Eu costumo avaliar uma obra de arte com base em um de dois critérios: intenção ou execução. Ou seja, o que impressiona é algo que realmente significa algo em um nível artístico, ou então algo cuja simples existência parece um pequeno milagre. Veja, por exemplo, uma das minhas músicas favoritas: Through the Fire and Flames, do DragonForce. Não é uma meditação profunda sobre os cantos sombrios da alma humana, nem aspira a fazer uma grande declaração filosófica. Seu valor não está na profundidade temática — está na pura performance. Aqueles riffs de guitarra são inumanos. Quem já jogou Guitar Hero III sabe exatamente do que estou falando. A música é impressionante porque parece impossível, e ainda assim lá está, executada com perfeição.
Claro, quando algo consegue ser um feito técnico E carregar uma genuína intenção artística, é ainda melhor. Esse é o Santo Graal. Mas não é um requisito que imponho a cada obra de arte que consumo. Sou perfeitamente capaz de apreciar algo puramente pelo nível absurdo de habilidade, disciplina e coordenação necessário para realizá-lo.
... o que me faz ponderar que — isso vai soar estranho para algumas pessoas — eu realmente considero a luta livre profissional uma forma de arte. Quer dizer, um cidadão de 150 quilos de músculos pulando do topo de uma jaula de aço sobre outra pessoa, e ninguém se machuca no processo? É uma façanha de performance absurda. É coreografia, timing, confiança e narrativa física levada a extremos cartunescos. Mas divago.
O objetivo deste pequeno desvio filosófico é explicar por que eu sou profundamente tendencioso a favor da animação em stop-motion. Porque, sério, essa coisa é insanamente difícil de fazer. Pense por um momento. Primeiro, você precisa construir um diorama inteiro — o que já é dificil pra caceta. Depois, você tira uma foto. Em seguida, ajusta levemente a posição de cada objeto, personagem ou membro relevante para simular movimento e fluidez. Aí você tira outra foto. E faz de novo. E de novo. E de novo. Vinte e quatro vezes por segundo de filme (um pouco mais ou um pouco menos dependento das sua escolha estética). Por minuto, isso é uma quantidade obscena de trabalho microscópico, paciência e precisão. É quase masoquista.
Só por esse motivo, o stop-motion já tem o meu respeito. Não há atalhos, nem correções digitais capazes de fazer o trabalho pesado por você. Cada quadro existe porque alguém o fez existir fisicamente. E quando você acrescenta a isso o melhor do humor britânico — seco, afiado e com timing perfeito — você acaba com algo genuinamente especial.
O que, neste caso, é o que chamamos de "Fuga das Galinhas".
Agora, Fuga das Galinhas não é exatamente o filme mais filosoficamente denso já feito, nem se apoia muito em simbolismo. É basicamente uma releitura direta de The Great Escape... mas com galinhas. E nem é uma releitura muito simbólica, as galinhas são literalmente prisioneiras de guerra, e digo isso no sentido pleno do cenário: cercas de arame farpado, lama por todo lado, torres de vigia, guardas que parecem nunca ter sorrido uma única vez na vida — o pacote completo. A única diferença real é que, em vez de soldados britânicos, temos galináceos. E em vez nazis frios e metódicos, nossa Hans Landa residente se chama Sra. Tweedy.
A maior parte do filme gira em torno das peripércias das galinhas tentando escapar das maneiras mais elaboradas e cartunescas possíveis, apenas para falhar repetidas vezes até o dia em que um galo yankee tagarela e voador cai de paraquedas em sua prisãozinha miserável. Naturalmente, as galinhas presumem: é isso. Esse é o milagre. Se ele pode voar, então talvez — só talvez — todas elas possam aprender a fazer o mesmo. E, claro, desde o primeiro momento você percebe que o galo é uma fraude, e daí a comédia segue. Ele é um vigarista, um showman, cheio de bravata e promessas vazias, e o contraste entre a esperança desesperada das galinhas e as bobagens improvisadas dele alimenta algumas das melhores piadas do filme. O filme aposta muito no pastelão, na exageração e na farsa, nunca fingindo ser mais sério do que realmente é. Como eu disse, esta não é uma exploração profunda da alma humana. Não é Um Sonho de Liberdade. Não é nem sequer Alien³. Mas não precisa ser. Fuga das Galinhas sabe exatamente o que é e joga com seus pontos fortes. É energético, inteligente e implacavelmente divertido.
Muito do que faz este filme funcionar é, claro, o mais icônico humor britânico imaginável. É um tipo de comédia construída menos em piadas prontas e mais em sagacidade seca, sarcasmo, autodepreciação e ironia — tratando o absurdo como se fosse completamente mundano, entregue com uma expressão séria e zero ênfase emocional. A graça não está no fato de algo ridículo estar acontecendo; a graça está em todo mundo agir como se fosse perfeitamente normal.
Um ótimo exemplo disso é a piada recorrente envolvendo o Sr. Tweedy. Ele esta profundamente desconfiado de que as galinhas estão tramando algo — o que, para ser justo, elas absolutamente estão — mas todas as vezes que ele tenta provar isso para sua oficial superior (ou, mais precisamente, para a Sra. Tweedy), ele se dá mal. Afinal, são só galinhas. Como galinhas poderiam estar tramando alguma coisa? Suas preocupações são descartadas não porque estão erradas, mas porque no papel parecem insanas.
