mas conheço o meu terror. E quanto mais eu me familiarizava com a carreira do Sam Raimi (especialmente depois da minha review de EVIL DEAD) menos essa narrativa toda fazia sentido pra mim.
As pessoas falam do Homem-Aranha como se fosse o filme que "legitimou" os filmes de super-herói. Como se fosse um blockbuster limpo, polido, seguro para o estúdio, que provou que o gênero podia se comportar na mesa dos adultos. Mas estamos falando do Sam Raimi, e a conta simplesmente não fecha. Este é o mesmo diretor que lançou sua carreira inventando um estilos de terror que borrava as linhas entre o gore e a comédia nos anos 80. O mesmo cara que transformou esqueletos medievais em músicos pastelão em Army of Darkness. O mesmo cara que ajudou a trazer à existência XENA: Warrior Princess — uma série que trata autenticidade histórica com menos respeito do que trata a pastelonice. Esse não é o cineasta que normalmente se associa ao tipo de blockbuster serião com trailer de "BAM-BAM-BAAAAM" que Hollywood tanto gosta.
Então o que aconteceu aqui?
Sam Raimi tomou umas a mais no ano novo de 2000, bateu a cabeça e desenvolveu uma personalidade artística completamente diferente da noite pro dia? O estúdio limou cada um de seus instintos excêntricos até não restar nada reconhecível? Ou e se — veja bem, E SE — estivemos interpretando mal o Homem-Aranha de 2002 esse o tempo todo?
É isso que vamos descobrir agora.
Bem, antes de entrarmos na análise propriamente dita, vamos tirar uns fatos básicos do caminho: Homem-Aranha se tornou, de fato, um modelo para os filmes de super-herói em geral, e muito por causa dos números puros e simples. Foi a maior bilheteria doméstica de 2002 — e isso importa muito, porque os estúdios recebem uma fatia maior da receita do mercado dos EUA do que das bilheterias internacionais. E lembrem-se da concorrência que enfrentou naquele ano: Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones, Harry Potter e a Câmara Secreta, e O Senhor dos Anéis: As Duas Torres. Vencer os três domesticamente não foi apenas impressionante, foi um evento que mudou os rumos do cinema.
A partir daquele momento, os estúdios não queriam apenas filmes de super-herói. Queriam especificamente outro Homem-Aranha. E isso meio que importa, pq executivos começaram a abordar diretores com uma expectativa muito específica em mente: replicar aquela estrutura, aquele tom, aquela acessibilidade de público. Não importava muito se o personagem em questão se beneficiaria de um estilo diferente ou de uma batida narrativa diferente. A meta era reproduzir a fórmula. Essa mentalidade levou a várias tentativas pré-MCU ... altamente questionáveis, vamos colocar assim... como Demolidor de 2003 e Motoqueiro Fantasma de 2007, filmes que pareciam estar tentando enfiar heróis muito diferentes no mesmo molde narrativo, fizesse ele sentido ou não.
O que nos leva a próxima óbvia: o que é, exatamente, a "fórmula Homem-Aranha"?
Bem, estruturalmente é bem simples.
Primeiro ato: história de origem. O herói ganha seus poderes, descobre sua responsabilidade e recebe o chamado para a aventura. Usualmente o vilão tem uma cena mostrando a origem de seus poderes também. Esta seção geralmente carrega um tom mais leve e deixa espaço para humor e piadocas.
Segundo ato: início da carreira heroica. O protagonista experimenta suas habilidades, desfruta de pequenas vitórias contra bandidinhos genéricos, comete alguns erros e se instala na sua identidade.
Terceiro ato: as apostas emocionais aumentam. O vilão mira alguém próximo ao herói. A responsabilidade pessoal colide com o dever heroico. Grande confronto. Triunfo moral. O bem vence o mal e espanta o temporal.
Antes de terminarmos, contudo: gancho para a sequência.
Sobem os créditos.
É limpo. É digerível. É seguro. É familiar. Carrega muito pouca ambição artística além de uma mensagem tranquilizadora que diz: este é aquele personagem de gibis que vocês gostam, agora oficialmente validado pelo cinema mainstream. Os estúdios adoraram, e na época o público ainda ficava perfeitamente feliz só de ver seus heróis favoritos percorrendo o "caminho básico" de se tornarem eles mesmos na telona.
Agora, para ser justo, dá para argumentar que o Homem-Aranha é particularmente adequado a esse tratamento, afinal ele é um dos super-heróis mais relacionáveis já criados. Ver Peter Parker simplesmente se debater com sua vida já é o grande atrativo. Novamente, enquanto "só ver ele sendo ele mesmo" pode funcionar para o Cabeça de Teia, mas então isso nunca impediu os estúdios de tentar replicar a mesma estrutura com personagens que, em primeiro lugar, nunca foram projetados para funcionar assim.
