Sabe, a parte que as pessoas nuncam pensam muito na hora de fazer um pacto com o diabo é que, mais cedo ou mais tarde, o diabo vem cobrar a sua parte. Eu entendo, de verdade. Você está naquela encruzilhada à meia-noite, o luar refletindo nas poças das suas escolhas de vida duvidosas, pensando em todo o poder, dinheiro e Pokémon que poderia ganhar do Príncipe das Trevas em troca da sua alma mortal. É difícil pensar nas letras miúdas que vão aparecer num futuro distante. Isso é um "problema do você-do-futuro", certo?
Em 1995, a Pixar não era exatamente um loft repleto de artistas passando fome. Ser propriedade de Steve Jobs te dá um certo nível de "não-ser-pobre". Mas eles também não estavam nadando em dinheiro—porque a coisa a respeito de pessoas ricas (e isso pode chocá-lo) é que elas gostam de ganhar dinheiro, não gastar dinheiro. Isso é meio que os fez serem ricos pra começo de conversa.
Então Jobs, com aquele temperamento caloroso, gentil e de fala mansa que todos nós tão bem conhecemos dele, não estava nada animado com a falta de retorno imediato da Pixar. Entre pagar a conta do ar-condicionado (porque os verões da Califórnia são basicamente o suvaco do capiroto) e ouvir o Steve dia sim dia não ir full Jerry Maguire e gritar "SHOW ME THE MONEY", ser o CEO da Pixar não era exatamente o trabalho dos sonhos.
Quem saberia mais sobre distribuição, marketing, merchandising, sinergia e outras artes obscuras corporativas do que a Disney em meados dos anos 90? Ninguém. Absolutamente ninguém, eu te digo. Então a Pixar assinou o contrato, estourou o champanhe e provavelmente ligou pro Jobs pra dizer que ele podia comprar um guarda-roupa inteiro de turtlenecks pretas, porque os bons tempos estavam chegando.
E o dinheiro veio. Nossa, como veio.
Já falei sobre TOY STORY antes, e mesmo se você não leu minha review (seu monstro sem alma), qualé—é TOY STORY. Se eu tenho que explicar TOY STORY pra você, então seus problemas são maiores do que eu ou qualquer terapeuta licenciado estamos qualificados para te ajudar. TOY STORY aconteceu, história foi feita, críticos elogiaram, a bilheteria explodiu, crianças em toda parte imploraram por brinquedos do Buzz Lightyear até seus pais considerarem deserdá-las. Viva, confete, vai time, etc.
Então imagine: John Lasseter, Joss Whedon, Joel Cohen (não aquele famoso que tem com o irmão—esse é o outro Joel Coehn) e a turma da Pixar cambaleiam de volta para o escritório depois da festa de comemoração "Tudo Foi Super Bem!". Todo mundo animado, sucesso no ar, provavelmente ainda com confete grudado no cabelo de alguém.
Então, aqui está o acordo: em meados dos anos 90, a Disney havia descoberto um novo hobby favorito—transformar todo clássico de animação amado numa sequência direto-pro-vídeo medíocre, e depois transformar isso num desenho de sábado de manhã. ALADDIN ganhou uma. Timão & Pumba ganharam uma. TARZAN idem. A Pequena Sereia ressurgiu com uma. HERCULES ganhou uma prequel de ensino médio, porque por que não? E eu tenho quase certeza de que, em algum momento, alguém numa sala de reunião da Disney se levantou e disse: "Me escutem… O Corcunda de Notre Dame: A Série!" Provavelmente com menos músicas de "queimem a cigana" e mais energia de "Fébus resolve um mistério com seu animal de estimação!" Mas a intenção estava lá.
