quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

[#1617][Nov/2000] CRASH BASH

Crash Bash é um daqueles jogos. AQUELES jogos, sabe? Bom… provavelmente ainda não, mas me permita explicar sobre que tipo de jogos estou falando.

Existem alguns títulos que você percebe imediatamente quem realmente jogou a coisa e quem está apenas papagaiando qualquer bobagem que ouviu na internet. Pegue WILD ARMS, por exemplo. Se alguém declarar que é um "RPG de tema de faroeste", parabéns— você pegou um impostor com a mão na massa. Porque, apesar do título e de uma música do mundo aberto que realmente parece composta pelo Ennio Morricone, Wild Arms contém aproximadamente zero, nada, niente de elementos western. É um mundo de fantasia medieval padrão com reinos, castelos, princesas e essas porra tudo, e um bem genérico nisso.

Ou então CONKER'S BAD FUR DAY. Se alguém afirmar que a girassol peituda é a coisa mais chocante do jogo, essa pessoa não jogou coisa nenhuma. Porque a girassol não pega nem top dez da lista de "Como diabos isso foi lançado num console da Nintendo?". Aquele jogo escala de um jeito que os censores da ESRB ainda acordam gritando a noite até os dias de hoje.

E agora que estamos todos na mesma página sobre AQUELES jogos, me permita dizer o seguinte: Crash Bash é absoluta e inequivocamente um DAQUELES jogos. Porque no momento em que alguém te diz que Crash Bash é "MARIO PARTY do PS1", pronto, pego na mentira. Essa pessoa ou nunca jogou Crash Bash, ou nunca jogou MARIO PARTY… ou, o mais provável, nenhum dos dois. Crash Bash não é o "MARIO PARTY do PS1" — nem de perto. Crash Bash é mais o "A Naughty Dog pegou o chapéu e disse 'Pessoal, a gente tá meio de saco cheio do Crash, vamos fazer outra coisa da vida agora' e a Sony disse 'Legal, mas a gente vai continuar ordenhando essa vaca mesmo assim'" do PS1.

Então, vamos deixar isso cristalino: Crash Bash não é um jogo de tabuleiro. Você não anda por um tabuleiro. Você não joga dados. Você não usa power-ups para sabotar seus amigos. Você não coleta estrelas, frutas, almas ou qualquer bugiganga arbitrária que party games geralmente jogam em você. Não é MARIO PARTY. Não é nem SONIC SHUFFLE — e sejamos honestos, SONIC SHUFFLE pelo menos tentou ser um jogo de tabuleiro antes de desmoronar sob seus próprios tempos de loading.

Estamos todos esclarecidos sobre isso? Bom. Agora que concordamos sobre o que Crash Bash NÃO é, a pergunta óbvia é: que diabos ele é, então? Bom, a maneira mais simples de explicar Crash Bash é esta: é uma coleção de seis minigames de uma única tela.

Seis.
Não sessenta. Não vinte. Nem dez.
Seis.

Cada um desses seis jogos vem com um punhado de pequenas variações de regra — modos alternativos, power ups levemente diferentes, coisas assim. Mas no grande esquema das coisas, você ainda está lidando com seis brinquedos básicos na caixa de brinquedos. Isso é… impressionante, mas não de um jeito bom. Estamos nos aproximando da era de lançamento do 3DO aqui. Quer dizer, JURASSIC PARK INTERACTIVE foi lançado com exatamente esse mesmo número de minigames, e essa é uma comparação que você nunca quer que seja feita para o seu jogo. Um jeito absolutamente prime de gastar cinquenta dolares, eu te digo.

Mas ei — números não são tudo. Um jogo pode ter seis minigames e ainda ser ótimo se esses minigames forem bons o bastante.
Certo?

… Certo?

Vamos começar com Ballistix, o air hockey para quatro jogadores. E esse minigame é… hã… bom… air hockey para quatro jogadores. É isso. É a proposta. Quer dizer, sério — o que mais você precisa que eu descreva que a frase "air hockey para quatro jogadores" já não explica? 

Sim, Crash Bash tenta apimentar as coisas com algumas variações de modo: tem a versão com ímãs para você segurar as bolas e soltar um power shot, e tem aquele modo com uma bola de atordoamento colorida que não marca gols mas vai te stunear se você tentar interceptá-la. Ideias curiosas, claro… mas no fim do dia, você ainda está jogando air hockey para quatro jogadores.