O que faz a piada funcionar tão bem é que o Sr. Tweedy está certo e é tratado como um lunático. Conforme o filme avança, o gaslighting constante o desgasta a ponto de ele começar a questionar sua própria sanidade, mesmo enquanto se agarra teimosamente à crença de que aquelas galinhas estão tramando alguma coisa. É paranoia usada para gerar risadas, mas com aquele tempero muito britânico onde a obsessão cozinha em silêncio em vez de explodir. Ele nunca desiste e essa recusa teimosa em ceder — apesar de todas as evidências contra ele — o torna uma das piadas recorrentes mais engraçadas do filme. E, claro, a ironia final é que ele está certo o tempo todo. As galinhas realmente estão conspirando. As desgraçadas espertas.
Agora, não estou dizendo que o filme é totalmente voltado para piadas. O filme abre com uma cena surpreendentemente pesada mostrando que as galinhas estão sim em um risco muito real e nada simbólico, e se você realmente quiser, pode também absolutamente ler um subtexto sobre opressão da classe trabalhadora sob o capitalismo: as galinhas só têm valor enquanto cumprem uma cota mínima de ovos, e assim que param de ser produtivas, vão pra panela. Não é forçar a barra, e eu entendo que muitas pessoas — meu eu adolescente incluído — seguiram por essa rota interpretativa.
Hoje em dia, porém, estou menos inclinado a ver Fuga das Galinhas através dessa ótica. Neste ponto da minha vida, tendo a levar o filme mais pelo valor de face. Para mim, funciona melhor como aquilo que claramente é: uma paródia carinhosa dos clichês de filmes de prisioneiros de guerra, um gênero que foi muito prolífico durante a juventude dos criadores Nick Park e Peter Lord. Isto não é um manifesto secreto para uma revolta marxista. Não é uma carta velada de "às armas, meus irmãos proletários", nem tem Soyuz nerushimy respublik svobodnykh tocando no fundo. Não é esse tipo de filme, e tentar forçá-lo nesse molde parece meio que não não entender a piada.
O que é uma crítica com a qual eu concordo, entretanto, é que o filme se apoia fortemente em arquétipos estereotipados de personagens. Você tem a rebelde idealista que se recusa a aceitar que a vida é só isso. Você tem o yankee falastrão que começa como um vigarista egoísta e lentamente revela que na verdade tem um coração. Nada disso é remotamente imprevisível. Você pode ver cada batida narrativa a quilômetros de distancia.
E ainda assim, funciona. O filme usa esses clichês bem. As interações entre os personagens são afiadas, engraçadas e consistentemente cativantes, mesmo quando você sabe exatamente aonde vão chegar. Vê-los interagir nunca fica chato, e é um lembrete importante que, não importa o quão gastos os clichês possam parecer, clássicos são clássicos por um motivo. No fim do dia, a execução ainda é o que mais importa — e Fuga das Galinhas executa muito bem.
Some a isso a maravilhosa animação em stop-motion da Aardman Studios — a quantidade absurda de trabalho despejada em cada quadro — e você tem algo que nunca deixa de entreter. Sinceramente, só os mecanismos absurdamente elaborados da máquina de tortas já valem o ingresso. A maneira como engrenagens, correias, lâminas e mecanismos se movem em uma harmonia tátil e desengonçada é o tipo de artesanato que você sente nos ossos.
Mas muito que bem, isso sendo dito, vamos então fazer o que realmente viemos fazer aqui e falar sobre o jogo licenciado do PlayStation 1... embora não haja realmente tanta coisa assim pra dizer.
A esta altura, você já sabe como os tie-ins licenciados geralmente funcionam. Você enfia um monte de cenas do filme entre as fases — massacradas para caber na resolução do PS1, ou um pouco menos massacradas se estiver jogando a versão do Dreamcast — e torce para que ninguém pense muito no que está realmente fazendo no jogo. A suposição é que a marca carregará a experiência, e nove vezes em dez, essa suposição está correta.
Caso você se importe, no entanto, aqui está o resumo. Você joga como Ginger, e a maior parte do jogo consiste em andar pela fazenda coletando objetos para os vários mecanismos que as galinhas usarão em suas tentativas de fuga. É uma estrutura de missões de busca, simples assim. Para adicionar um pouco de tensão, a área é fortemente patrulhada por cães e os Tweedys, e se você for pego, perde um dos itens que está carregando.
Felizmente, você pode entregar os itens um de cada vez, em vez de segurar tudo até o final. Isso significa menos perdas que induzem à raiva, supondo que você esteja disposto a fazer a viagem de volta ao galinheiro — o que, para ser justo, não é tão doloroso, já que o mapa é relativamente pequeno. É funcional. Esse é o elogio que eu posso dar.
Polvilhe aqui e ali um punhado de minigames completamente medianos mas okay, e esse é o pacote inteiro. Em pouco mais de uma hora, você terá visto tudo o que o jogo tem a oferecer. Isso não é inesperado, mas também não é extraordinário — especialmente para um tie-in licenciado que a maioria das pessoas provavelmente comprou como presente para os sobrinhos porque tinha um filme de animação reconhecível na capa.
Quer dizer, qualé. Já estamos com quase 1700 reviews até agora. A esse ponto eu não preciso realmente explicar para você como os jogos licenciados funcionam, e o jogo da Fuga das Galinhas é exatamente isso. Nada mais, nada menos. Bastante isto.
MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 157 (Novembro de 2000)
EDIÇÃO 160 (Fevereiro de 2001)
MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 080 (Novembro de 2000)
EDIÇÃO 084 (Março de 2001)








.webp)
.webp)