Então, naturalmente, com Toy Story sendo agora a coisa mais quente desde que o primeiro atomo de hidrogenio fez fissão nuclear, a Disney queria uma fatia daquele universo para seu Disney Afternoon (programa que foi mais ou menos adaptado aqui como TV CRUJ... não era bem isso, mas a ideia era por aí). A reação da Pixar, obviamente, foi algo entre "absolutamente não" e "preferimos tomar banho em plástico derretido". Eles educadamente explicaram que eles não faziam animação 2D, muito obrigado. E animação 3D pra TV? Aquilo ainda era um antigo ofício proibido praticado apenas por bruxos canadenses malucos num porão — os fãs de REBOOT e TRANSFORMERS: Beast Wars sabem exatamente do que eu estou falando.
Mais importante, a Pixar não tinha interesse algum em diminuir sua visão artistica para o universo de Toy Story num desenho aleatório, sem riscos, estilo Scooby-Doo-lite, "risada no final enquanto a moral do dia é repetida para todas crianças memorizarem". Eles tinham uma visão cinematográfica. Integridade artística. E talvez PTSD de animar o monstro bebê sem cabelo de Toy Story.
Os executivos da Disney então olharam para eles confusos, como se a Pixar tivesse acabado de recusar trabalho infantil do sudeste asiático.
Não, não, Pixar—houve um mal-entendido.
Eles não estavam pedindo ajuda.
E com certeza não estavam pedindo permissão.
Eles estavam simplesmente informando à Pixar, por cortesia profissional (e mais importante, para evitar qualquer ruído de comunicação perante a imprensa), que isso ia acontecer. O seriado. O spin-off. A extensão da marca. Já estava em movimento.
Porque eles podiam fazer.
E eles certamente fariam.
Isso é o que acontece quando você assina um contrato de distribuição com cláusulas densas o suficiente para serem usadas como armadura medieval. Bem-vindos ao mundo adulto, Pixar. The Mouse has Spoken.
O máximo que a Pixar conseguiu fazer para evitar essa tragédia —o equivalente animado de ver seus filhos serem adotados por um circo itinerante—foi implorar, suplicar e usar truque mental Jedi em Michael Eisner para adiar a coisa toda até depois de TOY STORY 2. Não porque Eisner se importasse com integridade artística (ha!), mas porque a Pixar argumentou que "iria supersaturar o mercado", "confundir a identidade da marca" e outros eufemismos corporativos para: "Por favor, não dê uma cagada gigante nas nossas criações mais amadas antes mesmo de terminarmos a sequência."
Surpreendentemente, funcionou.
Mais ou menos.
Então o spin-off de TV de Toy Story ficou na gaveta até TOY STORY 2 chegar aos cinemas. Vitória! Champanhe! Alguns animadores da Pixar desmaiaram de alívio!
…Exceto que isso foi a única coisa que eles conseguiram ganhar.
Porque enquanto a Pixar estava ocupada polindo TOY STORY 2, executivos da Disney estavam em alguma sala de reunião discutindo exatamente como iriam retalhar o universo de Toy Story para a televisão. Não se. Como.
Um dos pitches iniciais envolvia uma versão do mundo do Xerife Woody onde o mundo moderno era adaptado ao tema de faroeste, meio que como muitas piadas de Shrek—mas com menos peidos. Eu espero. A outra ideia seria focar o seriado inteiro nos alienzinhos verdes. Sim, ir full Minions antes mesmo dos Minions existirem. E olha, teria sido cocaína pura e sem filtro de merchandising. Só as vendas de brinquedos teriam deixado a Disney tão rica que eles poderiam ter comprado a Pixar, os Estados Unidos inteiros, a lua e provavelmente eu e você.
Mas, nada disso aconteceu.
Em vez disso, a Disney decidiu se agarrar a um detalhe específico de Toy Story: o desenho dentro do universo que supostamente fez o Andy querer um brinquedo do Buzz Lightyear em primeiro lugar.
"Ei", alguém disse, "e se a gente fizer aquele desenho? Sabe, o desenho que o Andy assiste? O desenho de onde o Buzz Lightyear veio?"
E então assim nascia Buzz Lightyear do Comando Estelar.
Não o Buzz do filme.
O Buzz que inspirou o Buzz do filme.
