domingo, 14 de junho de 2026

[#1756][Jan/2002] GRANDIA XTREME

Em 2001, a Enix Corporation investiu 100 milhões de ienes na Game Arts — o que seria equivalente hoje a cerca de 1 milhão de dólares, mais ou menos. O objetivo era se firmar como a publisher por trás de um dos estúdios de RPG mais queridos da indústria, os criadores de clássicos emocionanais como GRANDIA e LUNAR: The Silver Star. E como você é um biscoitinho muito esperto, já deve ter imaginado que a Enix não assinou esse cheque pelo seu amor incondicional à narrativa emocional. Foi um investimento comercial e, como qualquer investimento, eles esperavam algo tangível em troca.

Bem, então que tal um Grandia novinho em folha? Parece um bom negócio, né? A franquia principal da Game Arts era um nome respeitado, aclamado pela crítica e comercialmente bem-sucedido o suficiente para deixar os investidores felizes. Havia apenas um pequeníssimo detalhe, tão insignificante que quase nem é digno de mencionar, mas... 


Algumas culturas possuem a estranha crença de que ter um jogo é um pré-requisito importante para lançar um jogo. Vai entender. Felizmente, a Game Arts não entrou em pânico. Em vez disso, eles olharam o que tinham a mão para apresentar aos seus novos sugar dadd— digo, publisher. A resposta era que GRANDIA tinha um dos melhores sistemas de combate por turnos já feitos. Mesmo que o jogo original seja um jogo de Saturn de 1997, suas mecânicas de batalha híbridas baseadas em timeline ainda pareciam mais dinâmicas e envolventes do que muitos RPGs lançados anos depois em sistemas bem melhores.

O problema é que esse sistema de combate era meio que a única coisa que eles tinham pronto para usar. Não tinham nenhum mundo novo, nenhuma história ambiciosa, nenhum elenco memorável, nenhuma grande aventura. Apenas uma mecânica de combate realmente, realmente boa. Então, naturalmente, eles se fizeram uma pergunta que todos estamos fazendo a esse ponto: pegar o sistema de combate sozinho, empacotar com um laço de fita por cima seria suficiente?

Bem, fosse suficiente ou não, não deixa de ser exatamente o que eles fizeram.

Grandia Xtreme é, essencialmente, o maravilhoso sistema de combate de GRANDIA 2 embalado dentro de um dungeon crawler e era isso, beijomeliga. Ele tem uma história, tecnicamente falando, mas mais por obrigação contratual do que por eles realmente terem alguma coisa pra dizer. A verdadeira atração é o combate em si e todo o resto é a saladinha de acompanhamento. Tá, só que XTREME porque atitude, SEU COROA!

E respondendo a pergunta anterior, se isso é suficiente, eu diria que "suficiente" é a palavra perfeita. Grandia Xtreme funciona bem como um dungeon crawler. Você pode sentar, escolher uma masmorra e entrar num estado confortável entre o engajamento ativo e o desligamento mental enquanto moe hordas de monstros. O combate é bom o suficiente pra se prestar a isso. Melhor ainda, esta versão da mecânica é baseada no sistema de combate de GRANDIA 2, mas foi desenvolvida especificamente para o hardware do PlayStation 2, permitindo que ela lide com significativamente mais efeitos, cálculos e ações simultâneas no campo de batalha.


Um exemplo de uma coisa feita no PS2 que não dava pra fazer antes é a forma como as trajetórias de projéteis são calculadas agora. Nos jogos anteriores, um ataque errado era apenas um ataque errado. Aqui, se um inimigo sai do caminho no último segundo, seu projétil continua viajando e tem uma chance de algum outro monstro coitado que estava atrás dele tomar uma de graça. É um toque pequeno, mas faz as batalhas parecerem muito mais físicas e dinâmicas. O resultado é um caos da melhor maneira possível. Magias irrompem pela tela, inimigos e aliados bloqueiam o caminho até o alvo, ataques se sobrepõem, partículas voam para todos os lados, o campo de batalha se torna uma bagunça em constante mudança de oportunidades e desastres. Ele pega um sistema de combate já excelente e gira o dial para o onze. Dadas as ambições limitadas do jogo, este é provavelmente o melhor resultado que alguém poderia esperar.

[NOTEI QUE VOCÊ MENCIOU O SISTEMA DE COMBATE DE GRANDIA VÁRIAS VEZES... VOCÊ VAI EXPLICAR COMO ELE REALMENTE FUNCIONA?]