É divertido o suficiente quando você tem amigos em casa — se eles já estão na sua casa, já estão no seu sofá, já são muito educados para ir embora. Mas esse não é o tipo de jogo que faz você ligar pros seus camaradas e dizer:

"Mano, traz toda Fanta Uva e Doritos que você conseguir carregar.
Eu tenho um jogo irado de air hockey para quatro jogadores!"

É… não. 

E jogar Ballistix contra a CPU? Ah, cara. Começa deprimente, porque você se lembra que você nunca, em toda sua vida somada possuiu três amigos. E então fica ainda mais triste quando a IA procede lavando o chão com a sua cara. Porque é claro que ela faz. A dificuldade da CPU no Crash Bash varia de "bullying leve" a "espero que você não esperasse aproveitar sua noite", e Ballistix adora te mostrar em que lado dessa escala você está.

Então sim. Ballistix: é air, é hockey, é para quatro jogadores, e é… ok.
Só não espere mais do que a descrição sugere.

Polar Push é o Bumping Balls do Crash Bash. Ok, talvez esse nome não toque um sino imediatamente, mas você definitivamente conhece o meme: "Luigi vence sem fazer absolutamente nada." É — aquele mesmo. Aquele minigame icônico do MARIO PARTY onde a maravilha verde vence ao ficar literalmente fica parado.

A versão do Crash Bash tem a mesma ideia no papel: você está numa arena circular, e seu trabalho é derrubar seus oponentes para fora da borda com empurrões, como lutadores de sumô no gelo. Tem variações — porque é claro que tem — como power-ups que eliminam quem estiver com ele quando a contagem terminar ou o raio de SUPER MARIO KART que encolhe todo mundo e torna empurrar mais fácil. 

No entanto, por favor, observe a seguinte diferença: Você NÃO pode vencer sem fazer absolutamente nada. Não aqui. Nunca. Porque como já discutimos, a CPU no Crash Bash não é sua amiga. A CPU não relaxa. A CPU não dá respiro. A CPU não acredita em espaço pessoal.


Agora, Pogo Pandemonium — o jogo que Crash Bash aparentemente roubou de Splatoon antes de Splatoon sequer existir, mas com pogo sticks por algum motivo. A premissa é que você pula por uma grade, pintando as peças do chão da sua cor simplesmente passando por cima delas. Então, sempre que você pega uma caixa roxa, todas as peças da sua cor se convertem instantaneamente em pontos. Naturalmente, isso encoraja a sagrada arte do vandalismo competitivo, porque você pode absolutamente passar por cima dos tiles dos seus oponentes e roubá-los… e eles podem fazer o mesmo com você. É basicamente guerra de território com marsupiais e pogo sticks.

Tem também uma variante onde você vai full Qix, desenhando bordas para preencher seções inteiras da arena assim que você fecha a forma. E não, obviamente, eu nunca joguei Qix. Nem Splatoon. Mas na minha cabeça essa explicação faz todo o sentido.


Crate Crush é essencialmente o POY POY australiano.
Você se lembra do POY POY?
Claro que não. Ninguém lembra do POY POY. Eu continuo usando esse jogo como referencia e aí eu me pergunto por que não tenho amigos. Verdadeiramente um mistério digno do Scooby-Doo.

Enfim — Crate Crush.
Você pega coisas.
Você joga coisas nos seus amigos.
Seus amigos jogam coisas de volta em você.
É como jogar Truco, mas ao invés de cartas você tem caixas de fruta explosivas. E não, eu nunca joguei Truco também. 


Agora Tank Wars — a carta de amor do Crash Bash para Battle City no NES.

Você se lembra do Battle City, né? O jogo onde você passou metade da sua infância explodindo tanques e a outra metade fazendo labirintos esquisitos no editor de fases só para ver se seu primo conseguia escapar deles? Pois é. O editor era metade da graça. Tank Wars traz de volta a parte da batalha de tanques… mas deixa o editor enterrado no passado, onde todos os nossos sonhos de infância vão para morrer.

O que é uma pena, sério. Eu gostava mais de construir fases no Battle City do que realmente jogá-lo.
O que, mais uma vez, provavelmente explica minha falta de am—
…ok, você já entendeu a ideia. Em frente.

Enfim, Tank Wars:
Você tem um tanque.
Você atira.
Você tenta não ser atingido.
Uma boa regra para esse jogo, e honestamente, uma sólida filosofia de vida se você algum dia se encontrar num filme do Michael Bay.