O Buzz que fez o Andy amar o Buzz tanto que ele—
…é, fica confuso.
Mas não se esforce tanto para entender, a Disney não se preocupou com continuidade, então por que você deveria?
Então, a primeira coisa que você tem que ajustr suas expectativas é o seguinte: o Buzz Lightyear desse seriado não é o Buzz Lightyear dos filmes.
[SIM, AQUELE DO FILME É UM BRINQUEDO, OBVIAMENTE]
Muito observador, Jorge. Mas não—o que quero dizer é que eles nem sequer compartilham a mesma personalidade. A Pixar tem uma maneira muito específica, muito peculiar, de escrever o Buzz Lightyear. O Buzz do filme é partes iguais de herói corajoso, policial espacial iludido, rejeito shakespeariano melodramático e o cara que absolutamente acredita que o guarda de segurança do shopping é um oficial de lei de verdade. Esse coquetel estranho de sinceridade e absurdo é a magia da Pixar.
A Walt Disney Television Animation é… não é a Pixar.
Então o que a equipe de TV fez? Eles basicamente deram de ombros e disseram, "Eh, perto o suficiente", e reescreveram o Buzz como um tipo genérico de "patrulheiro galáctico que segue as regras, senhor, sim senhor!". Sabe, o tipo de personagem que sangra bege. Enquanto isso, John Lasseter estava em alguma reunião tendo um leve aneurisma, gritando que era PATRULHEIRO ESPACIAL, PATRULHEIRO ESPACIAL, não "patrulheiro galáctico", não "xerife interestelar", não "policial de shopping cósmico", mas PATRULHEIRO ESPACIAL, pelo amor de Zurg.
Os roteiristas de TV olharam para ele por aproximadamente três segundos, lembraram dos seus salários, lembraram dos prazos e calmamente rabiscaram suas anotações. Crise evitada. Mas aqui está a coisa: eu provavelmente não preciso te dizer o quão inferior é a caracterização do Buzz aqui. Essa parte é óbvia. Você consegue sentir o downgrade só de olhar pra tela.
Exceto… que tem uma parte que funciona. Mais ou menos.Veja, a Disney Television Animation definitivamente não recebeu verba para esse projeto a ponto de poder pagar pelo Tim Allen, então contrataram Patrick Warburton no lugar. E não me entenda mal—Warburton é ótimo! Ele é engraçado! É icônico! Ele é a voz originl do Kronk, pelo amor de Deus! Mas ele também não é o Tim Allen, e a mudança de tom é bem perceptível em inglês.
No entanto, aqui a gente deu sorte nisso. Isso pq a Disney manteve o Guilherme Briggs como Buzz Lightyear. E isso muda completamente a experiência. O tranco tonal é muito mais suave porque o Briggs É o Buzz Lightyear para a gente. Claro, o roteiro é pior—às vezes ofensivamente pior—, mas não é como se um roteiro ruim já tivesse impedido o Briggs de carregar um papel. O homem é o Noé da dublagem, de tanto animal que ele já carregou.
Então sim, o seriado pode ser o Buzz de segunda linha. Um Buzz da Shopee. Made in Taubaté. Mas, pelo menos pra gente, a voz ainda é uma experiencia premium. É tão raro na cultura pop nós, residentes do terceiro mundo, sairmos por cima mas quando acontece? Ah, como é doce o gosto da vitória.
Então o que temos aqui é o Buzz de liquidação liderando uma equipe de Patrulheiros Espaciais novatos. E honestamente, minha maior crítica é com a composição da equipe em si. Vamos começar com o Booster—o Cara Grande™.
Você já sabe o propósito dele. Ele existe para cumprir o sagrado papel dos desenhos dos anos 90 de que alguém deve ser o "cara gordo que tropeça nas coisas ou senta em cima de alguem". Ele é pesado, fica preso, só pensa em comida, o velho raguru da comédia pastelão. Os roteiristas basicamente disseram: "Piadas de gordo, check" e era isso.