Não acho que eu vá, Jorge.
Pq eu expliquei isso não uma, mas DUAS vezes: tanto na minha review original de GRANDIA quanto na minha review de GRANDIA 2. A informação está disponível. Vá ler aqueles textos. Expanda seus horizontes. Eduque-se. Seja uma pessoa melhor.


A história, se você precisa absolutamente saber... e infelizmente você precisa, porque embora a narrativa não seja exatamente o centro da experiência aqui, as cutscenes são estranhamente longas e completamente impossíveis de pular... Bem, Grandia Xtreme se passa em um mundo habitado por três raças: os militaristas Humanos, os Arcadianos dotados de dons mágicos e os Hazmans, tribais e bestiais. No início do jogo, esses grupos conseguiram manter uma paz tenue por vários anos. Naturalmente, por se tratar de um RPG, o universo decide que isso é estável demais e imediatamente introduz um fenômeno cataclísmico conhecido como "Desordem Elemental", uma série de distúrbios ambientais que ameaçam o mundo inteiro. Para investigar a crise, o Exército de Nortis, liderado pelos Humanos, lança um esforço de pesquisa e convida representantes das outras raças para participar. O que se segue é uma trama de fantasia previsível, mas funcional, envolvendo mistérios antigos e a obvia conclusão que de que os militares de Nortis podem não ser totalmente confiáveis.  E por "não totalmente confiáveis", quero dizer que a solução de longo prazo deles para as tensões raciais envolve remover todas as demais raças envolvidas. Porque como a história sempre deixou bem claro, limpeza etnica sempre é a especialidade da casa quando se trata de seres humanos.

Para ser justo, a história não é ofensivamente ruim, apenas agressivamente funcional. Tudo é projetado para justificar por que você está repetidamente se aventurando em ruínas e depois retornando à cidade central (como é obrigatório em todo dungeon crawler) para comprar suprimentos, atualizar Ovos de Mana, aprender novas habilidades e se preparar para a próxima expedição. 

Dito isso, se a Enix queria mostrar onde parte daquele dinheiro de investimento foi parar, certamente ele não foi gasto no atacadão de dubladores em liquidação pq o elenco de vozes em inglês é bem estrelado. Mark Hamill interpreta o antagonista Coronel Kroitz, e ter o dublador lendário do bobo, do Coringa, do palhaço, do Joker, sempre é uma coisa boa. Dean Cain — mais conhecido como Superman em Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman — interpreta Evann, enquanto a cantora e compositora Lisa Loeb dá voz a Lutina. Para um jogo cuja narrativa existe principalmente para encher linguiça entre masmorras, os valores de produção são estranhamente luxuosos. Como um dono de parque famosamente declarou enquanto violava todas as regulamentações da CIPA conhecidas pela humanidade: "Não poupamos despesas"


E... bem, isso é essencialmente Grandia Xtreme.
É o sistema de combate de Grandia, mas XTREME.

E "XTREME" aqui não significa os mundos cuidadosamente construídos, as histórias memoráveis de amadurecimento ou o senso de aventura tipicamente associados à série. Significa batalhas maiores, masmorras maiores, mais loot, mais grinding, mais explosões e consideravelmente menos preocupação com coisas como ritmo ou desenvolvimento de personagem.

Como dungeon crawler, no entanto, funciona surpreendentemente bem. O combate continua excelente, os sistemas de personalização são profundos o suficiente para sustentar dezenas de horas de experimentação, e a dificuldade pode ser brutal às vezes. Certos chefes estão aqui para te lembrar de que todo aquele grinding não era opcional, afinal. Minha maior reclamação é que o jogo é muito mais burocrático do que precisaria ser. Se você quiser salvar ou descansar no meio da masmorra, precisa achar um waypoint dentro da masmorra, voltar para a cidade, salvar seu progresso, recuperar seus recursos, então retornar ao waypoint e continuar sua expedição. Não é exatamente difícil, é apenas uma quantidade tediosa de papelada administrativa para um jogo que, de resto, é sobre explodir monstros. Por que o cristal não poderia simplesmente funcionar como um ponto de salvamento e estação de cura, como em GRANDIA 2?


Ainda assim, apesar dessas frustrações, Grandia Xtreme tem sucesso no que se propõe a fazer. É um dungeon crawler competente e agradável, construído em torno de um dos melhores sistemas de combate de RPG de sua época. Pessoalmente, acho que já não tenho mais fôlego para sessenta e tantas horas de  grinding, mas reconheço que esse público existe.

E para esses jogadores, o jogo pode muito bem ser Xtremo o suficiente.

MATÉRIA NA EGM BRASIL
EDIÇÃO 001 (Abril de 2002)


EDIÇÃO 002 (Maio de 2002)