Ainda assim… eu sei que eu estou descrevendo o filme da forma mais cínica possível. Porque aqui está a verdadeira pergunta: é realmente essa a sensação que Homem-Aranha passa quando você o assiste? É esse modelo de origem higienizado e corporativamente amigável o filme que Sam Raimi realmente fez?
Bem… não exatamente.
A primeira coisa que eu percebi ao reassistir ao Homem-Aranha em 2026 é que, bem… isso é de fato um filme do Sam Raimi do começo ao fim. Não tem nada daquela postura de "cinema de super-herói dignificado" que as pessoas às vezes projetam retroativamente sobre ele. Do início ao fim, é um espetáculo pulp, cafona, brega, levemente desajeitado e profundamente estilizado, apenas que operando com orçamento de blockbuster.
Quer dizer, Tobey Maguire tinha 27 anos interpretando um Peter Parker de 17 — e ao contrário de Tom Holland, que vai ter 52 anos de idade e ainda conseguir se passar por um adolescente de 15, Maguire já tava mais pro lado tiozão da Força naquela época. Toda a seção inicial do colégio carrega muito daquela de "How do you do, fellow kids?"… o que é extremamente Sam Raimi. Seus filmes sempre operaram nesse registro tonal desajeitado, onde a sinceridade e a galhofa escancarada coexistem como se fosse a coisa mas normal do mundo.
Mas não é só o elenco. Tudo envolvendo o Duende Verde é gloriosamente constrangedor do jeito certo. Willem Dafoe entra em modo supervilão full diva dentro do que é essencialmente um uniforme roubado dos sets de MIGHTY MORPHIN POWER RANGERS: The Movie — um design que, verdade seja dita, dividiu o público já em 2002. Sua atuação oscila descontroladamente entre o monólogo shakespeariano e vilão de desenho animado de sábado de manhã, e de alguma forma o filme simplesmente trata isso como se fosse perfeitamente normal. Serio mesmo, dava para colocar o Bruce Campbell no papel e o tom do filme não mudaria muito — alias, ele aparece aqui num cameo como o apresentador que cria o nome "Homem-Aranha".
Mas de qualquer forma, o ponto é: ao contrário do que eu (e aparentemente muitas outras pessoas) lembrava, este filme é descaradamente um espetáculo pulp no estilo Raimi. Os bullies fazem bullying por nenhuma outra razão do que ser o bully mais caricato possível. O romance opera numa lógica emocional de gibi da era de prata, não em um comportamento humano reconhecível, e mais de uma vez eu me vi afundando na cadeira de vergonha alheia.
O que, para ser claro, é exatamente o que eu espero de uma autêntica experiência Raimi.
Mas então por que tantas pessoas se lembram deste filme como sendo sério? Eu já vi algumas reviews e comentários o descrevendo "maduro" e até "sombrio". E a resposta é simples: o filme não se apresenta como camp. Ao contrário de EVIL DEAD ou XENA: Warrior Princess, Homem-Aranha nunca pisca o olho para o público. Não sinaliza ironia. Leva tudo completamente a sério. A cinematografia acredita no sofrimento do Peter. A trilha sonora acredita na tragédia. A montagem acredita no melodrama. E embora em 2026 essa ilusão não engane ninguém que não esteja usando óculos da nostalgia… em 2002 funcionou perfeitamente.
Porque, como qualquer mágico poderá te dizer, os melhores truques dependem de o público querer ser enganado.
Para isso, é importante lembrarem-se do momento cultural em que este filme chegou. O início dos anos 2000 foi o auge da aborrescência na cultura pop. Especialmente depois de Matrix, havia essa suposição de que o cinema de que tudo que quisesse ser sério tinha que ir full Uchiha e ser dark, trevoso, edgelord e tentar ser adultão para merecer respeito. Na época, a cultura pop (ou seja, a gente) era nada senão adolescentes inseguros querendo desesperadamente provar que eram adultos, e a estética dos blockbusters do início dos anos 2000 muitas refletia essa necessidade juvenil.
Nesse contexto, a decisão do Homem-Aranha de parecer alinhado com o zeitgeist — quer tenha vindo dos instintos de Raimi ou da pressão do estúdio — se revelou crucial para o seu sucesso. O filme mantém seu DNA pulp intacto, mas a apresentação é sobre seriedade. Esse equilíbrio permitiu que o público aceitasse algo que, de outra forma, poderia ter rejeitado como infantil.