Depois tem o XR, a versão do seriado para o Iago de ALADDIN. Ele é o tagarela malandrão, moralmente flexível, que acompanha os heróis porque o seriado precisa de um alívio cômico que não sejam só piadas de gordo. E vou ser sincero—ele é o único personagem que eu genuinamente gosto. O fato de ele considerar o Comandante Nebula seu pai porque Nebula assinou sem querer a papelada autorizando sua criação foi uma sacada realmente boa, pq o XR ansiando pela aprovação do "pai" enquanto Nebula fica tipo "what the actual fuck?!?" é perfeito.
Se você já se perguntou como seria o Shinji Ikari se ele fosse um personagem do Tex Avery em vez de um adolescente deprimido emocionalmente esmagado pela vida, parabéns: XR é sua resposta. Taí algo que eu nunca imaginei dizer.
E finalmente, chegamos à Mira Nova, a cadete prodígio.
Minha nossa.
Okay, deixa eu colocar isso com cuidado porque não quero que soe errado: eu amo personagens femininas fortes. Vão se foderem, meu personagem de games favorito de todos os tempos é a Samus Aran, pelo amor da Mother Brain. Minha definição infantil de "legal" era uma mulher de armadura espacial explodindo planetas. Então esse não é o problema.
O problema é que eles foram longe demais com a Mira Nova. Tipo, níveis de "eles testaram isso?" de longe demais. Sim, essa é uma daquelas personagens femininas que é é boa demais em tudo. Muito perfeita. Muito competente. Muito tudo. O tempo todo. Ela é tão habilidosa em combate quanto o próprio Buzz, o que significa que toda cena de ação basicamente duplica o mesmo modelo de personagem: Buzz #1 e Buzz #2 fazendo os mesmos movimentos, mas um deles tem pele azul. Não há contraste, não há pontos fortes complementares—apenas heroísmo paralelo.
Mas espere—ela também é uma princesa.
Claro que ela é.
Porque alguém na sala de roteiristas lembro que a Disney gosta de princesas.
E para completar, ela tem poderes de intangibilidade tipo Kitty Pryde, o que significa que ela é literalmente invulnerável, a não ser que esqueça que pode ficar intangível… o que ela convenientemente esquece sempre que a trama precisa que ela não resolva todo problema em dois segundos.
Agora, para ser justo, os poderes da Kitty Pryde também são absurdamente quebrados—tão quebrados que a maioria dos roteiristas dos X-Men só finge que ela esquece deles. Mas ainda assim, o kit de ferramentas da Nova é basicamente:
- Pode lutar tão bem quanto o herói mais condecorado da galáxia
- Realeza
- Pode ignorar qualquer obstáculo físico
- Pode ignorar qualquer ataque físico
- Não precisa seguir regulamentos como o Buzz
- Faz o que quer porque quem vai impedi-la? Se nem as leis da física se aplicam a ela...
Sua única desvantagem é que às vezes… ela duvida de si mesma.
Aww. Tão identificável.
Deve ser realmnte muito difícil ser uma literal máquina da perfeição o tempo todo.
Porque nada tempera melhor um elenco do que uma Mary Sue lembrando a todos o quão não-invencíveis eles são.
Mas enfim, nossas aventuras aqui orbitam—literalmente—as armações do Imperador Zurg... embora eu nunca entendi do que exatamente o Zurg é o Imperador. Um planeta? Um sistema estelar? Um grupo no WhatsApp? Nenhuma ideia.
Enquanto isso, os Patrulheiros Espaciais desfrutam de uma existência diária surpreendentemente pacífica. Pacífica no sentido de que apenas uma equipe—nossos heróis—se dá ao trabalho de fazer alguma coisa. O resto do Comando Estelar é basicamente o cabide de emprego mais caro da galáxia. Batalhões inteiros de patrulheiros existem apenas para ficar em pé no fundo e acenar com a cabeça.
