Como eu já mencionei algumas vezes antes, no final de 2001 quase ninguém mais estava investindo pesado em novos jogos para o PlayStation 1. E isso era especialmente verdade para um jogo lançando em setembro de 2001, num momento em que o PlayStation 2 já estava no mercado fazia um ano e meio e não era mais "nova geração", era simplesmente a geração atual. A indústria já havia virado a página.
[ESPERA, SETEMBRO? ESSE JOGO NÃO FOI LANÇADO EM NOVEMBRO DE 2001?]
Bom, então, sim — e é aí que a coisa fica curiosa. Originalmente, Filtro de Sifão 3 estava programado para chegar às lojas em 25 de setembro de 2001. Só que aí aconteceu uma coisinha meio chata nos Estados Unidos uns dias antes que fez a Sony considerar a possibilidade de que talvez lançar um jogo focado em terrorismo doméstico, armas biológicas e ataques em solo americano talvez não fosse a melhor ideia naquele exato momento. Some-se a isso o pânico do caso do antraz (lembra dele?) que veio logo depois do 11 de setembro, e de repente um jogo literalmente batizado com o nome de uma arma biologica talvez não fosse o timing mais adequado. Então o lançamento foi adiado para novembro de 2001 e todo o marketing do jogo refeito as pressas para se adequar as... digamos assim, recentes sensibilidades americanas.
Esse atraso, contudo, não muda muito o ponto aqui. Ainda era final de 2001, e naquela altura ninguém estava botando dinheiro de verdade num projeto de PS1. Bem, a boa notícia é que Syphon Filter 3 não realmente precisava de um orçamento astronômico, dado que ele trabalhava sobre fundações bem sólidas.
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| Essa é capa originalmente pretendida, mas cancelada pela Sony após os atentados de 11/9 |
O resumo da ópera aqui é que SF3 é meio que o TOMB RAIDER: Chronicles do nicho de ação furtiva com terrorismo doméstico. O que é um nicho bem específico, pensando bem. Seja como for, Gabe Logan e sua equipe são intimados a depor perante um comitê do Senado, e a história se desenrola através de uma série de flashbacks episódicos recontando operações anteriores ligadas à conspiração do Syphon Filter. Estruturalmente, essa estrutura explica bastante sobre o que o jogo é realmente: mecânica e visualmente, ele é essencialmente SYPHON FILTER 2, só que rearranjado num pacote mais modesto e com um level design menos ambicioso.
A maior parte das fases aqui são lineares, algumas são quase corredores, e os assets do jogo anterior são reutilizados direto, os cenários são mais simples, e a apresentação geral evita aquele tipo de showcase técnico que os capítulos anteriores tentavam de vez em quando. Como eu disse, é menos uma continuação e mais um remix feito com peças que já tinham funcionado antes. E enquanto eu não posso dizer que isso seja a coisa mais sexy ever, pelo menos "mais do mesmo" não chega a ser um problema quando o que você está repetindo é um dos melhores jogos de tiro do PS1.
Então, dá pra descrever SF3 mais como um DLC de SYPHON FILTER 2 — basicamente um pacote com missões adicionais vagamente interligadas, construído em cima de uma base já estabelecida. Só que nem essa comparação é muito precisa, pq chamar algo de "pacote de expansão" sugere que as missões são fortes
De vez em quando os desenvolvedores — ainda a mesma equipe, apesar da mudança do nome do do estúdio de Eidetic para Bend Studio, o que faz algumas reviews dizerem incorretamente que foi feito por um time diferente — tentam dar uma variada nas coisas... e vc meio que deseja que eles não tentassem. Missões de escolta dão as caras (sempre as favoritas da galera, obviamente), há tentativas de grandes tiroteios em área aberta que a engine claramente não foi feita para dar suporte, e... aquela sequência do hospital envolvendo a Teresa tentando evitar um parto prematuro aplicando um kit de primeiros socorros na peleleca de uma mulher grávida.
Essa é certamente uma das decisões de game design que já foram tomadas.
Então, no frigir dos ovos, a conclusão é que Syphon Filter 3 é apenas um remix de SYPHON FILTER 2. Cenários rearranjados, assets reciclados, design de fases simplificado, e uma narrativa-moldura que existe basicamente para costurar missões em flashback, em vez de levar a história adiante de forma significativa. É menos uma sequência e mais a xepa da feira antes que a quinta geração apagasse as luzes de vez.
Mas isso é algo ruim? Não exatamente.
Como eu disse antes, SYPHON FILTER 2 é um dos shooters em terceira pessoa mais fortes da quinta geração — possivelmente "Ô" melhor. Receber mais dessa fórmula não chega a ser uma tragédia.
Então isso é algo bom? Eu não usaria palavras tão fortes também.
É mais correto preciso dizer que é aceitável, talvez até bem-vindo, dentro de um contexto histórico em que o calendário de lançamentos do PlayStation 1 no final de 2001 já tinha virado camisa da saudade. O que significa que Syphon Filter 3 acaba ocupando uma posição estranha: não é "minha nossa, que jogo essencial", não é ambicioso, mas ainda assim é melhor do que a maioria do que o console estava recebendo naquela época. Então parabéns a Syphon Filter 3 por ser melhor que... SPEC OPS: Ranger Elite?
Convenhamos que a concorrência também não era lá essas coisas, né.
MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 165 (Julho de 2001)
EDIÇÃO 165 (Julho de 2001)




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