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| Grandes gadices trazem grandes responsabilidades, aparentemente |
Até porque sabemos o que acontece com projetos que penderam para o outro lado. Quando Lana Wachowski e Lilly Wachowski lançaram Speed Racer, ou quando a Nintendo lançou The Legend of Zelda: The Wind Waker com seus visuais cel-shaded coloridos, o público rejeitou ambos como tolices infantis precisamente porque se recusaram a cumprir aquele "ritual de seriedade" do início dos anos 2000. Nos dias de hoje foram amplamente reavaliados, mas na época pagaram o preço por se permitirem serem leves demais. Existe, afinal, uma razão para o Wolverine ter esperado vinte e cinco anos de aparições live-action antes de finalmente usar seu clássico uniforme amarelo em Deadpool & Wolverine.
Mas voltando ao tema, outra coisa que notei ao reassistir ao Homem-Aranha de 2002 agora é que… bem, acho que não gosto realmente muito dessas pessoas não.
E sim, sei que hoje em dia a versão de Mary Jane Watson de Kirsten Dunst sofre muito hate online, então essa não é exatamente uma reclamação ousada ou original. Mas meu problema não é ela ser "má" com Peter ou não reconhecer o cara maravilhoso que nosso simpático amigão da vizinhança supostamente é. Meu problema é mais simples: ela é uma personagem pavorosamente mal escrita neste filme.
O papel de Mary Jane aqui é menos "pessoa" e mais "objetivo". Ela existe como algo que Peter ainda não consegue alcançar — e para manter essa distância, o roteiro a move sem razão alguma para onde o melodrama precisa que ela esteja no momento. No início do filme, ela namora Flash, o valentão da escola, e fica muito claro que ela sabe perfeitamente que ele é cruel, arrogante e... não é intelectualmente o lápis mais bem apontado da caixa, vamos colocar assim. O filme até sugere a difícil vida familiar dela como explicação para suas escolhas, o que poderia ter sido uma base forte para um arco de personagem verossímil… mas o filme nunca desenvolve realmente esse fio para além de algumas cenas rápidas.
Então, absolutamente duneida, ela está namorando Harry Osborn. Não porque a relação nasça naturalmente das interações deles. Não porque haja química visível. Mas porque a história precisa de um novo obstáculo entre ela e Peter. Daí em diante, o padrão fica difícil de ignorar: a direção emocional de Mary Jane muda de acordo com as necessidades da trama, e não com uma lógica interna de personagem.
Depois ela se apaixona pelo próprio Homem-Aranha — uma dinâmica clássica de Lois Lane, onde a heroína ama o herói mas não enxerga o homem por trás da máscara. O que, vá lá, ao menos isso é esperado nesse genero, não vou implicar muito com isso. Mas aí vem o final e Mary Jane inexplicamente repente percebe que está profundamente apaixonada por Peter Parker — apesar de o filme estabelecer zero intimidade romântica entre eles antes. É absolutamente forçado, quase como se o roteiro tivesse lembrado de repente que precisava de um fechamento emocional antes de os créditos subirem. E sim, Peter rejeitá-la é full melodrama Sam Raimi puro operando na voltagem máxima. É teatral, trágico, bastante brega — mas ao menos é consistente com o tom do filme.
Ainda assim, a questão subjacente permanece: os sentimentos de Mary Jane tendem a se tornar o que a história exige deles no momento. Ela não tem uma lógica interna, ela é só uma ferramenta de draminha barato.
Agora, para ser justo, não é como se eu também estivesse completamente vendido nesta versão do Peter também. Tá, verdade, eu sinto uma enorme simpatia pela situação dele. Ele é pobre. Vive com a tia idosa depois de perder os pais. É constantemente humilhado na escola. A vida parece pessoalmente empenhada em dar uma bicuda nele em cada oportunidade possível. O filme faz um excelente trabalho de construir simpatia ao redor dele, é muito difícil não torcer por esse garoto de 35 anos.
Mas, quando se olha para além do setup, o Peter Parker de Tobey Maguire não é exatamente a melhor encarnação do personagem. Porque veja, parte da identidade do Homem-Aranha como o entendemos hoje (embora nos quadrinhos isso é menos raíz do que se imagina) sempre foi o fato de ele ser um genuíno nerd. Não a versão moderna de "nerd descolado" que vc vê matérias dizendo "agora é legal ser nerd", não, estou falando da versão raíz que eu e você vivemos, o tipo que realmente sofre bullying. O tipo que as garotas sentem nauseas em pensar em falar com ele. O filme acerta nessa parte.
