
Assim, BEatMANIa virou Bemani, a coletanea em eterna expansão da Konami de jogos de ritmo construídos em torno de controles-gimmick. Como por exemplo GUITAR FREAKS, com seu controle proto-Guitar Hero. Ou DRUMMANIA, permitindo que os jogadores vivessem o sonho de ser o... hã... okay, eu sou uma negação em música e não conheço nenhum baterista famoso, mas esse aí que você pensou. E, claro, temos também a joia da coroa da franquia: DANCE DANCE REVOLUTION, um jogo tão icônico que mesmo se você nunca jogou, certamente já viu um no fundo do fliperama de um shopping ocupado por um adolescente tentando ascender a um plano superior de cardio.
Então, agora que estamos todos na mesma página sobre o que é a série Bemani, não é preciso ser um gênio para adivinhar o que é o KeyboardMania. Sério, eu acredito em você.
Pensa (vai doer um pouco, mas eu sei que você consegue).
Então sim, KeyboardMania é exatamente o que parece: o título Bemani em que você toca usando um teclado falso… só que a Konami exagerou na dose nesse. O "teclado falso" deles não é nada falso. Essa coisa tem 24 teclas reais e funcionais, e você pode realmente tocá-lo como um instrumento legítimo. É como se a Konami tivesse olhado para todos os seus controles de plástico bobinho anteriores e dito: "Nah, dessa vez vamos full Yamaha."
E ao contrário dos outros controles da Bemani – que são basicamente brinquedos glorificados com forma de instrumentos musicais – o periférico do KeyboardMania é essencialmente um teclado MIDI de verdade. Tanto que, ao contrário de outros jogos onde você está preso a qualquer música de Eurobeat brega ou J-pop hiperativo que vier no pacote, aqui você pode realmente tocar suas próprias músicas. Pelo menos na versão de PS2. Porque nos arcades, obviamente que isso não funciona. A Konami quer suas fichas, sua carteira, sua dignidade – tudo. E alguém parado em pé em um fliperama ocupando a máquina compondo uma balada sincera sobre suas escolhas de vida são fichas que não estão entrando. Então, não.
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| O acessório para PS2 |
Considerando que o jogo de fato tem músicas licenciadas mas nenhum sucesso mundial estrondoso como os que fizeram o DANCE DANCE REVOLUTION um nome conhecido – poder tocar suas próprias músicas é um recurso legitimamente legal. Claro, totalmente desperdiçado em alguém com habilidades negativas para o teclado como eu, claro, mas ainda legal.
Mas toda essa ambição veio com um preço.
Literalmente.
O KeyboardMania 2nd & 3rd Mix Complete Set (jogo de PS2 + o controle de 25 teclas) foi lançado por impressionantes ¥19.800. Ajustando pela inflação, isso dá mais ou menos 150 dólares hoje – ou seja, mais que o dobro do preço de um lançamento AAA moderno. O preço alto refletia o controle complexo de teclado, sensível à velocidade e com sua roda de pitch bend, que era muito mais caro de fabricar do que um controle de guitarra ou uma dance pad.
Previsivelmente, as vendas despencaram. Acontece que a maioria das pessoas não queria pagar o preço de dois jogos por um jogo de ritmo, e não ajudava que você não podia comprar o jogo sem o teclado pq você absolutamente não pode jogar com um controle padrão. Diferente de toda outra entrada da série Bemani – onde, claro, o controle-gimmick é o ponto principal, mas pelo menos você tecnicamente pode jogar sem ele – o KeyboardMania exige todas as 24 teclas para funcionar. Tanto que a Konami aprendeu a lição e, para o KeyboardMania 2, adicionou compatibilidade com qualquer teclado MIDI USB, o que tornou a coisa toda muito mais acessível – e muito mais barata – se você já tivesse um.
E sim, eu estou ciente de que alguns updates do KeyboardMania original (2nd e 3rd Mix) também davam suporte a teclados Yamaha específicos, mas me parece que isso foi mais um aperto de mão corporativo do que um upgrade de acessibilidade de verdade. "Claro, você pode usar um teclado nosso, mas só se for um dos três modelos sobre os quais nós fechamos um contrato para isso."
Ainda assim, foi um passo na direção certa… mesmo que tenha vindo tarde demais para salvar a série da desgraça financeira de ser cara demais, nichada demais e comprometida demais com o realismo para o seu próprio bem. Ao contrário dos outros jogos Bemani, vc meio que precisa tocar a música de verdade aqui e não sei você sabe, mas música é um negócio difícil pra caceta. Eu não estou dizendo que isso é um defeito, é uma escolha de design, mas as consequencias financeiras para a longevidade da série são bem nítidas. É ambicioso, é superengenheirado, é caro e absolutamente não é para todo mundo. Sinceramente, é quase para ninguém. Mas é exatamente por isso que tem personalidade.
O KeyboardMania vai te ensinar a tocar teclado? Provavelmente não.
Vai te tornar um músico melhor se você já sabe? Menos ainda.
Vai impressionar seus amigos? Só se seus amigos forem do tipo que se anima com periféricos japoneses obscuros do lançamento do PS2 – o que, pra ser justo, pode te descrever se você está lendo este blog.
Então para quem esse jogo foi feito, KeyboardMania é uma adição interessante. E eu com certeza não sou uma dessas pessoas, dado que eu consigo tocar um único acorde sem fazer o Beethoven se revirar no túmulo com força suficiente para causar um terremoto de menor magnitude.



