terça-feira, 7 de abril de 2026

[#1712][Mai/2002] SOLDIER OF FORTUNE 2: Double Helix

Sete meses atrás, eu escrevi sobre um dos jogos mais... diferentes... que eu já comentei nesse blog: SOLDIER OF FORTUNE. Só que o que tornava esse jogo bizarro não era exatamente o jogo em si, mas o fato de ser baseado numa revista real para mercenários. Sim, imagine uma Ação Games, mas em vez de dicas sobre como pegar todas as bananas em DONKEY KONG COUNTRY 2: Diddy's Kong Quest, você encontrava artigos avaliando armas de fogo e discutindo quais partes do mundo estavam em colapso o suficiente para justificar uma intervenção freelancer.

Tá, eu sei que vc é esperto o suficiente para sacar qual era realmente o público dessa publicação, talkey, e posso garantir que não era o John Rambo. Mas eu já contei essa história na análise anterior. O que importa aqui é que SOLDIER OF FORTUNE não foi apenas um dos jogos mais violentos já lançados até então, era também um shooter competente. Vendeu bem o suficiente para justificar uma sequência, e isso nos traz ao jogo de hoje.

Então aqui estamos com Soldado da Sorte 2: Helice Dupla, e… bem, vou ser sincero com vocês: não tem muito realmente o que dizer sobre ele. Não porque o jogo seja terrível, mas porque raramente ele faz algo interessante o suficiente para se comentar a respeito.


Vamos começar pelo começo: SoF2 roda na id Tech 3, mais conhecida como a engine por trás de QUAKE 3 ARENA, e já diz 90% do que vc precisa saber sobre o jogo. Os gráficos são excelentes para a época, especialmente os ambientes externos. A densidade da vegetação, a iluminação e os efeitos de chuva conseguem chamar atenção na comparação com muitos shooters do início dos anos 2000, o tiroteio é responsivo e imediato, bem na linha do que se espera de uma base derivada de Quake, e o manuseio das armas se beneficia dessa linhagem.

O arsenal em si não é particularmente criativo, mas é sólido. Você tem o conjunto esperado de pistolas, escopetas, fuzis de assalto, fuzis de precisão e granadas, com duas opções para cada categoria de arma. As mecânicas de sniper majoritariamente funcionam, embora o jogo seja estranhamente tacanho com esse tipo de munição. Resumindo, mecanicamente SoF2 entrega exatamente o que você esperaria de um shooter construído nessa engine: resposta rápida, detecção de acerto limpa e jogabilidade de tiro confiável.

No lado negativo, a violência foi notavelmente atenuada em comparação com o primeiro jogo. Isso pode soar estranho considerando a reputação da série, mas parece menos uma limitação técnica e mais uma mudança criativa deliberada, talvez de tentar ser um tactical shooter. De toda forma, o SOLDIER OF FORTUNE original era famoso — ou infame — por seu sistema de desmembramento GHOUL, que permitia que inimigos fossem desmembrados de maneiras perturbadoramente específicas. Double Helix usa uma versão atualizada desse sistema (GHOUL 2), mas a apresentação é mais contida no geral.


E essa contenção vai além da violência. O primeiro jogo era um giro geopolítico pelo mundo do final dos anos 90, onde você enfrentava uma lista do pior que a decada tinha a oferecer: extremistas do apartheid na África do Sul, instalações de tortura no Oriente Médio claramente inspiradas no regime de Saddam Hussein e um sortido de pesadelos paramilitares saídos diretamente dos telejornais. Era exagerado, de mau gosto e bastante memorável por causa disso.

Soldier of Fortune 2, por outro lado, muda para algo muito mais seguro e genérico. A trama gira em torno de uma arma biológica roubada e uma organização terrorista ameaçando uma catástrofe global — basicamente o mesmo modelo narrativo usado por SYPHON FILTER (inclusive no nome do vírus dar o subtítulo do jogo), mas também  metade dos shooters de PlayStation 1 e a maioria dos filmes de ação lançados direto para DVD entre 1998 e 2004. Muito antes de chegar à missão final, percebi que eu não conseguia lembrar de um único ponto relevante da história. Não pq é confuso, não pq é complicado — é apenas esquecível.

Infelizmente, o mesmo pode ser dito da dublagem. O jogo original tinha uma tipica dublagem ruim de videogames do final dos anos 90 que pelo menos lhe conferia personalidade. Aqui, as atuações são competentes, mas completamente anônimas. Ninguém está se envergonhando, mas ninguém está fazendo nada memorável também. É o tipo de dublagem que existe puramente para confirmar que houve diálogo.