O que ele não capta totalmente é a segunda metade da equação: a persona do Homem-Aranha.
Um dos traços definidores do Homem-Aranha nos quadrinhos é que colocar a máscara não é só uma responsabilidade para Peter — ela o liberta. Mesmo quando sua vida está desmoronando, ser o Homem-Aranha lhe dá energia, humor, confiança. A responsabilidade é pesada, sim, mas o ato de ser o Homem-Aranha também é estimulante. É daí que vêm as piadinhas. É daí que vem a resiliência. É o espírito quase brasileiro de dizer: "tá tudo uma merda... mas vamo que vamo"
Essa dualidade é essencial para a razão pela qual o personagem se chama O Espetacular Homem-Aranha, em primeiro lugar. No filme de Raimi, porém, a máscara não transforma Peter dessa forma. Ele não parece energizado pelo papel. Não parece desfrutar do movimento, da liberdade, ou sequer da performance do heroísmo com muita frequência. Em vez disso, ele parece principalmente alguém que carrega uma responsabilidade porque não tem outra escolha a não ser carregá-la, ele parece sempre de má vontade e faz as coisas só pq alguem mandou ele fazer.
A propria voz do Tobey Maguire parece sempre desanimada e broxada, e ele soa muito mais como o Dunkey fazendo comentários cínicos sobre erros a indústria do que o Amigão da Vizinhança fazendo tiradinhas.
Curiosamente, Andrew Garfield capturou extremamente bem essa dimensão que falta nos filmes do O Espetacular Homem-Aranha. Sua versão do Peter claramente adora ser o Homem-Aranha (com efeito, ele diz isso textualmente). Ele brinca com a identidade. Experimenta com ela. Ele a performa. A única ironia aí é que o próprio Garfield é bonitão, confiante e carismático demais para funcionar nesse conceito clássica do "deslocado que aguenta tudo" do Peter Parker. Então, sim, eu não sou exatamente a maior fã do teioso no que diz respeito a essa interpretação do Tobey Maguire para o personagem.
Mas então, juntando tudo agora... o que exatamente fez do Homem-Aranha a maior bilheteria americana de um ano cinematográfico tão cheio? Como dá pra ver, não é uma coisa apenas, e sim uma convergência de várias vantagens muito específicas.
Primeiro, o filme era centrado no Homem-Aranha — o personagem mais popular e amplamente relacionável da Marvel na época. No início dos anos 2000, antes de o MCU transformar o segundo escalão em nomes familiares, o Homem-Aranha era o herói carro-chefe: reconhecível através de gerações, emocionalmente acessível, e já profundamente enraizado na televisão, animações, brinquedos e videogames. Junto com o Batman e o Super-Homem, era aquele personagem que furava a bolha e até sua vó que nunca pegou um gibi na mão na vida reconheceria.
Segundo, a própria escala de produção foi um salto adiante. Com um orçamento de aproximadamente 139 milhões de dólares, era quase o dobro que o de X-MEN (cerca de 75 milhões), o que permitiu ao filme apresentar ação de super-herói com um nível de espetáculo que o público não tinha visto, talvez exceto pela era anterior do Batman. Só o balançar de teias por Nova York já funcionava como um ponto de venda tecnológico — algo que os trailers não tinham vergonha em mostrar como uma experiência cinematográfica única.
Bem, o trailer vendia isso e a Kirsten Dunst sem sutiã na chuva...
Terceiro, há o citado ato de quilíbrio tonal. Sam Raimi trouxe sua sensibilidade camp característica — atuações exageradas, batidas emocionais melodramáticas, vilões ridículos — mas a envolveu em uma apresentação que respeitava a seriedade que o público esperava da narrativa blockbuster no cenário pós-Matrix. Essa combinação se mostrou crucial. O filme parece divertido sem se anunciar como paródia, sincero sem se tornar rígido, teatral sem se tornar alienante.
E depois tem o fator acessibilidade. O filme estabeleceu o que se tornaria o "modelo padrão de super-herói familiar de prestígio": estrutura de história de origem, apostas emocionais claras, humor espaçado entre sequências de ação, um fio de romance e um vilão com uma conexão pessoal com o herói. É uma estrutura que o público podia compreender imediatamente e os estúdios podiam replicar facilmente.
Além disso, claro, tinha também o J. Jonah Jameson interpretado por J. K. Simmons, entregando uma das atuações de gibi mais perfeitamente escaladas já postas em uma tela. Só esse personagem já vale o filme.