A maioria dos episódios se baseia em convenções clássicas de ficção científica. Você praticamente consegue ouvir os roteiristas abrindo a caixa de "Grandes Sucessos da Ficção Científica":
- Episódio de zoológico alienígena ✔
- Proteger um senador importante ✔
- Versões malvadas do universo alternativo (com cavanhaque!) ✔
- Trapalhadas de clonar-um-voce-mais-jovem ✔
- Criminosos espaciais aleatórios da semana ✔
É o pacote completo do sábado de manhã. Agora, para que fiquemos todos na mesma página, isso não é exatamente um problema. Esses tropos são bem feitinhos e, para o crédito do seriado, algumas histórias realmente te surpreendem.
Tipo um episódio onde o Buzz voa por um buraco de minhoca e acorda várias centenas de anos no futuro. Ele rapidamente descobre que os Patrulheiros Espaciais limparam a galáxia inteira há eras, deixando o Buzz do futuro sem propósito, exceto para dar TED Talks inspiradores para crianças entediadas na escola. É divertidamente estranho.
Aí—plot twitter—é tudo uma grande enganação arquitetada por Zurg, que pegou o corpo inconsciente do Buzz do buraco de minhoca e construiu um futuro utópico falso inteiro apenas para enganá-lo e fazê-lo revelar informações secretas do Comando Estelar. O que é meio que a premissa de um episódio de "Rick and Morty" anos antes de Rick and Morty sequer existir, então kudos onde kudos são devidos.
E alguns conceitos até são tão bizarros que dão a volta e se tornam divertidos, como o vampiro robô.
Sim, um vampiro robô.
Um que morde Patrulheiros Espaciais no pescoço—mas como os Patrulheiros usam trajes de proteção completos, o vampiro acaba controlando seus trajes como seus lacaios mortos-vivos.
O que… o que os roteiristas estavam fumando?
E onde posso conseguir um pouco?
Para fins puramente academicos.
Então é, os episódios não são terríveis e a coisa toda é bem assistível... mas meio que é só até onde vai também. O que torna um pouco difícil engolir a ideia de que esse seriado supostamente conquistou o mundo do Andy. Nos dizem que o boneco de ação do Buzz Lightyear se tornou o brinquedo mais vendido de todos os tempos, um maremoto cultural como a humanidade nunca tinha visto. Mas depois de assistir ao seriado que supostamente inspirou essa frenesi? É… não tô comprando.
Não é terrível—longe de ser a pior coisa que a Disney TV Animation já cuspiu—, mas o universo de Toy Story já havia estabelecido o Buzz como um gigante da cultura pop, e eu simplesmente não consigo imaginar as crianças dos anos 90 perdendo a cabeça coletivamente por causa disso. Numa época em que as crianças eram alimentadas com Batman: A Série Animada, GARGOYLES, REBOOT e alguns outros… Buzz Lightyear do Comando Estelar não seria sequer uma nota de rodapé.
E depois tem as questões técnicas. A animação é… palavra educada: inconsistente. Os personagens se movem com a inquietação frenética de pessoas que realmente precisam fazer xixi. O diálogo é corrido e sem ritmo (ao que a dublagem brasileira melhora um pouco, mas não faz milagre). Para dar um exemplo do quão fraca é a direção da coisa, tem um momento onde todos os Patrulheiros Espaciais pairaram dramaticamente em formação, prontos para salvar o dia… exceto que a cena simplesmente corta no meio do pan dramático. Você praticamente consegue ouvir o editor dizendo: "Olha, temos mais três episódios para terminar até sexta, só corta o resto."
E ainda assim, não é ruim per se. Um em cada quatro protagonistas é realmente simpático, as piadas são consistentemente okay, os roteiros dos episódios são sólidos e eu definitivamente não tive um tempo terrível assistindo. Mas mesmo com um roteiro craitivo ocasional, eu não conseguia me livrar da sensação de que o seriado poderia ter sido muito mais—maior, mais ousado, realmente épico. Algo que faria crianças como o Andy venerarem o Buzz como a segunda vinda de Luke Skywalker. Em vez disso, o que temos é diversão de baixo risco, uma distração agradável que nunca chega perto de corresponder ao mito que Toy Story alegava ter.