Para não dizer que o jogo não tenta absolutamente nada de novo, é justo mencionar que Soldier of Fortune 2 faz um esforço para introduzir elementos furtivos. O jogo introduz pequenas mecânicas de interação, como arrombar fechaduras e cortar fios-armadilha, que no papel soam como adições significativas. Na prática, no entanto, essas ações geralmente se resumem a segurar a tecla de interação por um tempo aleatório. 

O sistema de furtividade em si é outro exemplo do design do início dos anos 2000 do tipo "bem, todo mundo está fazendo, então a gente também deveria". Se para até TOMB RAIDER: The Angel of Darkness ter tentado isso, é pq todo mundo e a mãe de todo mundo estava fazendo, fizesse sentido ou não. E como frequentemente acontecia naquela época, o resultado é quase inútil.

A detecção inimiga é inconsistente a ponto de permanecer escondido parecer menos estratégia e mais sorte. E uma vez que você alerta um guarda — e você vai alertar, a menos que dependa muito de save-scumming —, um alarme dispara e permanece ativo por toda a fase em que aparece. A partir desse ponto, os inimigos ficam permanentemente em alerta, o que efetivamente elimina qualquer motivo para continuar se esgueirando. O único nível onde a furtividade funciona razoavelmente bem é o prólogo, onde você escolta Ivanovich para fora do país. Depois disso, o sistema se torna majoritariamente decorativo.


No lado positivo — agora genuinamente positivo —, alguns dos problemas do primeiro jogo foram melhorados. Os itens de cura agora te curam automaticamente quando pegos, assim como a armadura, o que remove o desajeitado microgerenciamento de inventário do jogo original. E em vez de ficar alternando itens pelos menus, você pode atribuir atalhos para equipamentos específicos que está carregando. Isso é especialmente útil para os óculos de visão noturna que vc precisa ficar colocando e tirando o tempo todo, porque os desenvolvedores foram full TOMB RAIDER 3: Adventures do Lara Croft na iluminação "realista", e em várias fases não dá pra enxergar porcaria nenhuma.

Infelizmente, embora a interface tenha recebido melhorias significativas, o mesmo não pode ser dito da IA inimiga. Os inimigos tendem a cair em dois extremos: ou eles se comportam como mobília decorativa que se recusa a sair do lugar, atirando parados de onde estão até morrerem, ou de repente se transformam em sentinelas psíquicas da morte, capazes de lançar granadas perfeitamente posicionadas do outro lado do mapa sem nem mesmo ter linha de visão. Há muito pouco meio-termo entre esses dois estados. 

Tá, eu sei que a Raven Software não estava exatamente nadando em dinheiro e o jogo teve um ciclo de desenvolvimento relativamente rushado pq os boletos nunca esperam por ninguem. Ainda assim, mesmo levando isso em conta, o comportamento dos inimigos é muito mal polido. Essa sendo uma das areas em que a base técnica da id Tech 3 não pode fazer o seu trabalho por você. O resultado é um shooter que joga okay no loop de gameplay, mas que parece mal cozido sempre que os inimigos deveriam reagir de forma inteligente ao que você está fazendo. E em um jogo que ocasionalmente tenta se apresentar como uma experiência semi-tática em vez de um puro shooter arcade de correria e tiro, essa limitação se torna difícil de ignorar.

Então, o que posso dizer sobre Soldier of Fortune 2 é basicamente a mesma coisa que disse na minha review de SERIOUS SAM: The First Encounter: o jogo é bom e agradável de jogar, mas basicamente porque roda em uma engine sólida como uma rocha que faz a maior parte do trabalho pesado. Neste caso, essa engine é a mais que confiável id Tech 3, que praticamente garante tiroteios responsivos, desempenho estável e visuais que envelheceram melhor do que muitos de seus contemporâneos. Mas além dessa base técnica, o jogo raramente faz algo particularmente notável. Os cenários são bons, mas nada especiais. A seleção de armas é boa, mas nada especial. A violência é boa — mas... vc percebeu o padrão aqui. 

Soldier of Fortune II não é um jogo ruim. Na verdade, é consistentemente competente em quase todos os departamentos. O problema é que competência por si só não é suficiente para tornar um shooter memorável, especialmente no início dos anos 2000, quando o gênero evoluía a uma velocidade assustadora e os concorrentes estavam constantemente redefinindo expectativas. Fora de círculos de nostalgia muito específicos, ou da duvidosa decisão de vida que é manter um blog de jogos retrô como o meu, honestamente há poucos motivos para este jogo surgir em uma conversa hoje.

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