quinta-feira, 16 de julho de 2026

[#1775][Abr/2002] ALFRED CHICKEN

O tempo é uma coisa inclemente, não é?

Quando você para para pensar nisso, o tempo é uma das forças no universo que simplesmente não tem nada que se possa fazer a respeito. Você não pode argumentar com ele, barganhar, dobrá-lo à sua vontade ou pedir mais cinco minutos. Talvez um dia a humanidade descubra como bullynar as leis da física até a submissão, mas duvido que isso aconteça durante a minha vida. O tempo continua em frente, indiferente a se você está pronto ou não.

Ainda me lembro de quando eu era um jovem e otimista resenhista deste blog, produzindo resenhas horrorosas de SNES e Mega Drive enquanto sonhava com o dia glorioso em que finalmente chegaria à era do PlayStation. Bem... isso foi há muito tempo atrás. O PS1 chegou, conquistou, virou história, e agora já estamos até o pescoço na sexta geração, onde os jogos são exponencialmente maiores, mais bonitos e mais ambiciosos. No entanto, de vez em quando, algum lançamento de orçamento limitado do PS1 esquecido acaba boiando até a praia, e não consigo deixar de olhar para ele pensando: "Hã... o PlayStation 1 ainda... é uma coisa, eu acho?"

E é exatamente por isso que estamos aqui hoje.
Porque hoje o PS1 ainda está vivo... graças ao Alfredo.
O galo.


O mesmo galo que uma vez concorreu a governador — sim, isso aconteceu mesmo e eu já cobri essa bizarrice na minha review de SUPER ALFRED CHICKEN. De alguma forma, esse descendente de dinossauros de aparência completamente comum conseguiu se tornar um mascote recorrente dos videogames, gerar múltiplas sequências e sobreviver até depois da virada do milenio... e eu não saberia explicar a razão disso que senão a Europa soca qualquer bucha nas crianças. Existem inúmeros mascotes de plataforma esquecidos dos anos 90 que, no mínimo, tinham armas laser, atitude ou óculos escuros a seu favor. O Alfredo? Ele é só... um galo. Chamado Alfredo.

Você pode pensar que estou enrolando porque não tenho nada a dizer, o que é exatamente o que eu estou fazendo. Mas então... é o galo Alfredo. O que exatamente você espera que eu escreva? Uma análise profunda de suas motivações? Seu arco de personagem? As implicações geopolíticas de ser um galináceo?


A maior mudança neste lançamento de 2002 para SUPER ALFRED CHICKEN é o salto dos sprites 2D para modelos 3D coloridos. A apresentação não é exatamente o estado da arte dos videogames — mesmo para os padrões do PS1, parece bem modesta — mas preserva a estética cartoon que sempre definiu a série. Ou pelo menos definiria se alguém lembrasse de que o galo Alfredo existiu.

Mecanicamente, porém, isso basicamente um Euro-platformer até o osso. O que quer dizer que apesar de ter sido lançado em 2002 no PS1, parece um jogo de Amiga em 1993: a movimentação é flutuante e bem frouxa, a inércia demora uma eternidade para morrer, e o jogo todo passa aquela energia de ser uma grande fase de gelo. 

Seu conjunto de movimentos também não ajuda muito. Você pode pular, executar o famoso dive-bomb™ do Alfred e... bem, isso é basicamente todo o documento de design do jogo. O que não é necessariamente um defeito por si só — muitos plataformas excelentes são construídos em torno de um pequeno número de mecânicas — mas Alfred Chicken nunca desenvolve essas mecânicas em algo particularmente interessante. Não que vc devesse esperar níveis de complexidade no nível DEVIL MAY CRY, mas então vc não deve esperar sequer níveis Nintendinho de gameplay — não ironicamente, jogos como LITTLE SAMSON ou ZODA'S REVENGE: StarTropics 2 são infinitamente mais complexos do que isso. Você pula, você mergulha-bomba, e é o que a casa tem a oferecer.


No fim das contas, Alfred Chicken abraça quase todos os estereótipos associados aos jogos de plataforma europeus... e isso não é uma coisa boa. O level design é tentativa e erro repleto de momentos "AHÁ! TE PEGUEI!" com armadilhas sacanas, quebra-cabeças obscuros e design de fases altamente questionável. 

Mas tá, vá lá. Este foi um título de orçamento bem limitado exclusivo para a Europa que claramente não estava tentando competir com o PS2, GameCube ou Xbox. Foi feito para crianças britânicas que ainda teriam que esperar três anos pela volta de Doctor Who a TV e cujas famílias ainda não tinham feito o upgrade, e que portanto estariam felizes em tirar mais um jogo do velho PlayStation cinza antes de finalmente seguirem em frente com suas vidas. Por esses padrões, o objetivo não era revolucionar os plataformas — era simplesmente proporcionar mais uma locação para o fim de semana (embora o jogo possa ser terminado em uma hora sem nenhum fator de replay, então melhor programar outras atividades para o seu fim de semana)

E ao menos isso ele consegue fazer. Pode ser dolorosamente antiquado e desajeitado, mas então ao menos é consideravelmente mais jogável do que a imensa maioria dos jogos de plataforma europeus dos anos 90. Não é uma barra lá muito alta? Não, não é. Mas acredite, eu já fui punido com eurotrash o suficiente pra apenas agradecer um jogo que não te faça acordar gritando em suor no meio da noite.

MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 091 (Maio de 2002)