Bem, o final da história é que a Pixar odeia esse seriado—e, pra ser sincero, a Disney também não está exatamente enviando cartões de Dia dos Namorados para ele. Até hoje, Buzz Lightyear do Comando Estelar permanece misteriosamente ausente do Disney+, e graças ao outro projeto de origem do Buzz Lightyear (Lightyear, 2022), ele provavelmente ficará trancado no cofre para sempre para evitar confundir ainda mais a marca. Embora, se a Disney TIVESSE que escolher entre os dois, honestamente eu ainda escolheria esta série—não porque é algum clássico perdido (como eu disse, é assistível, e é só isso), mas porque o filme… ah, bem. Eventualmente vou falar sobre isso.
O que eu TENHO que falar agora é o jogo licenciado. Porque claro que tem um jogo tie-in. E ele é… bem, alguma coisa.
Desenvolvido pela Traveller's Tales (durante uma época estranha à matriz espaço-tempo que conhecemos hoje onde eles ainda tinham permissão para fazer jogos que não eram de Lego), essa coisa é… hã… um híbrido de corrida e plataforma 3D? Um jogo de plataforma 3D com linha de chegada? Um primo perdido do PEPSIMAN?
Quando vi pela primeira vez, esperava um collect-a-thon 3D no estilo de DISNEY•PIXAR TOY STORY 2: Buzz Lightyear To The Rescue, mas não. Cada fase é essencialmente uma corrida contra o chefe em uma pista linear que parece que alguém jogou algumas fases de perseguição do CRASH BANDICOOT e disse: "Sim. Mas e se a gente fizesse SÓ isso?"
A parte estranha, no entanto, é que você não precisa realmente vencer a corrida. O chefe só precisa não te deixar muito pra trás, contanto que você cruze a linha de chegada até 15 segundos depois dele, o jogo dá de ombros e diz: "Bom o suficiente, campeão", e então te joga numa luta de chefe de verdade. Hã. Nessas lutas você derrota cada inimigo sua munição para a cor do escudo dele, não é realmente complicado.
Depois de vencer um chefe, você pode então refazer o nível no modo Time Attack ou uma caça ao tesouro cronometrada onde você coleta pedaços do XR espalhados. Esses desafios concedem medalhas, e você precisa de um número mínimo de medalhas para desbloquear a próxima fase. Em outras palavras: não, você não vai conseguir passar só fazendo as corridas principais. Você também ganha meias-medalhas por tarefas opcionais como resgatar todos os alienzinhos verdes, atingir uma pontuação minima ou bater o recorde de tempo da fase. Mas essas são principalmente para os 100% completistas, você não precisa das meia-medalhas pra terminar o jogo.
Tudo isso faz de BUZZ LIGHTYEAR DO COMANDO ESTELAR... um jogo muito estranho. Quer dizer, obviamente é voltado para crianças (porque quem mais no Infinito ou Além se importaria com esse desenho?), mas aí ele não se dá ao trabalho de explicar metade de suas próprias mecânicas. Se você quiser saber como pegar as medalhas, tem que ler o manual. Quem desenha um jogo para crianças onde ler o manual é obrigatório?
Mas enfim, não é terrível… só não é muito bom também. Fica repetitivo depois de um tempo, mas não de uma forma que te ofenda ou faça questionar suas escolhas de vida. E quer saber? Isso é exatamente a mesma coisa que você pode dizer sobre o seriado. O que significa que este pode muito bem ser uma das adaptações de videogame mais fiéis de todos os tempos—porque jogar este jogo parece muito com assistir ao desenho.
Não uma experiência super-duper-incrível, nem uma abominação amaldiçoada—apenas algo que existe. E no final das contas, essa é exatamente a lembrança que Buzz Anoluz do Comando Estelar merece.
MATÉRIA NA GAMERSEDIÇÃO 074 (Julho de 2000 - Semana 4)

















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