E por falar em desenterrar coisas da cripta da história dos jogos, o minigame final é Crash Dash… que basicamente exuma Spin-Out do Odyssey² (ou, como viemos a conhecer aqui no Brasil, Interlagos). Sim, aquele jogo. Aquele que alguma vez você disse "não tem como ficar mais real que isso" enquanto você olha para o que parece dois quadrados se perseguindo.

E isso definitivamente traz memórias para mim — foi um dos primeiros jogos que já joguei na vida. Digo literalmente dos primeiros mesmo, tipo cinco ou seis anos de idade, mal senciente, mal capaz de segurar o controle, mas já formando opiniões sobre frame rates. Então o Crash Bash reviver esse conceito em 2000 é… ousado. Vamos chamar de ousado. Mas fundamentalmente, ainda é uma ideia de jogo de corrida de 1978 vestindo gráficos de PS1.

O clássico de 1978

Você dá voltas, desvia de minas ou obstáculos, tenta não derrapar, e é basicamente isso. E se você já tentou jogar um jogo de console de segunda geração hoje — ou mesmo na era do PS1 — você sabe a verdade: não tem muito para ver depois dos primeiros três minutos. Uma vez que a curiosidade passa, tudo o que resta é a reflexão existencial de: "Uau. O salto da segunda para a quinta geração foi maior que o pulo da quinta para a oitava."

Porque realmente foi. Ir de quadrados blocosos fingindo ser carros para mundos 3D completos foi como testemunhar a evolução em fast-forward. Mas do PS1 para o PS4 nos deu meio que... hã... água mais brilhante e bundas com mais polígonos, eu acho.

Okay, isso não é tecnicamente verdade, mas a ideia da coisa é por aí mesmo

Como você pode ver, nenhum dos minigames no Crash Bash é terrível. Nem um. Eles são todos… bem ok. Competentes. Funcionais. Perfeitamente utilizáveis naquele jeito "isso pode ser divertido por um tempo se você não tem nada melhor para fazer e a pizza ainda não chegou".

O problema real não é qualidade — é quantidade. Você só ganha seis tipos reais de minigame, e acabou. Seis. Para um party game. Mesmo com amigos (hipoteticamente — você sabe, uma espécie que eu só conheço através de documentários), imagino que a diversão acabe mais rápido que a tigela de Doritos numa LAN party.

Mas aqui está o que eu tenho certeza: mesmo que o Crash Bash tenha tão poucos minigames, ele ainda te força a desbloqueá-los através do modo "história" implacavelmente difícil do jogo — uma das campanhas cooperativas mais punitivas do PS1. E é cooperativo só para dois jogadores, atenção. Você não pode simplesmente comprar o jogo, colocar o CD, conectar um Multitap e curtir um caos de quatro jogadores. Não. Você tem que ralar através de uma das experiências single/co-op mais difíceis do PS1 antes que o jogo sequer permita que você acesse o conteúdo de party game que você queria.

Isso é… me perdoem o vocabulário baixo aqui: uma escolha de design muito infeliz da Eurocom. Claro, parte disso vem do fato de que o acervo do PS1 não está exatamente transbordando de party games para quatro jogadores. Esse território pertence ao N64, o rei indiscutível do multiplayer no sofá no final dos anos 90. No PS1, dificilmente alguém sequer tentou competir. E você pode sentir que a Eurocom sabia disso.

Há uma certa preguiça em Crash Bash. A seleção de personagem, por exemplo, é absurdamente preguiçosa ao ponto que no time dos "mocinhos" temos apenas os irmãos Bandicoot, Crash e Coco — o resto são vilões catados dos outros jogos, e nem os mais famosos como Ripper Roo ou o Dr. N. Gin. Meio que parece que algumas decisões de design parecem ter sido feitas numa tarde de sexta-feira por desenvolvedores que só queriam ir para casa. E se você ouvir com atenção, quase consegue ouvir a Eurocom tomando chá e te encarando com a calma confiança de alguém que sabe que segura a única carta do baralho:

"Ah, você não gostou? Que pena, mate.
Vá em frente então — jogue os outros party games do PS1.
…Ah, espere.
Não há nenhum outro.
Blimey!"

Então enquanto não seja terrível, definitivamente não é uma grande escolha para um party game. Se você está procurando um bom jogo para jogar com seus amigos, e por algum motivo precisa absolutamente ser um jogo do Crash pq sei lá, vc tem um fetiche muito específico em marsupiais seu esquisitão, então fique com CRASH TEAM RACING mesmo.

MATÉRIA NA AÇÃO GAMES
EDIÇÃO 153 (Julho de 2000)


MATÉRIA NA SUPER GAME POWER
EDIÇÃO 077 (Agosto de 2000)