Então sim, mesmo que os personagens possam parecer escritos de forma... questionável... o pacote geral funcionou. Tinha humor. Tinha espetáculo. Tinha sinceridade. Tinha um núcleo emocional reconhecível. E, mais importante, chegou exatamente no momento cultural certo. As pessoas costumam dizer que não havia nada como o Homem-Aranha naquela época — e, assistindo esse filme hoje, essa afirmação realmente se sustenta. Só que talvez não pelas razões que a maioria das pessoas lembra.
Então, com tudo dito e feito, agora eu suponho cho que sou legalmente obrigado — pelas vozes cada vez mais altas na minha cabeça — a falar do jogo licenciado associado ao filme, que tecnicamente é a razão de estarmos aqui em primeiro lugar. Mas… tá bom. Isso vai parecer preguiçoso, e eu absolutamente seria o primeiro a reclamar se outra review fizesse isso, mas a verdade é: simplesmente não tem muito o que dizer sobre Spider-Man: The Movie para o PlayStation 2.
Por quê?
Porque esse é essencialmente o mesmo jogo que SPIDER-MAN da quinta geração — só que para o hardware da sexta geração. E quando digo "o mesmo jogo", não quero dizer isso como uma crítica vaga. Estou falando dos mesmos controles, dos mesmos movimentos, dos mesmos objetivos de missão, do mesmo combate, o mesmo jogo MESMO. As diferenças aqui são meramente na questão da escala e polimento de apresentação.
As fases são maiores. A quantidade de inimigos aumenta. A animação é mais fluida. Os modelos dos personagens têm muito mais polígonos. Mas de fase para fase, o loop de jogabilidade é essencialmente o mesmo.
Pegue a travessia, por exemplo. No original de PS1, o balanço com as teias exigia prender as teias em "âncoras de nuvem" invisíveis que vc precisava atirar uma nova teia após um número limitado de balanços — uma concessão forçada pelas limitações de hardware e tamanho dos níveis. Aqui, o sistema só muda isso para um balanço sem precisar recarregar a teia, e vc tem um pouco mais de controle vertical. É isso que mudou, fim.
Estruturalmente, o level design das missões também segue o mesmo padrão de antes. Você tem ambientes abertos nos telhados onde a liberdade de movimento é enfatizada — só que agora o espaço jogável é simplesmente maior — e fases interiores onde o foco muda para pancadaria, escalada de paredes, ductos de ventilação e se esgueirar pelo teto. Tá, agora tem seções de furtividade mas, honestamente, a IA dos inimigos e as regras de detecção são tão ruins que é melhor apenas fingirmos que não tem.
Dito isso, eu suponho que chamar a coisa de "o mesmo jogo" também não é totalmente justo — porque em pelo menos um aspecto importante, o título anterior de PS1 fez algo melhor. Em SPIDER-MAN (2000), várias lutas contra chefes dependiam de interação com o ambiente. Nem sempre você simplesmente precisava socar o vilão repetidamente. Em vez disso, os encontros às vezes pediam que você manipulasse a própria arena — como atrair o Rino para dar de cara nos transformadores de energia, ou fazer o Homem-Areia perder areia nos ralos. Isso dava uma variada nas lutas de chefes.
Aqui, os encontros com chefes se dividem entre "bata nele até parar de se mover" ou "bata nele até ele parar de se mover enquanto vc está no ar". Eu imagino que muito devido aos prazos apertados para se lançar um tie-in e surfar no hype do filme, tem notavelmente muito mais repetição aqui. A luta contra o Abutre é exatamente a mesma que as três ou quatro vezes que vc luta contra o Duende Verde.
Então sim — como provavelmente dá para adivinhar pelo nome, Spider-Man: The Movie é bem um jogo licenciado de filme no sentido clássico do início dos anos 2000. É basicamente a terceira iteração de uma fórmula já estabelecida por SPIDER-MAN (2000) e SPIDER-MAN 2: Enter: Electro, agora vestida com os valores de produção da sexta geração e parte do orçamento ainda desviado para usar a dublagem dos atores originais do filme.
Isso, claro, não torna a coisa dolorosa de jogar. Longe disso. O loop central era sólido no PS1, e vê-lo renderizado com animação melhorada e arenas maiores ainda tem seu charme. Mas, ao mesmo tempo… ele definitivamente carrega uma forte sensação de "já estive aqui, já fiz isso antes".
Duas vezes.
MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 166 (Agosto de 2001)
EDIÇÃO 091 (Maio de 2002)
MATÉRIA NA EGM BRASIL
EDIÇÃO 002 (Maio de 2002)
EDIÇÃO 003 (Junho de 2002)




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